Abundância

Estava no mercado ainda agora, e fiquei muito feliz quando vi que o fígado estava na promoção. Além de ser apaixonada pelo gosto – que, entendo, não é pra todos – acredito nos antigos, e antigamente o fígado era consumido como tratamento para anemia e outras “fraquezas” do sangue. De lá pra cá, muita coisa mudou, especialmente a forma como os animais são criados. É triste saber que, dependendo da procedência (e essas coisas de checar firme a procedência quando você tem orçamento são complicadas rs), o fígado pode ser contaminado pela forma como o boi viveu. A alimentação, antibióticos e outras toxinas do modo bizarro com que a agropecuária funciona nas últimas décadas afetam a saúde dos animais, e podem fazer com que consumir fígado não seja uma boa ideia. De qualquer forma, tendo a não acreditar em tudo que leio na internet, e sendo apaixonada por fígado e pelos costumes que aprendi ao longo da vida, fui direto para a geladeira de miúdos.

Estava escolhendo as bandejas, quando uma moça me perguntou “isso é o que?”. Eu respondi e ela começou a falar sobre como comprava aquilo pro cachorro. Senti uma pontada no coração. Pro cachorro? Nada contra os catioríneos, e inclusive adoro, mas é triste pensar na quantidade de gente no mundo que teria a dieta enriquecida por um pedaço de fígado. Daí é triste pensar como estes costumes – sobre ervas, temperos, legumes e carnes – vão sendo esquecidos através do tempo, com o crescimento da industria farmacêutica e dos alimentos processados. Pega uma carne, qualquer uma, dá uma roupagem bonita e pronto, é moda. E então aquele corte específico – antes relegados as camadas menos abastadas da sociedade – passa a custar caro e ser acessível somente por quem tem mais dinheiro. Com a rabada foi assim. Com a sardinha também. Uma começou a aparecer em pratos da cozinha contemporânea, reportagens no jornal e pronto, o preço subiu vertiginosamente. A outra virou comida saudável, rica em ômega 3, maravilhosa para uma porção de coisas. Ainda se acha sardinha a preços razoáveis, mas nunca mais ela foi tão acessível e comum quanto antigamente.

E então eu estava lá, com minha bandeja de fígado na mão, pensando em como um fígado fresco, de um bicho criado feliz, seria muito mais saboroso. Eu estava lá pensando no quanto aquela carne me lembra infância, e pras pessoas de maneira geral aquilo é a rapa do tacho. É coisa de pobre. É comida de cachorro. E é triste essa associação. É triste quando o valor da comida é atrelado a essa ideia de poder de compra, e é triste que a sociedade funcione assim. Pensando nessas coisas tristes, me veio uma coisa muito feliz: isso é abundância. Eu ficava pensando que abundância e prosperidade tinham a ver com alcançar mais, fosse mais dinheiro ou sucesso ou qualquer coisa do tipo. Não de uma forma capetalista, pensava eu, de uma forma boa e saudável. Aí eu estava lá, fígado na mão, e me bateu de uma vez que não é sobre ter mais, ganhar mais, alcançar mais. É sobre ser o mais feliz possível com o mínimo possível. Comer quando der fome. Beber quando der sede. Valorizar a água e a comida, valorizar a vida e os acontecimentos.

Isso não é sobre se conformar. Não é sobre aceitar calado o que não concorda ou quer para a vida. Se a gente consegue se sentir pleno, próspero e cheio de abundância com o que temos agora, a vida se encaminha. Se você é feliz com o que tem em todos os momentos, nada te abala. Me senti feliz e plena com a realização de que minha alimentação e a forma como me relaciono com o mundo tem a ver com esses costumes e conhecimentos que me vieram, do que com qualquer noção de alimentação saudável do mundo contemporâneo. Por me sentir assim, senti a abundância que existe na minha vida e no meu lar: sempre temos o que comer e beber. Começamos a plantar nossos alimentos. Vibramos positivo no mar de caos da sociedade. E isso é suficiente pra encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila, sabendo que corro atrás dos meus sonhos na minha própria velocidade. Essa é a verdadeira abundância!

Mais do que qualquer mudança de vida, é tudo sempre muito mais interno: a realidade é o reflexo de como nos relacionamos com ela.

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