Ação

O primeiro site pago que eu fiz demorou quase um mês pra ficar pronto. Era simples, mas fofo, uma loja virtual para a marca de uma conhecida da época. Até então, minha experiência com desenvolvimento era quase nula. Mexia em HTML e CSS na adolescência, pra atualizar meus blogs, mas parava por aí. Ver as trocentas letrinhas e números miúdos dispostos no que parecia pra mim um rascunho do inferno chegava a dar dor de cabeça instantânea, e eu pensava que nunca nunca nunca mexeria com aquilo. Alguns anos depois já estava acostumada a colocar um site inteiro no ar em um dia.

É engraçado aprender as coisas por conta própria. Uma benção e uma maldição. Se por um lado ser entrona e ativa me possibilitou ter uma porção de experiências, me sustentar e aprender coisas novas todos os dias, por outro lado é um caminho extremamente solitário. As pessoas crescem acostumadas a serem ensinadas, guiadas, movidas. Ação é uma das coisas mas desvalorizadas no mundo: é preciso ser passivo, seguir ordens, não causar confusão. Criados em um sistema educacional que serve somente para nos preparar para o “””mercado de trabalho”””, somos conduzidos ano a ano à inação. A essa altura da vida, eu não tenho mais saco pra quem não se propõe a fazer as coisas de verdade. Ou você faz ou você não faz. Não existe meio termo, não existe nuance, ou você começa e vai seguindo ou você não começa e fica aí. Zero questões em qualquer das duas opções, mas, se você se propõe a viver fazendo, você precisa fazer.

Me vejo vira e mexe tomada pelo estresse e a ansiedade quando me percebo acumulando mais funções e responsabilidades do que deveria e, vivendo em um mundo de gente passiva, ser ativo é uma merda. Eu faço rápido, eu faço preciso, se eu não sei aprendo, se não encontrei pergunto. Não existe tempo pro medo de errar, só existe espaço pra aprender. Se eu não tivesse passado aquele quase um mês com enxaqueca e vontade de jogar o computador pela janela, mas voltando ao trabalho todo dia (na época cobrei o valor – irrisório pra um site – de R$ 600, dada a minha inexperiência), eu não colocaria um site no ar em um dia hoje. Eu me propus a deixar de sair, de me divertir, de uma porção de coisas, pra adquirir esse aprendizado. Depois do grosso desse tempo, o resto veio fluido e fácil ao longo dos anos, com alguns desafios pelo caminho pra não perder a graça. Mas eu me propus. Eu levantei e fiz. Eu não olhei todos os dias para o computador esperando que algum texto ou pessoa ou curso fosse me fazer aprender tudo que eu precisava pra entregar o site no prazo. Por mais tutoriais e menos aulas. Aula é chatice. Aula é conteúdo vazio massacrado em cima. O tutorial, o guia, não. Você pode terminar frustrado, encafifado, perdido, mas você termina sabendo mais do que quando entrou. O saber prático, real, não a vomitação vazia da academia. Eu prefiro levantar o prédio do que ler sobre ele. Prefiro que falem sobre mim do que ler sobre os outros. É preciso ego, autoestima, autoconfiança pra escolher o caminho da ação. Se eu tive essas coisas durante todo o tempo? Não, não mesmo. Nem de muito longe. Não tenho essas coisas em um modo forte e completo até hoje. Mas eu liguei a caralha do computador e trabalhei. Eu me propus, e quando eu me proponho, vou até o final.

Mas quem vai, né, quando pode não ir? Quando pode comprar o computador ou o instrumento ou a máquina ou a ferramenta cara depois de procurar por meses e meses ou talvez de estalo, dependendo da personalidade, e então fingir que vai fazer. Então ameaçar fazer. E quando um dom inato, enorme e mágico não acontece, você larga a coisa pra lá. Você deixa ela de lado e pensa que não era pra você ou que não era o momento, ao invés de enfiar o orgulho e o ego no cu e tentar até os dedos sangrarem. Tentar até dar certo. Tentar até você sentir que tentou até o seu último fio de cabelo. Tentar ao invés de fingir que tentou e se convencer disso. Ao invés de ignorar o fato de que somente a dedicação e a prática levam a algum lugar.

Não dá mais pra viver nesse mar de “tá tudo bem se não deu certo, você pode tentar de novo”, quando a tentativa é esse fingimento vazio. Sinto que o mundo caminha cada vez mais pra uma moleza, uma frouxidão nunca antes vista. Uma coisa assim que só é possível mesmo num mundo dominado por homens, os arautos da frouxidão. Tá pra andar pela terra algo mais capaz de tirar o corpo fora e fingir que fez as coisas do que homem (mas esse é assunto pra outro post).

Enfim, talvez eu já tenha até me perdido. Divagação sobre divagação e a gente acaba assim. Mas eu não sei, não aguento. Meu corpo é incapaz de aceitar desculpas, se eu podia ter dado as mesmas desculpas e não dei. Eu não tô falando de gente sem condições ou acesso ou privilégios. Eu tô falando de jovens da classe média com tudo e mais um pouco. Gente que tem e teve muito mais do que eu jamais sonhei na vida. Mas vai ver é isso. É o não ter que faz a gente ser sagaz e correr atrás até se exaurir. Daí vem o jovem da classe média e suas terapias e suas rebeldias e sua solidão querer me convencer de que eu preciso passar a mão na minha própria cabeça e me contentar, porque tem dias que são difíceis mesmo. Eu entendo, é real. Mas se todos os dias são difíceis e coisas que levariam poucos meses tomam anos da sua vida, talvez você esteja passando a mão demais na própria cabeça. Cuidado pra não engordurar o cabelo.

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