Não fuja pras montanhas

A figura do monge me entristece. Não vejo a grandeza da abdicação. Quando olho o monge, eu vejo alguém que por alguma razão escolheu se abster do convívio social, em muitos casos as custas do bem estar de outra (ou outras) pessoas. Pra cada homem muito velho e sábio e reconhecido e lembrado, tem uma mulher que se fudeu pelas atitudes dele. Uma mãe que pagava as contas e catava os cacos. Uma tia que dava mesada. Uma esposa que ficou pra trás com filhos e nenhuma renda. E se você entra nos que não fuderam ninguém, são só pessoas que não viveram, pura e simplesmente. Porque parece muito bonito e poético e romântico largar tudo e ir pras montanhas, mas a realidade é essa: abrir mão do autoconhecimento real – que só conseguimos no convívio e no diálogo com outros seres humanos – para uma suposta vida espiritualizada é basicamente não viver.

Mas isso não é meio radical?

Mais radical do que largar tudo e ir pras montanhas? Creio que não. Espero a essa altura que você entenda “as montanhas” como qualquer uma dessas buscas por espiritualidade que terminam no isolamento. Bônus se a motivação forem práticas orientais ancestrais. Mais bônus ainda se tiver a ver com a Índia. Você não vai se conhecer mais porque usa bata e raspou a cabeça. Você não vai se conhecer mais entoando um mantra por horas e horas e horas. Também não vai se conhecer mais deixando as pessoas pra trás.

Mas você se conhece em cada briga. Em cada vez que quis falar e não disse. Em cada percepção sobre o seu corpo e a sua cabeça. Você se conhece quando se joga sem medo. Quando erra e aceita que errou. Quando pede desculpa do fundo do coração. Quando se compromete a melhorar. Os mantras e batas e práticas podem até ajudar, mas ir de cabeça é se abster, e se abster é se alienar. A tão falada atenção plena tem que vir de dentro pra fora, e não o contrário. Quando você tem atenção em você, nos seus processos, no seu crescimento, de uma maneira gentil e não egoísta, o mundo ao seu redor começa a mudar. Não é balela, não tem fundo religioso, não precisa de isolamento. Se o autoconhecimento te leva ao isolamento e não ao compartilhamento, ele realmente contribui pro teu crescimento como pessoa? Ele realmente contribui pro mundo?

Qualquer pessoa que passar uma semana em um retiro – e eu tô falando dos brandos, sem nem mencionar coisas como silêncio absoluto rs – vai voltar renovada das ideias, leve, feliz. O problema é que as pessoas confundem as coisas: não foi o retiro em si, ou a filosofia do retiro que te fez bem. O que te fez bem foi sair da vida de bosta da cidade grande. Aí a pessoa volta e uma semana depois tá escaralhada de estresse de novo. Lógico. Ser tranquilo, pacífico, centrado e sábio quando tiramos todas essas camadas é muito fácil. Agora imagina ir enfiando, mesmo que seja a força a princípio, todas essas práticas no dia a dia da vida real? Imagina respirar profundamente todo dia de manhã. Imagina ser grato. Prestar atenção nas flores. Imagina se perdoar e se amar de verdade. Imagina não precisar do retiro.

Enfim, é isso. Não fuja pras montanhas. Nem pra lugar nenhum. Não fuja de você e de tudo que você pode ser. Não fuja do mundo real. Contribua para a construção de um mundo real que comporte a espiritualidade, que comporte o autoconhecimento, que comporte a autocura. Que comporte até o isolamento, que de vez em quando se faz necessário pra gente lidar com os furacões da mente. Da próxima vez que der vontade de fugir ou se entregar a mais alguma filosofia milenar e milenarmente transformada em mais uma balela falocêntrica e patriarcal, vá de encontro ao que te faz querer fugir. Vai correndo. Vai pra colidir. Pega os cacos e reconstrói. Visite a montanha. Ame a montanha. Não fuja pra ela.

Gratidão e pensamento positivo: como sobreviver a quarentena de dentro pra fora

Desde que começou a quarentena, a vida virou um carrossel de emoções. Experienciei diferentes fases do luto, especialmente a negação, e agora que superei a raiva e a tristeza, consigo olhar pro ano com outros olhos. Se de início me apeguei a uma tristeza imensa por tudo que 2020 não seria, nos últimos dias consegui olhar pra tudo que ele é, pra tudo que ele ainda pode ser.

De maneira geral, nem sempre as coisas saem como planejamos. Na minha experiência, ao menos, elas não saem conforme o planejado na maioria das vezes (haha). Me acostumei a repensar, refazer, recriar, recomeçar. Só que existe diferença entre estar acostumado a isso em condições normais, e se pegar completamente impossibilitado por forças maiores. Não achei que veria o mundo passar por algo assim no meu tempo de vida, mas já que estamos aqui, resta aceitar e seguir.

Não quero que o “aceitar e seguir” se confunda de nenhuma forma com ficar parado. Aceitar uma coisa não é socar ela pro fundo da cabeça e continuar vivendo. Aceitar é se colocar de peito aberto. A coisa aconteceu, não tem nada que possamos fazer sobre ela, então juntamos os caquinhos e planejamos tudo de novo, com energia positiva e amor no coração.

Mas como encontrar energia positiva num tempo tão bosta?

É simples, mas não é fácil. É preciso olhar pra dentro. Do que você gosta? Pelo que você é grato? Quem é você quando se fecham as cortinas? É preciso olhar pra fora. Quem é sua rede de apoio? Por quem e pelo que você é grato? Gratidão é o clichê contemporâneo, mas a essa altura da vida superei o desejo de não ser clichê: se é positivo, quem liga? Sejamos gratos. Sejamos muito gratos. Sejamos gratos até o osso. Não pela comparação ao outro (coisa que detesto, aliás, essa de “imagina quem x y ou z”. Cada um sabe onde o calo aperta), mas por voltar o olhar a nós mesmos. A pessoa que eu era mês passado, ano passado, década passada, vive aqui por dentro, na essência, e ao mesmo tempo não existe mais. Sou um ser humano melhor, uma amiga melhor, uma irmã melhor, uma filha melhor. Me encho de alegria quando olho pra vida e penso: daqui a um ano, serei ainda melhor. E foi pensando isso tudo que encontrei a energia necessária para não me afundar. Sou grata pela minha família e amigos. Grata pelo marido maravilhoso que eu tenho. Grata pelas minhas oportunidades e, acima de tudo, grata por esse corpo grande e forte que me enche de possibilidades.

Através do exercício da gratidão a gente se entende melhor, se conhece melhor, e tem mais ferramentas pra passar por períodos ruins. É focar no que é bom e positivo, ao invés de deixar a mente vagar em pensamentos ruins. Eles vão vir e existir, e que bom que sim, porque pra mim a morte da negatividade é a alienação. Um pouquinho de melancolia mantém o pé na realidade rs.

Mas eu tô aqui agradecendo de joelho e continuo me sentindo um lixo, Dand, eu to sendo gratx errado?

Além do esforço pelo foco na gratidão, outra coisa que me ajudou muito nos últimos tempos foi substituir o pensamento autodestrutivo, na hora em que ele vem, por uma opção mais feliz, motivadora e agradável. Por exemplo:

– Eu a um mês atrás: eu desenho mal mesmo, sou péssima nas proporções, é tudo um lixo.
Resultado: fui parando de desenhar
– Eu hoje, quando esse tipo de pensamento vem: quero melhorar minhas habilidades em proporções e perspectiva, então acho que vou desenhar todo dia.
Resultado: continua torto, mas melhora a cada dia e eu amo cada resultado. HAHA

Só não podemos confundir a motivação-positiva-salvadora com a negação, certo? Qual é a diferença? Negação é ignorar a coisa/pensamento ruim e agir como se ela não existisse. Motivação positiva é olhar a coisa de frente, pelo que ela é, e colocar a coisa em termos motivacionais ao invés de derrubacionais (pra derrubar já basta a vida, né? ahaha).

E daí é só pensar positivo que tudo melhora?

Resposta curta: não. rs

Resposta longa: pensar positivo e se manter motivado e cheio de amor nos ajuda a passar bem pelas circunstâncias, mas, dependendo da circunstância, nada vai mudar além de você (o que já me parece grandioso e foda o suficiente). Pensar positivo e me manter grata não faz o Corona ir embora, nem mata a saudade que eu tô da minha mãe, irmãos e amigos. Não faz com que a pandemia acabe, nem com que mais leitos apareçam nos hospitais. Mas me faz passar por isso tudo com muito mais leveza e muito menos culpa, e pode te ajudar também, além de trazer benefícios que vão além desse período difícil.

Se você acha impossível mudar seus padrões de pensamento, eu te digo: dê uma chance. Eu tendo ao pessimismo e ao deprêshow, e nada me ajudou tanto quanto isso. Acredito na autocura, e pra isso precisamos estar alertas, atentos e dispostos. Ninguém pode te ajudar a ser um serumaninho melhor tanto quanto você, porque mesmo a ajuda externa tem limite se a gente não se ajuda. Um passinho de cada vez e chegamos muito mais longe do que acreditávamos ser possível. O segredo é o passinho. Um dia as pernas se fortalecem e a gente sai correndo.

Quando

Então assim que é viver o fim do mundo? O momento em que as coisas acabam. É assim? Eu achava que o fim de tudo seria diferente. Que as coisas iam se desfazer todas ao mesmo tempo. Um dia aleatório de abril e bum o mundo acabou. Sem notícia e sem vestígio. Sumir e nunca mais existir. A humanidade inteira e todos os animais e todas as coisas. Mas eu pensava mais no futuro que vinha de todas as ações até ali. Sempre pensei mais nesse. A consequência de todos os atos. Tudo causa e efeito e causa e efeito e causa e efeito. Tudo ciclo. Destrói dali, a natureza revida daqui. Daqui a muitos e muitos anos, eu via, as consequências de tudo. Mas de repente era futuro. Um desses, distópicos, que eu gostava de teorizar.

Um bebê chora lá embaixo enquanto eu aqui penso no fim de todas as coisas. O que vai acontecer? A natureza revidando. Eu fico pensando, de novo e de novo e de novo. Feito um filme. Viver um filme. Vez ou outra penso que aquilo tudo que vimos na infância construiu esse futuro. Como se o nosso desejo de ser da rebelião, de viver nos esgotos mas ter um ideal, como se a nossa visão de toda a destruição tivesse contribuído pra construir isso. Todos os garotos querendo ficar ricos. Todos os nerds estranhos e renegados querendo revidar uma vida de negação e dominar tudo tudo tudo. E então eles construíram tudo aquilo que os filmes e séries e desenhos diziam que era o futuro. E se os filmes fossem sobre paz e amor e coisas bonitas? E se fossem sobre aceitação e harmonia? E se tivéssemos sido expostos a coisas muito muito positivas pra humanidade? Estaríamos aqui, mas de outra forma. Imagina só. A tecnologia a serviço das pessoas. A tecnologia que une, que cura, que desperta. Mas não. Distopia. Destruição. O fim de todas as coisas.

É cinza lá fora e aqui dentro do meu peito. Cinza. Da fumaça dos incontáveis cigarros que fumo todos os dias. Cinza. Do cinzeiro cheio até a boca. Me envenenando bem aos pouquinhos pelos últimos 13 anos. Não acontece de uma vez. Enquanto você é jovem seu pulmão funciona que é uma beleza. Ele compensa. Você nem aguenta fumar tanto. E então você aguenta, de repente. Vai tomando todos os espaços do dia. Começa nos vazios, mas em todos, em tudo que for possível. No início eu era dança a noite inteira. Agora sou dança a noite inteira com um pouquinho de pigarro. Ele chegou devagar. Bem devagar, a princípio. Uma notícia no fundo das notícias. Longe, longe onde a noite é dia quando aqui e quando lá o inverso. Longe onde as pessoas são tão tão diferentes. Longe outra cultura no fundo do jornal. A coisa escalona, mundo. Como não percebem a essa altura? Tudo é muito ontem no hoje do dia a dia. Tudo é muito passado. Olha só achei essa notícia de dois dias atrás. A gente diz como se fosse muito tempo. Veio devagar do outro lado do mundo. Só que não. Era veloz e sorrateiro como só a natureza sabe e é capaz de ser. Só vingança vingança vingança aos santos clamar. Imagino a natureza uma mulher enorme enorme que ouve umas coisas muito épicas muito gigantescas. Mas é a minha visão, logo, o que é épico e gigantesco nem sempre é o que se considera. Quem liga. Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada, diz a natureza.

Eu não me dei conta a princípio. Estava tão distraída entre todas as coisas e lavagens de mão pra me dar conta. Estava distraída rindo de quem acumulou quantidades obscenas de papel higiênico. Estava evitando sair de casa mas eu sou o futuro e essa já era a minha realidade a semana inteira. Eu trabalho de casa feito um bom robô a.k.a. nômade digital a.k.a. millenial. Mas eu sou pobre e pobre nasci, logo, eu estou na base da cadeia da juventude. Eu já nem sou mais jovem mas eu nasci a dez mil anos atrás quando a internet era mato. Obrigada, visionária mãe (a minha, não a natureza) pela graça da melhor internet de cada tempo. Valeu o sacrifício. Tenho as ferramentas pra sobreviver ao apocalipse no aconchego do meu lar, agora que o futuro hollywood veio bater na nossa porta. Mas então voltando a história. Eu não me dei conta a princípio. E então me bateu tudo de uma vez, hoje. Me bateu feito eu imagino que uma facada bate. Eu nunca tomei uma facada, mas imagino. Primeiro você não sente. Primeiro é ardência mas é leve. Daí a coisa pega fogo. Daí a dor toma conta. Vai ver nem é assim uma facada, mas assim imagino e assim me bateu. Me cortou frio e fundo. Me cortou feito o vento dessa época do ano, que cada vez que volta a estação me faz pensar: fudeu, é agora que o mundo acaba. Talvez a gente morra, cara. Não como uma coisa no futuro. Não como uma possibilidade longínqua. Não como todas as vezes em que pensei ou fantasiei ou ensaiei ou cometi. Isso não é uma simulação. Repito. Isso não é uma simulação. Não é como ir gradativamente construindo uma boa relação com a mortalidade. Não é como ter a oportunidade de se planejar. Ou morrer num acidente comum. Ou ser vítima da violência urbana.

Se você fuma e se você vive a muito tempo ou se você foi acometido por alguma coisa que te pegou ou veio com você ou você herdou e já te fode a vida de diversas maneiras, você pode morrer a qualquer momento. Se você fuma muito, o seu pulmão produz alguma coisa ou não produz alguma coisa que eu já nem lembro e então se a vingança da natureza te pegar você dança. Você dança, amor. Você dança da pior forma que não é colocar pra fora as dores e delícias de ser você. Não. Você dança daquele jeito em que acabou essa passagem por aqui. Isso fudeu a minha cabeça em muitos tantos graus a mais do que ela normalmente é fudida. Porque, não se engane: eu penso na morte todos os dias. Não tem um dia em que eu não tire um tempo pra contemplar todas as formas brutas e ligeiras ou cruéis e lentas e todas as situações que podem se desdobrar na minha morte (e, costumeiramente, na de todos que conheço e – especialmente – os que amo). Isso me curou de uma maneira. Isso me trouxe do limbo. Porque de tanto pensar eu entendi que, bom, é isso aí. Pode acontecer. Pode demorar. Ou não. Aí vem a natureza e fode com a porra toda. Porque é diferente de pensar e levar. É real e possível muito perto sem tempo pra abraço e sem despedida. Não pode encostar não pode beijar. É o vírus anti afeto. Maltratamos tanto que ela mandou um vírus anti-afeto. E então a questão não é se você vai pegar essa coisa a questão é quando. Quando. A questão é quando. E se quando esse quando chegar você vai conseguir chegar do outro lado. É uma corrida macabra. É uma coisa tenebrosa. É um jogo um tanto sádico da natureza. Porque ela ama mas ela tem limites. Amor sem limites é tortura. Ela ama mas se ama primeiro.

E então, como ia dizendo, a questão é quando. Quando? Quem vai passar da linha de chegada? Quem vai existir no ano que vem pra contar a história? Foi o suficiente pra dar um nó. Mas daí, logo em seguida, eu me dei conta: e se eu me libertar? E se eu entregar pro universo e entender que me preocupar não vai fazer com que eu tenha as respostas. Pensar isso não vai me ajudar – e nem a ninguém – a chegar do outro lado. Oi bom dia não tem absolutamente nada que você possa fazer. Nada nada nada. Além das medidas de higiene do distanciamento social do isolamento da paciência. Da paciência. Ar pra dentro. Ar pra fora. Bem devagar. Pra desacelerar o coração. Pra conectar com a terra. Aterrar. Abrir o coração e entender a importância de tudo o lugar de tudo o tempo de tudo. Nada nunca mais vai ser igual mas quando foi? Quando? Fábricas tem telas pra impedir o suicídio de funcionários. Peças fabricadas por essas pessoas possivelmente vivem felizes no seu e no meu e nos nossos computadores e celulares. Sabemos e de maneira geral ignoramos ou não nos damos ao trabalho de saber de verde e entender de verdade e combater. Pessoas morrem todos os dias escravizadas ao redor do mundo. Jovens e crianças morrem todos os dias vítimas da violência urbana e doméstica. Mulheres morrem. Mulheres negras, especialmente. A vida já era uma desgraça antes. A única diferença agora é, pra maioria das pessoas, a proximidade dessa coisa dolorida e difícil que é a morte. E dói, né? Dói não saber quando é o último dia. Dói não saber qual foi o último abraço. Mas essa já é a realidade. A vida já era uma desgraça antes.

E era linda. Uma desgraça linda. Em que a gente empurra mais um pouco e vence mais um pouco e chega um pouquinho mais longe, todos os dias. Um caos completo em que, de alguma maneira, o bem vence. A humanidade persevera e prospera e permanece. A natureza nos regula e vai continuar regulando até todo mundo entender que somos parte dela e devemos respeito. Até todo mundo entender, cada pessoa. Até que cada decisão seja tomada visando a manutenção da humanidade e do planeta. Ar pra dentro. Ar pra fora. Puxa o ar pelo nariz segura três dois um. Solta pela boca. Aaaaaa. Faço as pazes todos os dias com todas as ideias. Todo dia o primeiro e o último. Quando. A pergunta é quando.

E se o mundo acabar?

Um dia o mundo parou. Fui parando bem aos pouquinhos fui acreditando que ia dar certo fui levando um tanto quanto leve o que deveria ter peso. Ainda assim, o peso veio. O peso sempre vem, mesmo quando a gente se esconde. Se abate, assim de repente ou não. Não foi de repente, na verdade. Talvez nunca seja. Talvez pareça de repente mas na realidade tudo está/estava aí o tempo todo. E então o mundo parou. As ruas não são as mesmas e as pessoas não são as mesmas e talvez nunca mais sejam. É tão estranho pensar no futuro agora. Como se a impossibilidade da previsão misturada com a mudança brusca fizesse tudo ficar nublado. Eu vejo mato, sempre, de qualquer forma, no futuro. Se o mundo afundar de vez e a humanidade sucumbir a brutalidade e tudo for diferente, os canais de Veneza tem agora águas cristalinas. Os canais de Veneza tem águas cristalinas. O céu é azul na China, agora. Como a muito não. Tudo como a muito não. A terra precisava dessa pausa. Fico imaginando essa entidade bonita e enorme pensando muito profundamente que precisa de um tempo no relacionamento e então ela nos manda essa. Porque a gente é abusivo pra caralho. A gente é abusivo até dizer chega. Destruímos e poluímos e todos os ímos ruins que se puder pensar.

Eu penso no futuro e a primeira coisa que me vem – mais do que o desejo de fugir pro mato – é a saudade. Saudade saudade saudade. Essa palavra bonita de dizer e terrível de sentir. O coração apertado pensando em quando vai acontecer o próximo abraço. Meus irmãos, amigos, minha mãe. Quando? É difícil não se deixar levar pela tristeza. Um mar inteiro de melancolia, e eu já sou naturalmente melancólica até o osso. Acho que nasci assim. A maioria das crianças é feliz, mas eu já era esse pocinho bonito de tristeza, mesmo pequena. Eu largava um brinquedo pelo outro e então meu coração doía. Imaginava o brinquedo sozinho, se sentindo abandonado. Imaginava como devia ser triste não poder se mexer e procurar outros amigos. E então eu tentava usar e ser tudo ao mesmo tempo, tudo, pra ver se eu não sentia tristeza. Demorei muito tempo pra entender que ela é parte de quem eu sou e aceitar que dentro do meu peito moram – lembranças de outra vida, vai ver – uma solidão e uma melancolia desmedidas. Não tem cura pro que se é. E se tiver, não quero mais, também. É bom sentir, mesmo o que dói. É nessas que a gente se entende e se descobre.

E se o mundo acabar? Me pergunto, pra logo em seguida pensar: e se não? E se for um começo? E se for uma quebra? Na essência da vida e da natureza mora a impermanência. Nada deve ser igual. Nada é eterno. Tudo começa e recomeça e começa e recomeça e assim as coisas andam. E se o mundo acabar, mas no dia seguinte eu abrir os olhos e levantar da cama? E então eu vou sair e fazer todas as coisas. Abraçar todas as pessoas. Declarar todos os amores. Terminar o dia deitada na grama com aquele calor no peito que diz que tudo valeu a pena. O sol na fuça e aquela paz que vem do fundo. Um dia. E se o mundo acabar? A gente começa tudo de novo.

Depois é nunca

Quando foi a última vez que você sentiu um frio profundo na barriga? Não falo daquele que bate suave quando o carro passa ligeiro por uma subida assim, tranquila. Não falo do nervosismo sutil. Estou falando de primeiro beijo estou falando de primeira transa estou falando de você parado falando para uma porção enorme de gente. Esse frio na barriga. Quando foi a última vez? Por muito tempo achei – meu Deus, eu não sabia de nada – que era preciso matar o frio na barriga. Que era preciso insistir até ele desaparecer completamente. E só então eu saberia. Só então eu me sentiria plenamente confortável. Só então eu seria tudo que eu deveria ser, porque tudo que eu deveria ser era uma pessoa confiante feito um ganso correndo na direção de um gorila, e isso só poderia significar frio na barriga zero. Zero. Uma barriga que não vibra uma barriga que não manda engasgo uma barriga que sabe como ninguém o que está fazendo.

Esse dia nunca chegou e eu cansei de esperar. Porque devia ter alguma coisa errada comigo, achava. Meu. Deus. Eu. Não. Sabia. De. Porra. Nenhuma. Nada, nadinha. Eu percebi que tudo que eu entendi estava errado, e que bom que nunca é tarde pra mudar evoluir transcender. Que bom que nunca é tarde pra entender, mesmo que essa seja outra ideia que enfiam goela abaixo: de que as vezes é tarde pra mudar. Assunto pra outro fluxo. Mas então, eu ia dizendo. É sobre ele, esse tempo todo. O frio na barriga. A sensação de cair no chão. A cara esborrachada e você lá colocando tudo pra fora, de um jeito bonito. Ou não, porque não é sobre beleza. Você lá colocando tudo pra fora de um jeito só seu, visceral, doído, do fundo. Estatelado de fazer. Destruído das melhores formas possíveis. O que é verdadeiro vai sempre sempre sempre dar frio na barriga. O que é real. Vai fazer o sistema bugar e a gente segue fazendo. Fica confortável, sim, com o tempo, mas se o frio na barriga for embora eu vou junto. Porque eu quero sentir até explodir. Eu quero sentir até que todos os poros do meu corpo estejam sentindo.

E então tudo é pulsação. Depois é nunca. Não existe outro momento que não o agora. Não existe outro dia que não esse dia. São três da tarde e eu fiz mais hoje do que em semanas inteiras. Movida pela força desse sentimento que me arrebata, dessa coisa maravilhosa que é ser tudo que se é e quer e pode. Tudo bate mas só entra o que eu permito. E nem é sobre o controle em si, essa coisa que eu também muito erroneamente busquei. É sobre o controle sobre o que eu posso controlar e um descontrole eventual de todo o resto pra sacudir e dar vida. Pra sacolejar e misturar os meus neurônios. Pra fazer com que tudo seja criação. Depois é nunca nunca nunca. Não tem nada mais que eu nunca mais. Nada. Eu desenho de novo eu crio eu faço eu canto eu toco eu componho. O nunca mais não existe porque não existe tempo pro nunca mais.

E é insano aqui. Insano. Eu não vou nem começar a explicar.

 

Deixa a grama

Tento trabalhar aqui, na minha quase-ex-sala, enquanto o barulho do cortador de grama leva embora o restinho da minha sanidade que nesses tempos não é muita mas vai saber. E então é só barulho. Essa coisa insuportável quando repetitiva e quando não a repetição do que queremos. Porque tem repetições e repetições e barulhos e barulhos. Este entra na categoria do que nem deveria existir porque, meu Deus, imagina só se a grama crescer. Imagina se a grama crescer e se tudo que chamam erva daninha crescer e, minha nossa senhora, as plantas tomarem conta. Imagina só que coisa horrível pra vida do cidadão de bem, olhar pela janela e ver que aquilo tudo que ele não quer floresceu. A florzinha amarela e pequena da erva daninha. Miúda, muito. Uma coisinha, uma florzinha de desenho animado. Tão pequena que você pensa pfffff que diferença faz? É quase nada. É tão pequeno e frágil. Mas o cidadão de bem da janela do oitavo andar vê lá embaixo quando olha. O pontinho amarelo na grama verde. O pontinho de cor e luz e força do que insiste em brotar pelas frestas. Do que insiste em viver e florescer e acontecer mesmo que tudo diga que não.

Vez ou outra parece um ritmo, o cortador de grama. Vez ou outra parece até que quem corta também não aguenta mais e então é um pouquinho de diversão no meio de uma das tarefas talvez mais insuportáveis de todas as tarefas inúteis e insuportáveis. Porque se eu aqui no segundo andar não aguento eu imagino ele ali. Com o cortador na mão. Se torturando. Tem um gatilho no cortador. Você aperta igualzinho um gatilho de arma (eu acho ao menos porque as únicas armas que peguei eram pistolas de água ou dardos e eu nunca fui nem num paintball). E então ele aperta bem fundo o gatilho bem bem fundo e sente a vibração e então ele corta e o cheiro de verde e vida começa a subir e tudo é cheio de grama. Tudo é cheiro de mato. E ele aperta o gatilho e corta corta corta corta. O serumano adora matar. Adora tirar a vida das coisas pequenas e indefesas. Mesmo as coisas pequenas e indefesas talvez adorem, segundo ele mesmo projetando sua existência em todas as coisas, porque ele resolveu também que a erva daninha é daninha porque um dia resolveu que tais plantas eram melhores e mais merecedoras de espaço e vida que tais outras plantas e por isso as daninhas são daninhas. Elas absorvem do solo o que segundo o serumano deveria ir pras plantas que ele quer ali naquela terra. Ele aperta o gatilho. A florzinha miúda e amarela respira seus últimos segundos de vida. Bzuuuuuuum zuuuuum zuuuuuum. Ela sente o cheiro da grama cortada. Ela fecha os olhos.

Se não arrancar da raiz eu volto, filho da puta.

Um pra trás, dois pra frente

No início desse ano eu tinha um milhão de planos e sonhos e coisas que queria fazer. É meu primeiro ano fora de casa. Meu primeiro ano inteiro com Matheus. Aí eu fumei maconha pra caralho e bebi um monte de bebida e estava o dia todo sem comer e caí convulsionando no chão do banheiro. Estava perto do carnaval e eu sou um ser de carnaval e eu queria tudo aquilo, pela primeira vez acompanhada por alguém que gosta da zueira e do caos tanto quanto eu. E eu convulsionei. E eu caí. Eu abri os olhos e eles dois olhavam pra mim como se eu tivesse morrido e voltado. Eu grunhi. Eu me debati de leve, caída no chão do banheiro. Eu machuquei o joelho tão feio que não conseguia levantar do chão. Sentar no vaso sanitário foi uma tarefa hercúlea e eu mal conseguia respirar de dor.

Não fui ao médico. Eu nunca vou ao médico. Quase nunca, agora que estou tentando ser um adulto responsável com a saúde. Percebo a cada dia que existem adultos responsáveis sobre tudo em suas vidas, menos a saúde. A carreira e a casa e as coisas todas vem na frente. Até a gente ter desses colapsos. Até o corpo não aguentar o baque. Sou responsável com a vida, irresponsável comigo. E então eu fiquei esperando o meu joelho melhorar. Sem andar por uns dias. Querendo ver a rua e as pessoas e as coisas todas e arrumar a casa e criar e correr. Eu mencionei que tinha começado a correr? Morreu. Morreu antes que eu conseguisse percorrer nossos 2k sem morrer. Ele ia melhorando e eu ia forçando mais um pouco. É só até o mercado. É só um dia de carnaval. É só mais outro. Eu mancava e eu sorria. Eu mancava e eu pensava que mesmo perdendo muito, eu continuava tentando não perder. Me agarrando as pontinhas soltas da minha boemia recém recuperada.

Estou aqui e é junho. Junho. É o meio do ano. Não fiz quase nada do que gostaria de ter feito ou fiz em velocidade reduzida ou continuo tentando fazer. Nada saiu como o planejado. E é precisamente por isso que tendo a não planejar muito o que vou fazer. Toda vez que planejo profundamente eu me fodo profundamente e tudo perde o sentido. Prefiro ir sentindo a vida. Ir sentindo e vendo até onde aguento. Gosto do plano e gosto do esquema, mas gosto também desse sabor de se ver perdido e continuar vivendo. De não fazer tanto quanto gostaria e de repente fazer tudo de uma vez. Eu não nasci pra calma do plano, eu nasci pro estalo da realização. Eu percebo e me percebo e sobrepenso e parece velocidade mas por dentro sou uma tartaruguinha. Eu sou uma velhinha da tijuca (ou de copacabana). Eu sou vento mas o vento cresce e cresce e catástrofes inteiras são feitas de vento.

E então eu paro e olho pro ano novamente. Seis meses. Eu saí no carnaval, afinal. A casa foi tomando forma e jeito e eu aceitei que nunca vou ser organizada e certa como gostaria. Eu nem gostaria, o mundo sim. Eu casei. Eu, que nunca achei que casaria, casei com a pessoa mais maravilhosa de todas as pessoas. Saí e bebi e vi e escrevi e construí, construo, construímos. Com afinco e flutuando. Perdidos e achados. Perdidos e reluzentes. Vagantes e errantes e de um brilho desmedido. Planejar é se colocar pra frustração. Viver assim, no ritmo que se tem, sendo o que se é, é muito mais difícil. O caminho é mais longo, talvez muito mais, mas a sorte anda do lado de quem tem coragem, e eu tenho. Muita. De sobra.

Eu paro e olho pro ano e eu desço desse pedestal de drama e dor. Eu saio do void. Eu mesma me coloco ali porque esqueço da minha capacidade infinita de me reinventar e refazer e recomeçar. Eu mesma me coloco ali quando esqueço de mim. Não quero me esquecer. Eu quero a vida e eu quero o caos e eu quero pegar tudo que foi até aqui e crescer mais do que já cresci, mais do que (me) acho capaz. Eu paro e olho e vou, agora. Merda acontece. Vida que segue.

Ninguém devia ser elogiado por emagrecer

Entre o ano passado e esse alguma coisa aconteceu comigo. Na realidade, entre o ano retrasado e esse. Basicamente, eu mudei muito minha alimentação (prioritariamente pra melhor, mas ainda dou meus vacilos de ficar muitas horas sem comer. Eu esqueço. Mesmo.) e comecei a andar feito uma louca – coisa que eu amo e fazia antes, mas tinha deixado de lado no void-das-coisas-que-a-gente-perde-o-ânimo-porque-trabalhar-fora-é-esgotante. Daí eu fui andando e andando e andando e comendo melhor e comecei a emagrecer. Eu não queria emagrecer. Eu não fazia nenhuma questão. De repente eu tinha emagrecido o suficiente pra ficar com o menor peso que tenho em mais de uma década. Que eu não queria e não fazia questão, guardem essa informação.

Antes que eu pudesse perceber – e imediatamente ao sair do que é considerado gordo e feio e chegar ao que é considerado gordo e socialmente aceitável – os elogios começaram. Era um tal de “nossa, você emagreceu muito, parabéns!” efusivo, uns “você tá mais bonita, emagreceu” e as variações disso. Uma porção de parabéns. Uma porção de olhares felizes de conhecidas me perguntando o que eu tinha feito. Todo mundo espera uma dieta milagrosa ou uma resposta. Eu nunca tenho resposta. Só agradeço se for alguma das vózinhas do meu convívio ou pessoas mais velhas, porque sei que seria desgastante explicar porque é tão problemático elogiar alguém por ter emagrecido.

Vivemos em uma sociedade focada na aparência, todo mundo sabe disso. Não vou falar sobre os problemas todos da indústria da beleza e da dieta nesse texto (em um outro, talvez, porque amo falar sobre isso hahaha), mas pegar nessa questão do elogio. Essa coisa que diz pra gente e pras pessoas que emagrecer é excelente e engordar é a morte. Essa coisa que faz meninas pararem de comer, vomitarem o que comem, perderem cabelo, ficarem com as unhas destruídas (eu, inclusive, lá pros meus 15 anos). Essa coisa que gera esforços e medos e angústias e dietas mirabolantes e soluções mágicas pro que não necessariamente é um problema.

Com meus 135kg de antes, eu me sentia bem, até não me sentir mais. Não por nenhuma questão estética, mas basicamente porque tinha virado uma pessoa muito sedentária que não aguentava andar 5 minutos sem morrer. Eu não subia um lance de escada. Eu parava no meio de todas as ladeiras. Isso foi me incomodando porque eu era acostumada a ser ativa e feliz, independentemente do meu peso. Era isso o que eu queria mudar. Ter preparo, me sentir fisicamente bem pra fazer o que eu gostava, ver meu organismo funcionando melhor. O peso foi uma consequência, e o peso sempre deveria ser consequência. Existe gente com pesos mais altos super saudável e ativa. Existe gente magra que é sedentária e come mal. Relacionar saúde com peso é um erro terrível e que não condiz com a realidade. Além de qualquer questão desse tipo – e nem vou entrar nelas porque por mais que saiam pesquisas e por mais que a realidade confirme, eu precisaria de um textão bem maior pra tentar convencer alguém.

O ponto é outro:

Quando você elogia alguém por emagrecer, está basicamente dizendo pra pessoa “você é uma bosta, que bom que está tentando se adequar a sociedade e deixar de ser gorda!”. Não é legal. Porque elogiar o emagrecimento faz automaticamente o peso parecer ruim, errado, algo a se envergonhar e perder. Se você elogia e recompensa quando alguém emagrece, está dizendo a uma categoria inteira de pessoas que elas não são o suficiente. Que existir e ser feliz como se é não é o suficiente. Eu não me sinto feliz com os elogios. Minha primeira reação é pensar “poxa vida, então essa pessoa me achava gorda e horrível e socialmente inaceitável”, e logo em seguida não saber como responder. Não é bom. Não vem como um elogio se você entende o quanto é pesado transitar pela sociedade sendo gordo. Fico pensando que não passo mais por situações estranhas e constrangedoras nas lojas, mas uma porrada de mulheres continua passando, e então o elogio é também uma surra em todas elas. É uma porrada que diz:

A sociedade não vai se adaptar a você. A gente não vai vender roupa pra você. A gente não quer você nesse espaço. A culpa não é nossa se você é gorda e essas roupas não te servem, vai emagrecer.

E se fosse o contrário? E se ninguém elogiasse ou criticasse ninguém por conta do peso? E se as lojas vendessem pra todo mundo e todo mundo se sentisse lindo, amado, gostosão e muito foda? Porque é esse mundo que eu quero ver. Não um mundo em que alguém me elogia efusivamente porque eu emagreci. Eu sou gorda. Não tenho problema nenhum em ser gorda. Peso menos de 100 quilos, já pesei mais de 130 e em nenhuma dessas configurações o problema era eu. Oi pessoa gorda, o problema não é você. Se é pra elogiar, elogiem meus textos, minhas músicas, minhas ideais. Comentários sobre o meu corpo eu dispenso.

No final, ninguém tem NADA a ver com isso.

Sobre conexões, vulnerabilidade, internet e algumas coisas mais

No início da tarde de hoje terminei de ler A arte de pedir, da Amanda Palmer. Sou fã do trabalho e da carreira dela a alguns anos, e estava querendo ler o livro desde que ele saiu. Daí o tempo foi passando e ou eu tinha dinheiro e esquecia completamente de comprar, ou eu lembrava e não tinha mais dinheiro. Diogo me deu o livro de presente no início da semana, e li compulsivamente em todo o meu tempo livre até acabar.

Eu era uma bola encolhida no sofá, enrolada num lençol e desidratada de chorar (de alegria). Uma porção de coisas bateram ao longo da semana, enquanto eu lia o livro. Minha postura sobre a internet e seus usos, redes sociais, confiança, entrega, vulnerabilidade, tudo. Me sinto uma pessoa diferente. Como se o livro tivesse pego exatamente em todos os pontinhos e questões que eu tenho. Como se fosse um abraço gigantesco me dizendo “calma, vai ficar tudo bem se você for honesta e quebrar esses últimos limites”. E então eu quebro, começando por esse texto, que é o meu “oi mundo, tudo bem?” de alguma forma. Uma coisa escrita de dentro, com toda a minha honestidade. Uma porção de pedacinhos de pensamentos e questões que vão me batendo. E que todo mundo sente. É sobre isso, acho. Sobre lembrar que todo mundo sente as mesmas inseguranças e fraquezas e tristezas e alegrias que a gente sente. Todo mundo. Todo mundo quer ser visto e ouvido, e se a gente der a chance, as coisas acontecem.

Sempre fui uma pessoa de ir. Eu sou de verdade a pessoa do “vambora”. Difícil achar um rolê que eu tenha recusado. Mesmo. Se me falam “aparece lá em casa um dia”, eu apareço. Já estive em situações tristes, felizes, engraçadas e apavorantes, com essa de ir na casa de gente que eu mal conhecia. Um churrasco de policiais em Campo Grande. Um apartamento com um lustre muito lindo e enorme e um piano e papel de parede descascado como eu só tinha visto nos filmes. Fiz uma porção de amigos e conexões, mas de uns tempos pra cá fui me fechando e deixando as pessoas de lado. Os tempos foram difíceis. As pessoas não se comunicam e conversam e trocam mais como antes (eu achava, ao menos). Coisas aconteceram e então eu entrei numa onda de trabalhar pra bancar as coisas legais, mas me sentir cansada pra caraleo no final do dia e esquecer delas. Aí eu bancava lanches HAHA. A sério, eu bancava compensações. Os prazeres momentâneos que parecem relaxamento, mas são só isso mesmo: compensação.

Daí eu saí dessa. Especialmente ano passado. Fui voltando a ser eu, na minha forma artística e lokona de sempre. Tô aqui na minha casa lindona, cheia de projetos, cheia de ideias. Aí eu li esse livro. Meu cérebro explodiu. Dá vontade de fazer tudo de uma vez e compartilhar tudo de uma vez e abraçar todo mundo até não aguentar mais. Me deu, em resumo, uma puta vontade de ser eu. Dessa forma ainda mais aberta e vulnerável e vambora do que eu jamais fui.

isso inclui, pra mim, superar um trauminha de uns anos atrás: os haters não eram tão comuns. Eram os idos de não lembro que ano (pensando agora, isso me aconteceu duas vezes. Três talvez rs), e um comentário numa foto fez um cara me odiar e começar a me perseguir virtualmente. Meu blog, meu facebook, absolutamente qualquer coisa minha. Eram uns comentários pesados. Ele chamou os amigos. Ele fez um fake. Eu bloqueava e bloqueava e mais coisa continuava aparecendo. De lá pra cá, passei a ser muito mais criteriosa sobre o que postava na internet. Sem a experiência e com o pavor, minha reação foi desativar as contas de tudo e parar de escrever. Um tempão depois voltei a postar, mas só pros amigos próximos. As publicações fechadinhas e cheias de restrições. Só que eu acredito no que eu digo. Acredito também no que faço (tem, inclusive, música e série a caminho, me aguardem muahahahaha), e mais do que isso, acredito na possibilidade real de me conectar com as pessoas através do que faço.

Eu já vi gente chorar emocionada com texto meu, com trabalho meu. Eu fiz amigos graças a escrita. Eu mexi com as pessoas. Do meu ponto de vista, se uma pessoinha só ao longo desse tempo tivesse sido tocada por algo que eu criei, já seria suficiente pra eu acreditar. Mas. Foram. Várias. Pessoas. Ao longo de anos. Em todo lugar que fui e me expus. Eu fui com medo, eu fui tremendo, eu engasguei, mas quando eu fiz, a mágica aconteceu. É como diz no livro, “o dom precisa circular” (ou algo do tipo que fui catar pra citar mas não encontrei. Mais sobre isso abaixo). Não pelo meu ego ou por qualquer coisa que derive disso, mas porque se eu tenho a algo a dizer e acredito nisso, e toco outra pessoa quando faço, uma conexão verdadeira foi feita. Uma conexão real. A gente fica muito mais humano, eu não sei, quando se conecta assim com alguém. Muito mais real. É a pessoa chorando com o texto e eu entendendo que ela entendeu. Ela me vê. Eu vejo a pessoa também. É se despir de todas as barreiras, de tudo que nos distancia, e trazer pra perto. Trazer pra dentro. Levar um pouco e deixar um pouco. E então nenhum trauma ou treta ou comentário negativo consegue destruir isso. Depois que a troca foi feita, nada mais faz diferença. Eu escolho a troca.

Sobre o parêntese da citação: hoje pela primeira vez na vida fiz marcações e anotações em um livro. Eu considerava o livro uma coisa sagrada. Eu seria incapaz. Se via uma orelha, queria morrer. Dramática e purista, sim. Com eles todos inteirinhos. Aí eu fiquei pensando: mano, eu perdi uma cacetada de livros no incêndio. Os que não perdi ficaram encardidos pra sempre. As coisas passam (e Matheus incentivou). Eu queria que a próxima pessoa a ler o livro (e pretendo emprestar pro máximo de amigos que puder) tivesse um pouco de mim também, do que me moveu, do que bateu pra mim. E então eu peguei a caneta e o marca-texto e fui colorindo tudo que me parecia mais importante (passagens aleatórias pra quando a galera for no banheiro aqui, onde o livro vai morar haha), e foi maravilhoso e libertador. E se ao invés de ser a coisa intocada na estante, todo livro levar um pouquinho de quem leu?

Dois meses sem shampoo

Há tempos vinha buscando uma forma de lidar com meu cabelo que não envolvesse shampoo, condicionador e relacionados. Testei o bicarbonato + vinagre, “”shampoo”” de semente de abacate, juá e mais algumas coisas, até desistir e voltar a usar. O bicarbonato – solução mais difundida na internet – é na realidade perigoso, podendo causar lesões a pele que demoram meses e até anos para secar. O shampoo de abacate foi bom no início, mas o cabelo foi ficando mais e mais estranho. Juá é bom, mas meu couro cabeludo é sensível e logo começou a descamar. Li uma porção de coisas sobre usar somente água, mas de início não acreditei que pudesse funcionar pra mim. Mesmo sabendo que o cabelo se acostuma, acreditava que a oleosidade fosse dificultar a adaptação, e como não sou muito paciente, deixei de lado.

Até o final do ano passado, quando raspei a cabeça. Estava eu com um monte de cabelos miudinhos, totalmente sem química e nunca lavados com shampoo. Minha relação com aparência mudou muito ao longo do último ano, e um desapego muito grande foi tomando conta. Parar de usar shampoo não foi difícil aquela altura porque, para além de qualquer questão estética, não tinha mesmo muito cabelo para ser lavado. Porque não dar uma chance? Comecei a deixar a água correr enquanto tomava banho, massagear bastante o couro cabeludo e passar vinagre e óleo de coco de vez em nunca.

Estou aqui, dois meses depois, cabelo ainda úmido do banho, e digo pra vocês: vale a pena. Além da economia enorme e dos resíduos que não produzo mais, meu couro cabeludo nunca foi tão saudável. Costumava ter alergias, caspa eventual e coceiras esquisitas, e agora tenho somente uma cabeça cheia de cabelo forte, brilhante e saudável. A oleosidade realmente aumentou no início, mas umas duas semanas depois tudo estava sob controle.

Mas o cabelo não fica fedendo?

Esse era um dos meus medos no início, e uma das perguntas que mais ouço. Passei o primeiro mês inteiro perguntando pro meu noivo todos os dias se o cheiro era ruim e, segundo ele, é “cheiro de cabelo”. Não consigo sentir porque ele ainda está curtinho, mas até agora ninguém me falou que eu estava fedendo. hehe

Se cheirar bem (e existe muito de construção social nesse “cheirar bem”, né?) é importante pra você, dá pra usar óleos essenciais misturados no óleo de coco, e passar no cabelo depois de lavar (bem pouquinho pra não pesar). Como a essa altura não ligo pra isso, uso só o óleo de coco de vez em quando (e fico cheirando a cocada haha).

Mas os cosméticos não são importantes pra saúde do cabelo?

A resposta real? Não, não são. A ideia de saúde capilar relacionada a cosméticos é muito recente na história (os cosméticos como conhecemos hoje começaram a surgir somente nos anos 20), e até então a galera lavava o cabelo com sabão. Em certas tribos, somente água, água de arroz ou óleos naturais são utilizados. O cabelo de todo mundo é enorme e forte, logo, saúde não tem relação com cosméticos.

A ideia mais difundida nos últimos anos, da necessidade de nutrição, hidratação, umectação e o que mais inventarem, é somente uma invenção da indústria para vender mais produtos. Seu cabelo não vai ficar fraco, cair ou piorar se você parar de usar cosméticos. Na realidade, a chance do cabelo ficar mais forte com o tempo é muito maior: nosso corpo é esperto e sabe o que faz. Anos e mais anos de evolução me parecem mais eficientes e comprovados do que qualquer groselha da indústria cosmética.  Então não, você não precisa de nada disso. Querer e precisar são coisas diferentes – e não tem nada de errado em querer usar as coisas. Cada um sabe como cuida de si, né? 😉

Mas não vai acumular sujeira até você ficar careca?

Por mais absurda que pareça a pergunta, já vi ideias desse tipo por aí! haha

Já conheci mulheres que colocavam camadas e mais camadas de cosméticos nos cabelos, ao longo de vários dias sem lavar. Óleos, cremes, mais óleos, mais cremes. Se elas não ficavam carecas, eu definitivamente não vou ficar. Molho o cabelo e massageio o couro cabeludo quase toda vez que tomo banho. Agora que o calor está passando e o cabelo está crescendo, estou começando a molhar dia sim, dia não. Como não existe nenhum resíduo de produto no cabelo e a massagem é feliz e vigorosa, acumulo menos sujeira no cabelo agora do que quando usava creme de pentear, por exemplo.

Mas isso é nojento, Dandara.

Não, não é. E de todos os argumentos, esse é o que mais me dói, pela desinformação. Não é nojento e não é descuido e não, eu não estou “relaxando”. Mesmo que estivesse, ninguém tem nada a ver com isso, maaaas, vamos falar sobre a essência dessa linha de pensamento: a indústria e a mídia nos convenceram muito fundo da necessidade de uma porção de produtos e serviços que na realidade nós não precisamos e passaríamos muito bem sem. Isso inclui absolutamente todos os cosméticos. Ninguém precisa usar maquiagem. Ninguém precisa usar shampoo. Você não é feia ou porca ou relaxada ou qualquer desses adjetivos se resolver não fazer essas coisas. Mas pense comigo: uma pessoa que acredita nessas coisas continua consumindo, comprando, gastando, investindo em ficar mais bonita. E que beleza é essa que vem num frasco de shampoo ou num tubo de batom? Se ela não vier de um lugar de consciência plena do funcionamento da indústria e escolha consciente de uso, então não é beleza. É cosmética. É aparência e só, e aparência e beleza são coisas muito diferentes.

Mais do que qualquer outra coisa, parar de usar shampoo e falar sobre isso me fez perceber o quanto as pessoas ainda estão ligadas nesses ideais, nessas falsas certezas plantadas pela indústria ao longo do tempo, e o quanto ainda precisamos conversar e trabalhar para ir desfazendo esses mitos. É excelente poder falar sobre isso e praticar o que prego!

Enfim, recomendo muito a experiência, não somente de abandonar a coisa em si, mas pesquisar, entender, compreender como a pele e o cabelo realmente funcionam e do que eles precisam. É libertador! Que tal experimentar? Qualquer dúvida, é só dar um grito que eu ajudo! 😀