Um mês

Tenho ao mesmo tempo uma saúde de ferro e de isopor. De um lado, resfriados raramente me pegam e qualquer ferida cicatriza na velocidade da luz. Do outro lado, convivo com hidradenite, lipedema, psoríase, dismetria e algumas sequelas de uma fratura no fêmur não tratada na infância (tendinite no quadril e artrose são algumas das minhas companheiras rs). Minha sensação é que se eu parar, paro de vez. Como cresci sem validação para minhas dores e questões, aprendi muito cedo a engolir o choro e seguir em frente. Isso é uma benção e uma maldição: sem isso, eu não seria capaz de fazer tudo que já fiz até aqui, mas com isso tenho também dificuldade para entender o limite. Sempre me impressiono com quem valida as próprias dores e deixa de fazer as coisas por conta delas. Não me foi dada essa opção. Eu sorrio, aceno e sigo em frente. É péssimo e maravilhoso, tudo ao mesmo tempo. Me fez mais resiliente, mas me fez mais sem noção.

Com tudo, escolhi ignorar a realidade do meu corpo e fazer o que queria nos últimos anos. Uma escolha burra, sei bem. Andei de patins como quem tem as pernas iguais, fiz academia sem contar nada pra personal, corri como se pudesse. Terminei mais fudida do que comecei, com meses de intervalo entre as atividades e muitas vezes sem nem conseguir encostar o pé no chão. Uma animal. E então veio aquilo que me fez parar com tudo: morar em uma casa com um piso todo torto. Quem diria que seria isso, e não uma das minhas muitas lesões, que me faria parar e ser obrigada a reavaliar as coisas.

A yoga foi minha grande companheira nos últimos anos. Já tinha feito antes, mas de 2018 pra cá passei a levar a sério e ter uma prática diária. Até o piso torto. Se você já é torta e tem um piso torto, fazer yoga não vai dar certo. Descobri da pior maneira, me lesionando em uma aula simples. O resultado foi praticamente um ano inteiro sem fazer quase nada. Andar foi minha única atividade, e ainda assim saí de 10, 12, 14km por dia pra 3, 4, 5km no máximo. Um ano de quase sedentarismo depois de anos de atividade intensa. Minha saúde sofreu, meu quadril sofreu, meu joelho sofreu. A angústia foi tanta que resolvi correr, e na corrida consegui uma das lesões citadas anteriormente. Ir longe demais me tirou o pouco que eu tinha, e nem andar eu estava conseguindo. Some a isso a morte do único calçado que não me causava dor e pronto, uma espécie nova de sedentarismo tomou conta.

Mudei de casa, e aqui tenho o chão plano. Lisinho, retinho, como deve ser. E então tudo mudou: há um mês minha yoga matinal voltou a fazer parte da rotina. Com ela vieram as longas caminhadas e dias seguidos sem sentir dor. Só quem sente dor constante sabe a benção que é passar dias seguidos sem sentir nada. Sinto que a cada dia tudo vai entrando mais nos eixos. Sem dor eu consigo raciocinar com clareza, consigo sentir, consigo prestar atenção, consigo respirar. Consigo até respirar através da dor, quando ela vem, sem sentir que deveria fazer alguma coisa que não me cuidar e esperar ela passar.

Nem tudo são flores: yoga não é só exercício, sei bem. Bate em toda a minha sensibilidade. Move tudo, tira tudo do lugar. E esse primeiro mês foi também de muito choro, tristeza, confusão, pesadelos. Respiro através e tento chegar do outro lado. Depois de sentir dor por muito tempo, é difícil entender quem somos sem ela. É como se ela passasse a fazer parte do tecido que compõe o ser. Como se a gente não existisse de verdade sem a dor. Mas eu existo. Eu existo. Existo e tento aprender como me amar e me aceitar com tudo que sou. Tento aceitar o que a genética me deu, o que a vida me deu, o que fiz com isso tudo. Tento respirar e acreditar que se eu puxar o ar fundo o suficiente ele vai me ajudar a deixar tudo ir, vai me ajudar a jogar fora tudo que não sou, tudo que não preciso, toda expectativa. Enquanto esse dia não chega, sigo tentando.

As luzes da cidade

Tudo parece mais bonito de longe. Tanto a distância quanto o tempo tem uma capacidade incrível de transformar qualquer coisa. Morei na cidade por alguns anos antes de perceber meu erro, e desde então moro em um bairro afastado que é quase uma cidade de interior. Quando cheguei aqui, estava feliz. Feliz por circular sem medo, por ter acesso a supermercados e por poder andar quilômetros sem correr perigo. A casa tem alguns problemas, mas eram tantos planos acumulados por tantos anos, que nada poderia nos impedir.

Mas impediu. Impediu e fez parecer que a resposta era largar tudo e voltar pra cidade. Eu esqueci do medo e da degradação. Esqueci o cheiro de bosta humana e a falta de manutenção dos prédios. Esqueci que era impossível sair a noite e que – como me disse hoje um corretor de imóveis – de noite a Cinelândia vira walking dead. Me fugiu da memória a taquicardia e o pavor. Me fugiu da memória o valor extorsivo das taxas condominiais, valor esse que raramente é convertido em qualquer melhoria nos edifícios: os prédios todos caem aos pedaços, com seus elevadores horrendos e portarias mal montadas, com suas infiltrações e falta de pintura. Já tive encomenda roubada pelos porteiros de um prédio em que morei na Lapa. Nesse mesmo prédio hoje em dia apartamentos são alugados por R$2.500, R$3.000. Ouvi hoje também que o aluguel de um apartamento em um prédio acabado em uma rua que cheira a merda chega a custar R$4.000 “por causa da vista”. Da vista? Você mora em um muquifo, mas tem foto bonita para postar na internet. Em tempos de vida de mentira, vale qualquer coisa.

O Rio morreu há muito tempo atrás. Queria ter percebido isso antes. Ele não existe para os cariocas. A cidade da qual sinto saudade não é aquela em que morei, mas sim a cidade que existia na minha adolescência e no início da minha vida adulta. Um Rio de Janeiro que não existe mais, mas que segue se vendendo como se existisse. Tudo é extorsivo, sujo e feio. As luzes da cidade atraem as piores moscas. Eu me recuso a gastar fortunas por uma vista. Me recuso a gastar pra todo dia ser confrontada com a degradação moral que tomou conta da cidade, uma cidade em que uma classe média odiosa compra e aluga imóveis que até outro dia eram moradia dos trabalhadores, que empurrados pela crise passaram a morar nas ruas ou nas favelas. Sou mais o meu quase interior. Sou mais as crianças correndo na rua e as luzes amarelas da rua, mesmo com todos os problemas. A resposta nunca é voltar atrás. A resposta é andar pra frente.

E qual é a frente para onde devo andar? Não sei. Só sei que ir até lá foi uma coisa terrível, mas mágica. Terrível porque estou até agora sem energia e sentindo uma tristeza funda, aguda, sem precedentes. Mágica porque eu finalmente me dei conta de que essa não é a resposta. Essa nunca foi a resposta. Eu não tenho estômago pra ignorar o sofrimento alheio e seguir meu dia. Não tenho estômago pra viver com medo. Não tenho estômado pra ceder ao capitalismo e torrar meu dinheiro suado em um imóvel horroroso só pra existir em um lugar que nada me oferece de volta.

Há alguns anos atrás escrevi uma canção que diz “o Rio é sonho ou pesadelo / depende de quem navega”. Hoje escreveria diferente. O Rio é pesadelo, independe de quem navega. A cidade se alimenta da pureza e do amor dos nossos corações até que não sobre nada. Há quem se perca no álcool, há quem se perca nas drogas, há quem desista e vá embora sem olhar pra trás. Sigo amando o Rio do meu coração, mas não tenho nenhum interesse pelo Rio da realidade. Eu naveguei no sonho enquanto deu, e vi a cidade ser vendida a preço de banana. Vi os lugares que eu amava serem engolidos pelas redes, pelos ricos, pelo hype. Vi as coisas serem sugadas até a raiz e depois abandonadas como se nunca tivessem existido. Talvez venha daí minha tristeza. Mas vai ver toda geração acha que o Rio do seu tempo era melhor. A diferença entre as gerações anteriores e a minha é que eu realmente tenho certeza: qualquer coisa que veio antes era melhor do que o que existe agora.

E no final, quem vive de passado é museu. Qual será a próxima parada?

Não deixe o sistema vencer

Quando o sistema ganha, nós perdemos. Perdemos porque nos desconectamos da nossa essência, porque aprendemos a nos odiar, porque cedemos nosso corpo e sanidade. Perdemos porque passamos a acreditar que a felicidade e o prazer estão do lado de fora, e que existe sempre mais alguma coisa a ser ganha ou alcançada. No capitalismo nada parece ser suficiente, e se vivemos cercadas de outros perdidos e perdidas, a tendência é que tudo siga espiralando até o fundo do poço. Mas não se assuste, companheira: o caminho é recheado de altos e baixos, mas sempre existe saída. Não é preciso esperar pelo trampolim no fundo do poço, é possível se desvencilhar e nadar de volta à superfície sem antes se perder completamente. Eu me perdi para que você não se perca, e saí viva para contar a história.

Muito cedo sabia que não fui feita para o esquema 8h-18h dos empregos tradicionais. Não via sentido em perder meu dia inteiro presa em uma loja ou escritório enquanto o tempo passava do lado de fora, uma vez que os salários oferecidos me pareciam baixos demais para o nível de desgaste. Entenda: meu problema nunca foi trabalhar. Eu amo trabalhar! Amo perder a noção do tempo por estar profundamente concentrada em alguma atividade. Em tudo que fiz, fui muito bem. Era uma boa vendedora de loja, uma boa atendente, sou uma excelente designer e até na programação me arrisco (front end, seu lindo <3). Nunca fui de fazer corpo mole, e quando muito sou a pessoa criando mais trabalho e pensando formas de melhorar o que é feito (amo sistemas, fórmulas e métodos). Acontece que em quase todo emprego que tive, em algum ponto minha mente fervilhante me fazia perguntar: pra quê? Para quem? Por que eu faço isso? Sempre pensei que preferia viver zanzando por aí a mercê da caridade alheia do que vender barato minha força de trabalho.

Com isso, demorei uma década para encontrar um esquema de trabalho que fizesse sentido pra mim. Comi o pão que o diabo amassou, passei fome e privação, tive luz e água cortada, mas não quebrei até ter um emprego que me pagasse um valor que considero justo. E o que aconteceu quando cheguei lá?

Tudo ruiu. Eu morri por dentro.

Depois de 6 anos trabalhando no mesmo lugar, exerço minhas funções com o pé nas costas. Nada me parece difícil ou desafiador. Já não era difícil ou desafiador no ano 2, que dirá no ano 6! Mas o dinheiro – que não se enganem, não é uma fortuna – me fez ficar preguiçosa, perder a criatividade e me desconectar de mim e dos meus propósitos.

Se antes eu cortava meu próprio cabelo, comprava em brechós e sebos, costurava e inventava de tudo com muito pouco recurso, agora eu tinha condições de pagar por um corte, visitar uma loja ou comprar um livro na livraria na hora que eu quisesse (benefícios de não ser tão engolida pelo sistema: não uso cosméticos, não frequento restaurantes, troco de celular somente quando ele quebra e não tenho gastos grandiosos). O problema é que com o tempo fui me acomodando nesses benefícios e me tornando incapaz do tipo de pensamento que tinha antes, um pensamento que ia pensar toda solução possível antes de gastar dinheiro.

É muito comum que, conforme a renda cresça, cresçam os gastos. Mesmo sem ganhar uma fortuna, deixei meus gastos crescerem. Passei a consumir mais industrializados, comprei um celular (normalmente usava os de segunda mão quando algum amigo comprava um novo), passei a comer sobremesa (já mal comia açúcar) e – quando ainda bebia – gastava um bom dinheiro com drinks e cerveja no final de semana.

Sei que minhas extravagâncias ainda estão bem distantes dos gastos da pessoa média, mas para mim – que era acostumada a viver de troca e coisas muito baratas – esse tipo de gasto me dá vergonha. Mesmo cedendo pouco, cedi. Mesmo que para maioria das pessoas eu ainda viva uma vida de gastos comedidos, só consigo pensar em quanto dinheiro joguei fora. Acredito que pagar pelo que podemos fazer é jogar dinheiro fora, assim como qualquer luxo (por menor que ele seja).

Quanto mais eu gastava, mais triste ficava, mais consumida pela culpa e pelo sentimento de despertencimento e desconexão da realidade prática e da minha essência. Tive ansiedade e depressão como nunca antes, e comecei a perder o sono e a vontade de existir. Tudo parecia difícil e distante, um sofrimento imenso, uma coisa desproporcional.

O sistema cria em nós uma preguiça que vai crescendo e crescendo e consumindo nossa capacidade de olhar além do nosso umbigo. É assim que surgem os viciados em compras, os comedores compulsivos e os perdidos na noite. É assim que qualquer vício vai tomando conta, quando existe uma desconexão entre nossa essência e a forma que vivemos a vida. Olho hoje e consigo não mais sentir culpa ou tristeza, mas uma raiva muito imensa do sistema e um desejo muito fundo de ajudar outras pessoas a despertarem: você precisa de muito pouco para continuar viva, e ceder ao sistema é antecipar nossa morte. Gente feliz não precisa comprar, não precisa gastar, não precisa do delivery ou do celular caro. Gente feliz de verdade é feliz consigo mesma, sem precisar de estímulos externos que não aqueles que a natureza dá (e eu não estou falando de maconha, pessoa good vibe de araque). Aos poucos vou aprendendo a pensar 2, 3, 10 vezes antes de comprar alguma coisa. O sistema nos torna impulsivos, doentes, fracos e sem coragem para promover verdadeiras mudanças, só pra depois jogar a culpa na nossa suposta falta de força de vontade.

E quando você joga a culpa nele, o que ele faz? Te responde que você fez porque quis. Você escolheu abraçar o sistema. E sabe o pior? É verdade mesmo, e por isso tanta gente segue nele mesmo sabendo e sentindo que nada dá certo: é mais fácil ceder e aceitar do que lidar com as próprias culpas. Não é mais fácil, aliás, mas realmente parece. Porque o estímulo do sistema é imediato se você tiver dinheiro para pagar por ele (o lanche, o streaming, a festa…), mas o estímulo que vem de rejeitar o sistema e construir novas formas de viver é lento, demorado e por muitas vezes penoso. Por isso tanta gente precisa do trampolim no fundo do poço, porque quando chegamos nele somos rejeitados pelo próprio sistema que nos levou até lá. É mais fácil levantar do fundo do poço porque quando chegamos lá já não temos mais nada, nos parece, somente os dedos julgadores apontados e a sensação profunda do fracasso. Quem nada tem, tudo pode, essa é a sensação. Que diferença faz parecer uma lunática se você perdeu tudo? As pessoas até batem palma e dizem admirar sua coragem, enquanto no fundo estão apenas assistindo sua vida como se fosse uma novela e aguardando sua derrota. Esse é o subproduto de um sistema doente e competitivo: gente que se faz e se sente melhor com a derrota do próximo. Quer saber quem é seu amigo? Seja muito feliz e autêntica, mesmo quando tudo der errado. Esse tipo de gente não aguenta e se afasta.

Mas e se você fizer diferente? É possível existir no sistema subvertendo a ordem. É possível trabalhar sem se destruir e investir na construção de si ao invés da construção de patrimônio, e isso acontece quando nos desapegamos do que não é necessário e encontramos diversão e paz no que não custa nada. Andar na rua ainda é gratuito. Zilhares de livros são jogados no lixo todos os dias. A comida anda cara, mas se você tirar a carne da jogada já fica bem mais em conta. Encontre em você a lógica ancestral que nos diz que tudo que não é necessário é luxo, e que todo luxo é perdição. O luxo nos afasta da essência. Encontre a alegria que existe por dentro.

Longe de mim acreditar que isso tudo seja fácil, mas sigo tentando. Já me livrei de muitas culpas e de muitos gastos, e sigo acreditando que todo mundo pode fazer melhor com seu tempo e dinheiro. Quanto você ganha por mês? Quanto disso é gasto com o que é realmente edificante, e quando é jogado fora em luxos vazios? Não ´precisa ser rico ou ganhar um super salário para se perder: o batom de R$1,99 ainda é luxo. A depilação que você faz em casa também é. A cerveja do final de semana, as roupas do calçadão, tudo é luxo. Você está pronta para largar o sistema e viver uma vida com propósito real?

Já me fiz muito essa pergunta, enquanto largava cada uma dessas coisas e outras mais. Hoje posso dizer com toda certeza: abandonar de vez o sistema é meu maior propósito. Olho para a vida e não consigo nem entender como foi que entrei nele, eu, que era uma revolucionária mirim e tinha ódio de corporação desde criança. Com tudo, sinto que precisava disso para entender como funcionam as pessoas e como o sistema nos engole. Me perder me ensinou a ter um pouco mais de humildade: estamos todos suscetíveis a essa desgraça, e basta um segundo de distração para uma vida inteira de revolta ir embora pelo ralo. Mas eu morri? Não. E nem você. Onde há vida há esperança! Então sigamos resistindo e existindo, já que o presente é tudo que temos. Deixe pra lá os socialistas de iphone e os julgadores de plantão, dê a mão a uma irmã e saia cantando: o futuro é brilhante para quem desperta do coma capitalista!

Não fuja pras montanhas

A figura do monge me entristece. Não vejo a grandeza da abdicação. Quando olho o monge, eu vejo alguém que por alguma razão escolheu se abster do convívio social, em muitos casos as custas do bem estar de outra (ou outras) pessoas. Pra cada homem muito velho e sábio e reconhecido e lembrado, tem uma mulher que se fudeu pelas atitudes dele. Uma mãe que pagava as contas e catava os cacos. Uma tia que dava mesada. Uma esposa que ficou pra trás com filhos e nenhuma renda. E se você entra nos que não fuderam ninguém, são só pessoas que não viveram, pura e simplesmente. Porque parece muito bonito e poético e romântico largar tudo e ir pras montanhas, mas a realidade é essa: abrir mão do autoconhecimento real – que só conseguimos no convívio e no diálogo com outros seres humanos – para uma suposta vida espiritualizada é basicamente não viver.

Mas isso não é meio radical?

Mais radical do que largar tudo e ir pras montanhas? Creio que não. Espero a essa altura que você entenda “as montanhas” como qualquer uma dessas buscas por espiritualidade que terminam no isolamento. Bônus se a motivação forem práticas orientais ancestrais. Mais bônus ainda se tiver a ver com a Índia. Você não vai se conhecer mais porque usa bata e raspou a cabeça. Você não vai se conhecer mais entoando um mantra por horas e horas e horas. Também não vai se conhecer mais deixando as pessoas pra trás.

Mas você se conhece em cada briga. Em cada vez que quis falar e não disse. Em cada percepção sobre o seu corpo e a sua cabeça. Você se conhece quando se joga sem medo. Quando erra e aceita que errou. Quando pede desculpa do fundo do coração. Quando se compromete a melhorar. Os mantras e batas e práticas podem até ajudar, mas ir de cabeça é se abster, e se abster é se alienar. A tão falada atenção plena tem que vir de dentro pra fora, e não o contrário. Quando você tem atenção em você, nos seus processos, no seu crescimento, de uma maneira gentil e não egoísta, o mundo ao seu redor começa a mudar. Não é balela, não tem fundo religioso, não precisa de isolamento. Se o autoconhecimento te leva ao isolamento e não ao compartilhamento, ele realmente contribui pro teu crescimento como pessoa? Ele realmente contribui pro mundo?

Qualquer pessoa que passar uma semana em um retiro – e eu tô falando dos brandos, sem nem mencionar coisas como silêncio absoluto rs – vai voltar renovada das ideias, leve, feliz. O problema é que as pessoas confundem as coisas: não foi o retiro em si, ou a filosofia do retiro que te fez bem. O que te fez bem foi sair da vida de bosta da cidade grande. Aí a pessoa volta e uma semana depois tá escaralhada de estresse de novo. Lógico. Ser tranquilo, pacífico, centrado e sábio quando tiramos todas essas camadas é muito fácil. Agora imagina ir enfiando, mesmo que seja a força a princípio, todas essas práticas no dia a dia da vida real? Imagina respirar profundamente todo dia de manhã. Imagina ser grato. Prestar atenção nas flores. Imagina se perdoar e se amar de verdade. Imagina não precisar do retiro.

Enfim, é isso. Não fuja pras montanhas. Nem pra lugar nenhum. Não fuja de você e de tudo que você pode ser. Não fuja do mundo real. Contribua para a construção de um mundo real que comporte a espiritualidade, que comporte o autoconhecimento, que comporte a autocura. Que comporte até o isolamento, que de vez em quando se faz necessário pra gente lidar com os furacões da mente. Da próxima vez que der vontade de fugir ou se entregar a mais alguma filosofia milenar e milenarmente transformada em mais uma balela falocêntrica e patriarcal, vá de encontro ao que te faz querer fugir. Vai correndo. Vai pra colidir. Pega os cacos e reconstrói. Visite a montanha. Ame a montanha. Não fuja pra ela.

Gratidão e pensamento positivo: como sobreviver a quarentena de dentro pra fora

Desde que começou a quarentena, a vida virou um carrossel de emoções. Experienciei diferentes fases do luto, especialmente a negação, e agora que superei a raiva e a tristeza, consigo olhar pro ano com outros olhos. Se de início me apeguei a uma tristeza imensa por tudo que 2020 não seria, nos últimos dias consegui olhar pra tudo que ele é, pra tudo que ele ainda pode ser.

De maneira geral, nem sempre as coisas saem como planejamos. Na minha experiência, ao menos, elas não saem conforme o planejado na maioria das vezes (haha). Me acostumei a repensar, refazer, recriar, recomeçar. Só que existe diferença entre estar acostumado a isso em condições normais, e se pegar completamente impossibilitado por forças maiores. Não achei que veria o mundo passar por algo assim no meu tempo de vida, mas já que estamos aqui, resta aceitar e seguir.

Não quero que o “aceitar e seguir” se confunda de nenhuma forma com ficar parado. Aceitar uma coisa não é socar ela pro fundo da cabeça e continuar vivendo. Aceitar é se colocar de peito aberto. A coisa aconteceu, não tem nada que possamos fazer sobre ela, então juntamos os caquinhos e planejamos tudo de novo, com energia positiva e amor no coração.

Mas como encontrar energia positiva num tempo tão bosta?

É simples, mas não é fácil. É preciso olhar pra dentro. Do que você gosta? Pelo que você é grato? Quem é você quando se fecham as cortinas? É preciso olhar pra fora. Quem é sua rede de apoio? Por quem e pelo que você é grato? Gratidão é o clichê contemporâneo, mas a essa altura da vida superei o desejo de não ser clichê: se é positivo, quem liga? Sejamos gratos. Sejamos muito gratos. Sejamos gratos até o osso. Não pela comparação ao outro (coisa que detesto, aliás, essa de “imagina quem x y ou z”. Cada um sabe onde o calo aperta), mas por voltar o olhar a nós mesmos. A pessoa que eu era mês passado, ano passado, década passada, vive aqui por dentro, na essência, e ao mesmo tempo não existe mais. Sou um ser humano melhor, uma amiga melhor, uma irmã melhor, uma filha melhor. Me encho de alegria quando olho pra vida e penso: daqui a um ano, serei ainda melhor. E foi pensando isso tudo que encontrei a energia necessária para não me afundar. Sou grata pela minha família e amigos. Grata pelo marido maravilhoso que eu tenho. Grata pelas minhas oportunidades e, acima de tudo, grata por esse corpo grande e forte que me enche de possibilidades.

Através do exercício da gratidão a gente se entende melhor, se conhece melhor, e tem mais ferramentas pra passar por períodos ruins. É focar no que é bom e positivo, ao invés de deixar a mente vagar em pensamentos ruins. Eles vão vir e existir, e que bom que sim, porque pra mim a morte da negatividade é a alienação. Um pouquinho de melancolia mantém o pé na realidade rs.

Mas eu tô aqui agradecendo de joelho e continuo me sentindo um lixo, Dand, eu to sendo gratx errado?

Além do esforço pelo foco na gratidão, outra coisa que me ajudou muito nos últimos tempos foi substituir o pensamento autodestrutivo, na hora em que ele vem, por uma opção mais feliz, motivadora e agradável. Por exemplo:

– Eu a um mês atrás: eu desenho mal mesmo, sou péssima nas proporções, é tudo um lixo.
Resultado: fui parando de desenhar
– Eu hoje, quando esse tipo de pensamento vem: quero melhorar minhas habilidades em proporções e perspectiva, então acho que vou desenhar todo dia.
Resultado: continua torto, mas melhora a cada dia e eu amo cada resultado. HAHA

Só não podemos confundir a motivação-positiva-salvadora com a negação, certo? Qual é a diferença? Negação é ignorar a coisa/pensamento ruim e agir como se ela não existisse. Motivação positiva é olhar a coisa de frente, pelo que ela é, e colocar a coisa em termos motivacionais ao invés de derrubacionais (pra derrubar já basta a vida, né? ahaha).

E daí é só pensar positivo que tudo melhora?

Resposta curta: não. rs

Resposta longa: pensar positivo e se manter motivado e cheio de amor nos ajuda a passar bem pelas circunstâncias, mas, dependendo da circunstância, nada vai mudar além de você (o que já me parece grandioso e foda o suficiente). Pensar positivo e me manter grata não faz o Corona ir embora, nem mata a saudade que eu tô da minha mãe, irmãos e amigos. Não faz com que a pandemia acabe, nem com que mais leitos apareçam nos hospitais. Mas me faz passar por isso tudo com muito mais leveza e muito menos culpa, e pode te ajudar também, além de trazer benefícios que vão além desse período difícil.

Se você acha impossível mudar seus padrões de pensamento, eu te digo: dê uma chance. Eu tendo ao pessimismo e ao deprêshow, e nada me ajudou tanto quanto isso. Acredito na autocura, e pra isso precisamos estar alertas, atentos e dispostos. Ninguém pode te ajudar a ser um serumaninho melhor tanto quanto você, porque mesmo a ajuda externa tem limite se a gente não se ajuda. Um passinho de cada vez e chegamos muito mais longe do que acreditávamos ser possível. O segredo é o passinho. Um dia as pernas se fortalecem e a gente sai correndo.

Ninguém devia ser elogiado por emagrecer

Entre o ano passado e esse alguma coisa aconteceu comigo. Na realidade, entre o ano retrasado e esse. Basicamente, eu mudei muito minha alimentação (prioritariamente pra melhor, mas ainda dou meus vacilos de ficar muitas horas sem comer. Eu esqueço. Mesmo.) e comecei a andar feito uma louca – coisa que eu amo e fazia antes, mas tinha deixado de lado no void-das-coisas-que-a-gente-perde-o-ânimo-porque-trabalhar-fora-é-esgotante. Daí eu fui andando e andando e andando e comendo melhor e comecei a emagrecer. Eu não queria emagrecer. Eu não fazia nenhuma questão. De repente eu tinha emagrecido o suficiente pra ficar com o menor peso que tenho em mais de uma década. Que eu não queria e não fazia questão, guardem essa informação.

Antes que eu pudesse perceber – e imediatamente ao sair do que é considerado gordo e feio e chegar ao que é considerado gordo e socialmente aceitável – os elogios começaram. Era um tal de “nossa, você emagreceu muito, parabéns!” efusivo, uns “você tá mais bonita, emagreceu” e as variações disso. Uma porção de parabéns. Uma porção de olhares felizes de conhecidas me perguntando o que eu tinha feito. Todo mundo espera uma dieta milagrosa ou uma resposta. Eu nunca tenho resposta. Só agradeço se for alguma das vózinhas do meu convívio ou pessoas mais velhas, porque sei que seria desgastante explicar porque é tão problemático elogiar alguém por ter emagrecido.

Vivemos em uma sociedade focada na aparência, todo mundo sabe disso. Não vou falar sobre os problemas todos da indústria da beleza e da dieta nesse texto (em um outro, talvez, porque amo falar sobre isso hahaha), mas pegar nessa questão do elogio. Essa coisa que diz pra gente e pras pessoas que emagrecer é excelente e engordar é a morte. Essa coisa que faz meninas pararem de comer, vomitarem o que comem, perderem cabelo, ficarem com as unhas destruídas (eu, inclusive, lá pros meus 15 anos). Essa coisa que gera esforços e medos e angústias e dietas mirabolantes e soluções mágicas pro que não necessariamente é um problema.

Com meus 135kg de antes, eu me sentia bem, até não me sentir mais. Não por nenhuma questão estética, mas basicamente porque tinha virado uma pessoa muito sedentária que não aguentava andar 5 minutos sem morrer. Eu não subia um lance de escada. Eu parava no meio de todas as ladeiras. Isso foi me incomodando porque eu era acostumada a ser ativa e feliz, independentemente do meu peso. Era isso o que eu queria mudar. Ter preparo, me sentir fisicamente bem pra fazer o que eu gostava, ver meu organismo funcionando melhor. O peso foi uma consequência, e o peso sempre deveria ser consequência. Existe gente com pesos mais altos super saudável e ativa. Existe gente magra que é sedentária e come mal. Relacionar saúde com peso é um erro terrível e que não condiz com a realidade. Além de qualquer questão desse tipo – e nem vou entrar nelas porque por mais que saiam pesquisas e por mais que a realidade confirme, eu precisaria de um textão bem maior pra tentar convencer alguém.

O ponto é outro:

Quando você elogia alguém por emagrecer, está basicamente dizendo pra pessoa “você é uma bosta, que bom que está tentando se adequar a sociedade e deixar de ser gorda!”. Não é legal. Porque elogiar o emagrecimento faz automaticamente o peso parecer ruim, errado, algo a se envergonhar e perder. Se você elogia e recompensa quando alguém emagrece, está dizendo a uma categoria inteira de pessoas que elas não são o suficiente. Que existir e ser feliz como se é não é o suficiente. Eu não me sinto feliz com os elogios. Minha primeira reação é pensar “poxa vida, então essa pessoa me achava gorda e horrível e socialmente inaceitável”, e logo em seguida não saber como responder. Não é bom. Não vem como um elogio se você entende o quanto é pesado transitar pela sociedade sendo gordo. Fico pensando que não passo mais por situações estranhas e constrangedoras nas lojas, mas uma porrada de mulheres continua passando, e então o elogio é também uma surra em todas elas. É uma porrada que diz:

A sociedade não vai se adaptar a você. A gente não vai vender roupa pra você. A gente não quer você nesse espaço. A culpa não é nossa se você é gorda e essas roupas não te servem, vai emagrecer.

E se fosse o contrário? E se ninguém elogiasse ou criticasse ninguém por conta do peso? E se as lojas vendessem pra todo mundo e todo mundo se sentisse lindo, amado, gostosão e muito foda? Porque é esse mundo que eu quero ver. Não um mundo em que alguém me elogia efusivamente porque eu emagreci. Eu sou gorda. Não tenho problema nenhum em ser gorda. Peso menos de 100 quilos, já pesei mais de 130 e em nenhuma dessas configurações o problema era eu. Oi pessoa gorda, o problema não é você. Se é pra elogiar, elogiem meus textos, minhas músicas, minhas ideais. Comentários sobre o meu corpo eu dispenso.

No final, ninguém tem NADA a ver com isso.

Sobre conexões, vulnerabilidade, internet e algumas coisas mais

No início da tarde de hoje terminei de ler A arte de pedir, da Amanda Palmer. Sou fã do trabalho e da carreira dela a alguns anos, e estava querendo ler o livro desde que ele saiu. Daí o tempo foi passando e ou eu tinha dinheiro e esquecia completamente de comprar, ou eu lembrava e não tinha mais dinheiro. Diogo me deu o livro de presente no início da semana, e li compulsivamente em todo o meu tempo livre até acabar.

Eu era uma bola encolhida no sofá, enrolada num lençol e desidratada de chorar (de alegria). Uma porção de coisas bateram ao longo da semana, enquanto eu lia o livro. Minha postura sobre a internet e seus usos, redes sociais, confiança, entrega, vulnerabilidade, tudo. Me sinto uma pessoa diferente. Como se o livro tivesse pego exatamente em todos os pontinhos e questões que eu tenho. Como se fosse um abraço gigantesco me dizendo “calma, vai ficar tudo bem se você for honesta e quebrar esses últimos limites”. E então eu quebro, começando por esse texto, que é o meu “oi mundo, tudo bem?” de alguma forma. Uma coisa escrita de dentro, com toda a minha honestidade. Uma porção de pedacinhos de pensamentos e questões que vão me batendo. E que todo mundo sente. É sobre isso, acho. Sobre lembrar que todo mundo sente as mesmas inseguranças e fraquezas e tristezas e alegrias que a gente sente. Todo mundo. Todo mundo quer ser visto e ouvido, e se a gente der a chance, as coisas acontecem.

Sempre fui uma pessoa de ir. Eu sou de verdade a pessoa do “vambora”. Difícil achar um rolê que eu tenha recusado. Mesmo. Se me falam “aparece lá em casa um dia”, eu apareço. Já estive em situações tristes, felizes, engraçadas e apavorantes, com essa de ir na casa de gente que eu mal conhecia. Um churrasco de policiais em Campo Grande. Um apartamento com um lustre muito lindo e enorme e um piano e papel de parede descascado como eu só tinha visto nos filmes. Fiz uma porção de amigos e conexões, mas de uns tempos pra cá fui me fechando e deixando as pessoas de lado. Os tempos foram difíceis. As pessoas não se comunicam e conversam e trocam mais como antes (eu achava, ao menos). Coisas aconteceram e então eu entrei numa onda de trabalhar pra bancar as coisas legais, mas me sentir cansada pra caraleo no final do dia e esquecer delas. Aí eu bancava lanches HAHA. A sério, eu bancava compensações. Os prazeres momentâneos que parecem relaxamento, mas são só isso mesmo: compensação.

Daí eu saí dessa. Especialmente ano passado. Fui voltando a ser eu, na minha forma artística e lokona de sempre. Tô aqui na minha casa lindona, cheia de projetos, cheia de ideias. Aí eu li esse livro. Meu cérebro explodiu. Dá vontade de fazer tudo de uma vez e compartilhar tudo de uma vez e abraçar todo mundo até não aguentar mais. Me deu, em resumo, uma puta vontade de ser eu. Dessa forma ainda mais aberta e vulnerável e vambora do que eu jamais fui.

isso inclui, pra mim, superar um trauminha de uns anos atrás: os haters não eram tão comuns. Eram os idos de não lembro que ano (pensando agora, isso me aconteceu duas vezes. Três talvez rs), e um comentário numa foto fez um cara me odiar e começar a me perseguir virtualmente. Meu blog, meu facebook, absolutamente qualquer coisa minha. Eram uns comentários pesados. Ele chamou os amigos. Ele fez um fake. Eu bloqueava e bloqueava e mais coisa continuava aparecendo. De lá pra cá, passei a ser muito mais criteriosa sobre o que postava na internet. Sem a experiência e com o pavor, minha reação foi desativar as contas de tudo e parar de escrever. Um tempão depois voltei a postar, mas só pros amigos próximos. As publicações fechadinhas e cheias de restrições. Só que eu acredito no que eu digo. Acredito também no que faço (tem, inclusive, música e série a caminho, me aguardem muahahahaha), e mais do que isso, acredito na possibilidade real de me conectar com as pessoas através do que faço.

Eu já vi gente chorar emocionada com texto meu, com trabalho meu. Eu fiz amigos graças a escrita. Eu mexi com as pessoas. Do meu ponto de vista, se uma pessoinha só ao longo desse tempo tivesse sido tocada por algo que eu criei, já seria suficiente pra eu acreditar. Mas. Foram. Várias. Pessoas. Ao longo de anos. Em todo lugar que fui e me expus. Eu fui com medo, eu fui tremendo, eu engasguei, mas quando eu fiz, a mágica aconteceu. É como diz no livro, “o dom precisa circular” (ou algo do tipo que fui catar pra citar mas não encontrei. Mais sobre isso abaixo). Não pelo meu ego ou por qualquer coisa que derive disso, mas porque se eu tenho a algo a dizer e acredito nisso, e toco outra pessoa quando faço, uma conexão verdadeira foi feita. Uma conexão real. A gente fica muito mais humano, eu não sei, quando se conecta assim com alguém. Muito mais real. É a pessoa chorando com o texto e eu entendendo que ela entendeu. Ela me vê. Eu vejo a pessoa também. É se despir de todas as barreiras, de tudo que nos distancia, e trazer pra perto. Trazer pra dentro. Levar um pouco e deixar um pouco. E então nenhum trauma ou treta ou comentário negativo consegue destruir isso. Depois que a troca foi feita, nada mais faz diferença. Eu escolho a troca.

Sobre o parêntese da citação: hoje pela primeira vez na vida fiz marcações e anotações em um livro. Eu considerava o livro uma coisa sagrada. Eu seria incapaz. Se via uma orelha, queria morrer. Dramática e purista, sim. Com eles todos inteirinhos. Aí eu fiquei pensando: mano, eu perdi uma cacetada de livros no incêndio. Os que não perdi ficaram encardidos pra sempre. As coisas passam (e Matheus incentivou). Eu queria que a próxima pessoa a ler o livro (e pretendo emprestar pro máximo de amigos que puder) tivesse um pouco de mim também, do que me moveu, do que bateu pra mim. E então eu peguei a caneta e o marca-texto e fui colorindo tudo que me parecia mais importante (passagens aleatórias pra quando a galera for no banheiro aqui, onde o livro vai morar haha), e foi maravilhoso e libertador. E se ao invés de ser a coisa intocada na estante, todo livro levar um pouquinho de quem leu?

Dois meses sem shampoo

Há tempos vinha buscando uma forma de lidar com meu cabelo que não envolvesse shampoo, condicionador e relacionados. Testei o bicarbonato + vinagre, “”shampoo”” de semente de abacate, juá e mais algumas coisas, até desistir e voltar a usar. O bicarbonato – solução mais difundida na internet – é na realidade perigoso, podendo causar lesões a pele que demoram meses e até anos para secar. O shampoo de abacate foi bom no início, mas o cabelo foi ficando mais e mais estranho. Juá é bom, mas meu couro cabeludo é sensível e logo começou a descamar. Li uma porção de coisas sobre usar somente água, mas de início não acreditei que pudesse funcionar pra mim. Mesmo sabendo que o cabelo se acostuma, acreditava que a oleosidade fosse dificultar a adaptação, e como não sou muito paciente, deixei de lado.

Até o final do ano passado, quando raspei a cabeça. Estava eu com um monte de cabelos miudinhos, totalmente sem química e nunca lavados com shampoo. Minha relação com aparência mudou muito ao longo do último ano, e um desapego muito grande foi tomando conta. Parar de usar shampoo não foi difícil aquela altura porque, para além de qualquer questão estética, não tinha mesmo muito cabelo para ser lavado. Porque não dar uma chance? Comecei a deixar a água correr enquanto tomava banho, massagear bastante o couro cabeludo e passar vinagre e óleo de coco de vez em nunca.

Estou aqui, dois meses depois, cabelo ainda úmido do banho, e digo pra vocês: vale a pena. Além da economia enorme e dos resíduos que não produzo mais, meu couro cabeludo nunca foi tão saudável. Costumava ter alergias, caspa eventual e coceiras esquisitas, e agora tenho somente uma cabeça cheia de cabelo forte, brilhante e saudável. A oleosidade realmente aumentou no início, mas umas duas semanas depois tudo estava sob controle.

Mas o cabelo não fica fedendo?

Esse era um dos meus medos no início, e uma das perguntas que mais ouço. Passei o primeiro mês inteiro perguntando pro meu noivo todos os dias se o cheiro era ruim e, segundo ele, é “cheiro de cabelo”. Não consigo sentir porque ele ainda está curtinho, mas até agora ninguém me falou que eu estava fedendo. hehe

Se cheirar bem (e existe muito de construção social nesse “cheirar bem”, né?) é importante pra você, dá pra usar óleos essenciais misturados no óleo de coco, e passar no cabelo depois de lavar (bem pouquinho pra não pesar). Como a essa altura não ligo pra isso, uso só o óleo de coco de vez em quando (e fico cheirando a cocada haha).

Mas os cosméticos não são importantes pra saúde do cabelo?

A resposta real? Não, não são. A ideia de saúde capilar relacionada a cosméticos é muito recente na história (os cosméticos como conhecemos hoje começaram a surgir somente nos anos 20), e até então a galera lavava o cabelo com sabão. Em certas tribos, somente água, água de arroz ou óleos naturais são utilizados. O cabelo de todo mundo é enorme e forte, logo, saúde não tem relação com cosméticos.

A ideia mais difundida nos últimos anos, da necessidade de nutrição, hidratação, umectação e o que mais inventarem, é somente uma invenção da indústria para vender mais produtos. Seu cabelo não vai ficar fraco, cair ou piorar se você parar de usar cosméticos. Na realidade, a chance do cabelo ficar mais forte com o tempo é muito maior: nosso corpo é esperto e sabe o que faz. Anos e mais anos de evolução me parecem mais eficientes e comprovados do que qualquer groselha da indústria cosmética.  Então não, você não precisa de nada disso. Querer e precisar são coisas diferentes – e não tem nada de errado em querer usar as coisas. Cada um sabe como cuida de si, né? 😉

Mas não vai acumular sujeira até você ficar careca?

Por mais absurda que pareça a pergunta, já vi ideias desse tipo por aí! haha

Já conheci mulheres que colocavam camadas e mais camadas de cosméticos nos cabelos, ao longo de vários dias sem lavar. Óleos, cremes, mais óleos, mais cremes. Se elas não ficavam carecas, eu definitivamente não vou ficar. Molho o cabelo e massageio o couro cabeludo quase toda vez que tomo banho. Agora que o calor está passando e o cabelo está crescendo, estou começando a molhar dia sim, dia não. Como não existe nenhum resíduo de produto no cabelo e a massagem é feliz e vigorosa, acumulo menos sujeira no cabelo agora do que quando usava creme de pentear, por exemplo.

Mas isso é nojento, Dandara.

Não, não é. E de todos os argumentos, esse é o que mais me dói, pela desinformação. Não é nojento e não é descuido e não, eu não estou “relaxando”. Mesmo que estivesse, ninguém tem nada a ver com isso, maaaas, vamos falar sobre a essência dessa linha de pensamento: a indústria e a mídia nos convenceram muito fundo da necessidade de uma porção de produtos e serviços que na realidade nós não precisamos e passaríamos muito bem sem. Isso inclui absolutamente todos os cosméticos. Ninguém precisa usar maquiagem. Ninguém precisa usar shampoo. Você não é feia ou porca ou relaxada ou qualquer desses adjetivos se resolver não fazer essas coisas. Mas pense comigo: uma pessoa que acredita nessas coisas continua consumindo, comprando, gastando, investindo em ficar mais bonita. E que beleza é essa que vem num frasco de shampoo ou num tubo de batom? Se ela não vier de um lugar de consciência plena do funcionamento da indústria e escolha consciente de uso, então não é beleza. É cosmética. É aparência e só, e aparência e beleza são coisas muito diferentes.

Mais do que qualquer outra coisa, parar de usar shampoo e falar sobre isso me fez perceber o quanto as pessoas ainda estão ligadas nesses ideais, nessas falsas certezas plantadas pela indústria ao longo do tempo, e o quanto ainda precisamos conversar e trabalhar para ir desfazendo esses mitos. É excelente poder falar sobre isso e praticar o que prego!

Enfim, recomendo muito a experiência, não somente de abandonar a coisa em si, mas pesquisar, entender, compreender como a pele e o cabelo realmente funcionam e do que eles precisam. É libertador! Que tal experimentar? Qualquer dúvida, é só dar um grito que eu ajudo! 😀

 

Como não se sentir um loser com o final de Janeiro?

Janeiro é um mês esquisito. A gente começa cheio de ideias e planos, no gás, e logo se depara com uma triste realidade: o ano só começa depois do Carnaval. Mesmo que não espere o carnaval para engatar, Janeiro é um mês mais morto do que o meu manjericão (triste, eu sei, mas vou superar haha), e tudo fica lento até Fevereiro chegar. Daí é aquilo: existem as coisas que são possíveis começar, e existem aquelas que dependem de fatores externos a nós. O mês terminou e eu estava aqui com a sensação de não ter feito tanto quanto poderia ou gostaria. Fiquei ligeiramente decepcionada comigo, até parar e analisar o começo do ano mais a fundo. Na realidade, fiz uma porção de coisas boas em Janeiro, e o que não começou (ainda) foi pensado mesmo pra ser diluído ao longo do ano. Algumas das coisas que aconteceram no primeiro mês do ano:

  • Voltei a desenhar. Essa foi a coisa mais insana pra mim. Tinha deixado de desenhar a zilhões de anos atrás, e não me via voltando. Não que eu seja nenhuma gênia do desenho ou a minha abstenção tenha tido algum impacto, mas, sendo bons ou ruins (quem liga?), o importante é que eu fiz. Deixei fluir, mesmo sobrepensando e tentando encontrar sentido. Até agora tem sido excelente.
  • Comecei a correr. Essa semana completamos um mês correndo. Consigo ver o progresso acontecer, e sinto que muito em breve conseguirei correr o percurso todo (por hora vamos intercalando caminhada e corrida, pro corpo acostumar e meus joelhos não morrerem hahaha).
  • Aos poucos estamos conseguindo implementar nosso plano de fazer a comida da semana toda no domingo. Tô aqui feliz da vida que a janta já está pronta (e linda e maravilhosa).
  • Fizemos uma estante pras plantas, ganhamos algumas mudinhas, compramos outras e aos poucos a casa vai tendo o verde que eu gostaria que ela tivesse.
  • Participamos de um workshop de Python e estamos – mais lentamente do que eu gostaria haha – estudando a linguagem.
  • Começamos uma rotina matinal que tem sido fantástica: meditação, automassagem e banho antes de começar o dia. Me sinto mais tranquila e consciente, e a ansiedade passa cada vez mais longe.

Essas são só algumas das coisas. Com tudo isso em mente (e todas as outras vitórias diárias), fiquei pensando:

Porque tendemos a diminuir nossos feitos, enxergando sempre o lado ruim?

Vivemos em uma sociedade (infelizmente) movida a competição. Ninguém liga para o caminho, o importante é chegar. Tanto faz se o passeio é bom ou ruim, se a vida é boa ou ruim, porque nossa noção de bom e de ruim é contaminada pela competição. Ninguém quer ser melhor pra si, todo mundo quer ser melhor que os outros. Nisso, mesmo mudando o pensamento, mesmo abraçando a vida, mesmo feliz e apaixonado pelo que se tem, alguma parte de nós – essa partezinha que cresceu em sociedade, que sofreu a influência da mídia e da competição – tende a se sentir inferior, e a analisar o canteiro do vizinho pelo verde da grama, ignorando o tempo de cuidado e manutenção que aquilo demandou para crescer. A gente enxerga o resultado e compara nossa caminhada a ele, e não a caminhada alheia. Some a isso a ideia de talento, de dom, de sucesso, e nos pegamos achando que nada é bom o suficiente, que não temos o que é preciso, que somos incapazes frente a vida.

Diversas vezes ao longo do tempo larguei coisas que queria muito fazer, porque não tinha a paciência a resiliência necessárias para aprender. Eu começava as coisas achando que quem é bom acerta de primeira, sem compreender que esse “ser bom” toma prática, toma tempo, toma autoconfiança e perseverança.

E então terminou janeiro. E por um tempinho bem pequeno fiquei achando que eu era uma loser, que eu não tinha feito nada, que o mês tinha corrido e me deixado pra trás, até eu parar e olhar de fato o que eu fiz, enxergando as coisas como caminhos, como etapas, e não como atividades fechadas nelas mesmas. Para além disso, entender que as coisas podem ser feitas só por serem divertidas, sem uma utilidade ou propósito. O tempo “”útil””, aliás, se relaciona também com a competição e com o modo como a sociedade funciona, condenando o tempo livre, a atividade pelo prazer, a alegria de viver.

Tá, mas e a resposta pra pergunta no início do texto?

Como não se sentir um loser com o final de Janeiro? É muito simples: enxergue as coisas pelo que elas são, e não pelo que você gostaria que tivessem sido. Sem frustração e sem desânimo, entendendo seu próprio ritmo, seus processos e a velocidade como as coisas acontecem naturalmente. Colocar essa lente da expectativa faz tudo parecer menor e menos importante. Mas tudo é caminho. Cada passinho, mesmo que lento. Quando olho pra Janeiro como um todo, vejo uma porção de inícios, alguns hábitos que já não me imagino sem, e mais uma porção de possibilidades para o restante do ano. São os tais dos baby steps que vivo falando, passinhos pequenos mas constantes. De vez em quando, feito um bebê aprendendo a andar, tropeçamos ou não sabemos muito bem para onde ir, e é justamente nessa hora que mais precisamos nos reconectar com a pureza infantil: a cada tropeço levantar mais forte, mais confiante, com mais sabedoria e conhecimento. Se você anda se sentindo um loser, chuta esse sentimento pra longe. Perdedor mesmo é quem nem tenta. Quem tenta e erra já é um vencedor, só por ter levantado da cadeira e começado. 😀

Organizando o guarda roupas para uma vida mais feliz

Tudo começou no ano passado quando arrumei meu armário pela primeira vez em mais de ano. De início tirei um saco imenso de roupas para doação, mais outro com aproximadamente uns 15 pares de sapato. Tudo isso tinha sido comprado a muito tempo, muita coisa nem foi usada, e nenhuma das peças refletia minha personalidade, gostos e ideais atuais. Achei insano, quando arrumei a primeira vez, como nos apegamos a coisas que não cabem, não caem bem, enfim, peças que nunca veem a luz do sol. Pode ser uma roupa que servia e de repente ficou apertada. Pode ser que – como eu – você tenha emagrecido, mas acumule roupas do tempo em que tinha mais peso. As vezes o gosto mudou com o tempo porque crescemos, amadurecemos e nos conhecemos melhor. De qualquer forma, acumular no armário roupas que não são usadas é prática comum. Quem nunca lançou a velha frase “não tenho naaadaaa pra vestir” com um armário cheio de roupas?

A segunda arrumação foi próxima a mudança. Fui obrigada a avaliar tudo, afinal, estava indo para uma casa nova. Não queria trazer coisas que não fosse usar, uma vez que morar com alguém significa não ter mais o armário inteiro só pra mim e, para além disso, o desapego e a função da roupa tem sido questões para mim ao longo dos últimos anos. No final da segunda arrumação, mais um saco enorme de roupas foi embora, junto com mais alguns sapatos. Coisas que eu gostava mas não usava a anos, ou que comprei no impulso mas não tinham de fato a ver comigo. O mais impressionante pra mim foi que a maior parte da segunda leva de doações foi também composta por coisas compradas a muuuito tempo atrás, em sua maioria em brechós, bazares e mercados de pulgas. Já não é de hoje que me preocupo com a origem do que uso (quem produz, quais são as condições de trabalho, a qualidade dos tecidos e etc), e nessa de me preocupar, acabei dando preferência as roupas usadas: se a coisa já foi usada, me asseguro de que não estou contribuindo ativamente para um mercado que não concordo, nem financiando a exploração desumana de quem trabalha nas confecções da Índia, Indonésia e relacionados. Só que existe essa camada que ninguém diz: comprar muito em lojas/feiras de segunda mão ainda é comprar muito.

Com tudo, me mudei carregando dois sacos grandes de roupa (incluindo roupas de cama, toalhas e etc) e meio saco de sapatos. Ainda não era suficiente. Queria ter um guarda roupas funcional, que refletisse meus pensamentos e personalidade, que funcionasse de verdade e tornasse fácil a tarefa de sair de casa minimamente arrumada (se deixar, visto um saco e amarro na cintura HAHAHA). Depois da primeira e da segunda arrumações, a coisa tomou outra forma: agora olho uma peça sem dó, sem apegos emocionais, e consigo pensar racional e rapidamente se aquilo faz sentido e será de fato usado. Eu, a pessoa que tinha o armário abarrotado, sou agora possuidora de menos de 30 peças de roupa, e já me coçando pra mais uma arrumação em que muito disso vai entrar na roda e ser doado. Me sinto leve e feliz, porque olho agora e tudo faz sentido, todas as partes de cima combinam com todas as partes de baixo, os sapatos são confortáveis e funcionais e as peças refletem de fato a pessoa que eu sou: sempre pronta pra aventuras e passeios envolvendo longas caminhadas, faça chuva ou faça sol, sem perder o estilo.

Mas o que é “roupa funcional”?

Quando penso em roupa funcional, me vem uma ideia muito simples: é uma roupa que funciona acima de qualquer moda ou tendência, e que reflete a personalidade de quem usa. O que isso significa vai depender de cada um, mas em resumo, as peças funcionam entre elas, não cansam, são feitas para durar e casam com o estilo de vida de quem usa. Pra mim, isso significa botas de trekking, calças e saias confortáveis de cintura alta e crop tops. Para quem trabalha em empregos mais formais, pode ser calça ou saia social, camisa de botão e sapato fechado. Alguém realmente precisa de 20 calças e 40 blusas diferentes? Com certeza dá pra viver, ser estiloso e bonitão com muito menos do que isso!

E como eu monto um guarda roupa funcional?

Com paciência, consciência, foco e sangue frio! HAHA Gostei muito desse esquema de arrumar o armário três vezes, e vou compartilhar com vocês o porquê:

Primeira arrumação

Na primeira arrumação, foque em separar as peças que você nunca usa. Nessa fase ainda estamos apegados e tristonhos por nos desfazer delas, é normal, então é bom se desfazer do que realmente nunca usamos pra engrenar as outras duas fases. Se você não usa a roupa nunca, existe uma razão que talvez você não perceba. Pode ser que aquela peça lindíssima não caia bem, ou a roupa esteja apertada e esperando você emagrecer os últimos quilinhos, mas não faz sentido manter guardada. Pense que cada roupa a menos é um espaço a mais, que futuramente pode se transformar em uma peça que realmente faça sentido para você. Neste estágio, é importante não comprar roupas. Mais pra frente você entenderá o porquê. 🙂

Segunda arrumação

Dê um espaço de duas semanas a um mês entre uma arrumação e outra. É importante para acostumar nossa cabeça ao desapego e facilitar a segunda fase. Nesta etapa, faça uma avaliação fria sobre cada peça que sobrou: você usa muito de vez em quando? Ela combina com as outras roupas? Ela faz sentido para a pessoa que você é agora, ou foi uma compra feita a muito tempo? Você realmente se vê usando esta peça? Se ela só for usada muito de vez em quando, não for uma roupa que você realmente ama ou não fizer sentido com as outras peças, é hora de dar tchau. Para certas roupas pode ser doloroso (quase morri me desfazendo dos meus vestidos vintage hahaha), mas mantenha em mente o que eu disse antes: cada roupa a menos é um espaço a mais, para você dar vazão a pessoa que está construindo agora! Como o povo diz, quem vive de passado é museu. 😉

Terceira arrumação

Se você aguentou firme durante a segunda fase, tenho certeza que na terceira sua cabeça será outra! Uma coisa mágica acontece quando nos desfazemos do que não faz sentido: nossa mente vai também se desanuviando, e começamos a enxergar a arrumação com outros olhos. Ao invés do apego e do medo de se desfazer que temos no início, somos tomados por uma vontade muito grande de reduzir cada vez mais nosso armário, além de uma facilidade muito maior em enxergar o que faz ou não sentido. Na terceira arrumação, com o armário mais vazio, já somos capazes de olhar e perceber o que funciona, o que não funciona e o que pode funcionar. Gostei muito, nessa fase, de fazer o que chamei de Condicional: se a peça parecia fazer sentido, mas por alguma razão não era muito usada (ou nunca usada rs), a condição de permanência no armário era usar mais de duas vezes no mês posterior a arrumação. Não foi usada? Coloquei mais de uma vez, mas acabei não saindo com ela? Então tchau! Se você vê aquela peça que é linda e quer dar mais uma chance, coloque na condicional. Uma dica: se você não usou até agora, provavelmente ela não vai passar. hehe

Algumas perguntinhas que ajudam a avaliar as peças:

  • Esta peça combina com minha personalidade e ideais?
  • Sou apaixonadíssimo por esta peça de roupa, ou ela não me traz felicidade?
  • Qual foi a última vez que usei essa peça?
  • Se eu só pudesse ter minhas 20 peças favoritas, esta estaria na lista?
  • Esta peça funciona com as outras (cor, modelo, etc)?
  • Esta peça faz eu me sentir maravilhosa?

Menos roupas = mais alegria!

Organizar o armário pode ser muito difícil, especialmente se o nosso acúmulo é ligado a alguma questão emocional. Passei dificuldades financeiras quando era mais jovem, e vejo nisso uma das razões para a minha dificuldade em me desfazer de roupas e sapatos. Bate um aperto no peito, uma sensação estranha, como se eu nunca mais fosse ter condições de ter as coisas, ou um desastre financeiro fosse acontecer na minha vida amanhã e gerar arrependimento por ter me desfeito. Identificar a raiz do que nos estimula a consumir é essencial para mudar os hábitos, renovar as crenças e seguir em frente. Me sinto muito mais feliz ao abrir o armário agora e ver que ele casa perfeitamente com a pessoa que sou hoje do que me sentia a alguns meses atrás, antes desta grande arrumação. Ainda não cheguei no objetivo, mas me percebo a cada dia mais próxima. Além de todos os benefícios e praticidade, um armário mais vazio é mais fácil de arrumar e manter arrumado, o que ajuda muito. Dê uma chance a renovação: comece hoje mesmo a construir sem guarda roupa funcional. A felicidade é garantida!

Uma recomendação para terminar

A algum tempo comecei a ler sobre o método da fofíssima Marie Kondo, mas na época estava enroladíssima e não consegui me aprofundar. Comecei hoje a assistir a série original do Netflix Tidying up with Marie Kondo e estou amando: a cada episódio ela ajuda uma família a reorganizar a casa, desentulhar o espaço e organizar a bagunça. É pra chorar, pra rir, pra se identificar e aprender mais sobre este método tão falado de organização. Não deixem de assistir! 😀