Deixa a grama

Tento trabalhar aqui, na minha quase-ex-sala, enquanto o barulho do cortador de grama leva embora o restinho da minha sanidade que nesses tempos não é muita mas vai saber. E então é só barulho. Essa coisa insuportável quando repetitiva e quando não a repetição do que queremos. Porque tem repetições e repetições e barulhos e barulhos. Este entra na categoria do que nem deveria existir porque, meu Deus, imagina só se a grama crescer. Imagina se a grama crescer e se tudo que chamam erva daninha crescer e, minha nossa senhora, as plantas tomarem conta. Imagina só que coisa horrível pra vida do cidadão de bem, olhar pela janela e ver que aquilo tudo que ele não quer floresceu. A florzinha amarela e pequena da erva daninha. Miúda, muito. Uma coisinha, uma florzinha de desenho animado. Tão pequena que você pensa pfffff que diferença faz? É quase nada. É tão pequeno e frágil. Mas o cidadão de bem da janela do oitavo andar vê lá embaixo quando olha. O pontinho amarelo na grama verde. O pontinho de cor e luz e força do que insiste em brotar pelas frestas. Do que insiste em viver e florescer e acontecer mesmo que tudo diga que não.

Vez ou outra parece um ritmo, o cortador de grama. Vez ou outra parece até que quem corta também não aguenta mais e então é um pouquinho de diversão no meio de uma das tarefas talvez mais insuportáveis de todas as tarefas inúteis e insuportáveis. Porque se eu aqui no segundo andar não aguento eu imagino ele ali. Com o cortador na mão. Se torturando. Tem um gatilho no cortador. Você aperta igualzinho um gatilho de arma (eu acho ao menos porque as únicas armas que peguei eram pistolas de água ou dardos e eu nunca fui nem num paintball). E então ele aperta bem fundo o gatilho bem bem fundo e sente a vibração e então ele corta e o cheiro de verde e vida começa a subir e tudo é cheio de grama. Tudo é cheiro de mato. E ele aperta o gatilho e corta corta corta corta. O serumano adora matar. Adora tirar a vida das coisas pequenas e indefesas. Mesmo as coisas pequenas e indefesas talvez adorem, segundo ele mesmo projetando sua existência em todas as coisas, porque ele resolveu também que a erva daninha é daninha porque um dia resolveu que tais plantas eram melhores e mais merecedoras de espaço e vida que tais outras plantas e por isso as daninhas são daninhas. Elas absorvem do solo o que segundo o serumano deveria ir pras plantas que ele quer ali naquela terra. Ele aperta o gatilho. A florzinha miúda e amarela respira seus últimos segundos de vida. Bzuuuuuuum zuuuuum zuuuuuum. Ela sente o cheiro da grama cortada. Ela fecha os olhos.

Se não arrancar da raiz eu volto, filho da puta.

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