Depois é nunca

Quando foi a última vez que você sentiu um frio profundo na barriga? Não falo daquele que bate suave quando o carro passa ligeiro por uma subida assim, tranquila. Não falo do nervosismo sutil. Estou falando de primeiro beijo estou falando de primeira transa estou falando de você parado falando para uma porção enorme de gente. Esse frio na barriga. Quando foi a última vez? Por muito tempo achei – meu Deus, eu não sabia de nada – que era preciso matar o frio na barriga. Que era preciso insistir até ele desaparecer completamente. E só então eu saberia. Só então eu me sentiria plenamente confortável. Só então eu seria tudo que eu deveria ser, porque tudo que eu deveria ser era uma pessoa confiante feito um ganso correndo na direção de um gorila, e isso só poderia significar frio na barriga zero. Zero. Uma barriga que não vibra uma barriga que não manda engasgo uma barriga que sabe como ninguém o que está fazendo.

Esse dia nunca chegou e eu cansei de esperar. Porque devia ter alguma coisa errada comigo, achava. Meu. Deus. Eu. Não. Sabia. De. Porra. Nenhuma. Nada, nadinha. Eu percebi que tudo que eu entendi estava errado, e que bom que nunca é tarde pra mudar evoluir transcender. Que bom que nunca é tarde pra entender, mesmo que essa seja outra ideia que enfiam goela abaixo: de que as vezes é tarde pra mudar. Assunto pra outro fluxo. Mas então, eu ia dizendo. É sobre ele, esse tempo todo. O frio na barriga. A sensação de cair no chão. A cara esborrachada e você lá colocando tudo pra fora, de um jeito bonito. Ou não, porque não é sobre beleza. Você lá colocando tudo pra fora de um jeito só seu, visceral, doído, do fundo. Estatelado de fazer. Destruído das melhores formas possíveis. O que é verdadeiro vai sempre sempre sempre dar frio na barriga. O que é real. Vai fazer o sistema bugar e a gente segue fazendo. Fica confortável, sim, com o tempo, mas se o frio na barriga for embora eu vou junto. Porque eu quero sentir até explodir. Eu quero sentir até que todos os poros do meu corpo estejam sentindo.

E então tudo é pulsação. Depois é nunca. Não existe outro momento que não o agora. Não existe outro dia que não esse dia. São três da tarde e eu fiz mais hoje do que em semanas inteiras. Movida pela força desse sentimento que me arrebata, dessa coisa maravilhosa que é ser tudo que se é e quer e pode. Tudo bate mas só entra o que eu permito. E nem é sobre o controle em si, essa coisa que eu também muito erroneamente busquei. É sobre o controle sobre o que eu posso controlar e um descontrole eventual de todo o resto pra sacudir e dar vida. Pra sacolejar e misturar os meus neurônios. Pra fazer com que tudo seja criação. Depois é nunca nunca nunca. Não tem nada mais que eu nunca mais. Nada. Eu desenho de novo eu crio eu faço eu canto eu toco eu componho. O nunca mais não existe porque não existe tempo pro nunca mais.

E é insano aqui. Insano. Eu não vou nem começar a explicar.

 

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