Tenho reparado um costume das pessoas, que na realidade não é contemporâneo, mas tem me parecido mais latente: a mania de fazer elogios com um “mas” no final. O “mas” por vezes vem implícito, mas ainda assim está lá. E é chato, sabem? Tem vezes que esse complemento ao elogio soa como uma porrada na boca do estômago.
Evito a muito tempo fazer isso. Quando elogio, o faço de coração e sem aproveitar o momento pra apontar algum defeito da pessoa, especialmente porque defeitos são – na maioria das vezes – questão de ponto de vista. Quando foi a última vez que você elogiou alguém sinceramente? Você já se percebeu usando um elogio pra mascarar uma crítica?
Um dos comentários mais comuns nesse sentido se direciona a nós gordas. Passei por isso apenas uma vez na minha vida: a pessoa vira e fala algo como “você tem um rosto lindo, mas…”. Esse “mas” é seguido de “precisa emagrecer”, “só precisava fechar a boca”, “ia ficar mais linda ainda se perdesse uns quilinhos”. Isso não é um elogio. Isso é pegar um padrão e massacrar alguém usando ele. Passei por isso – como em todas as situações de gordofobia – com uma mulher. Me reconheço como uma gorda dentro do padrão e sei que por isso não sofro preconceito: tenho a cintura fina, os seios pequenos e sou bem alta. Imagina quantas vezes na vida uma menina gorda fora desse padrão ouve isso?
Para além das questões de corpo, existem um tipo de “mas” que sempre me incomoda: o “mas” utilizado para reforçar um comportamento que a pessoa algum dia teve. Pouco importa se a pessoa mudou ou se esforça para mudar ou reconhecer o padrão que a levava a fazer aquilo. Pouco importa, na realidade, se o padrão de fato existiu ou foi fruto de outras questões. Quando esse porém vem, é sempre devastador. Pode ser a mãe que insiste em reforçar padrões que o filho teve ao longo de algum período da vida. Pode ser a amiga reforçando algo que batalhamos pra deixar de lado. Pode ser um(a) namorado(a), marido ou esposa que bate constantemente na mesma tecla. Costumeiramente, os poréns vem das pessoas mais próximas e são, por isso, ainda mais devastadores. O pior de tudo? Essas maldades podem até ter no fundo o desejo de nos ajudar, mas o efeito é justamente o oposto. Quando ouvimos fazer algo que acreditamos ter deixado de lado na vida, nos vemos de volta no loop que causava aquilo. É uma espécie de trigger (um gatilho), especialmente pra quem sofre com problemas como depressão e ansiedade. Em resumo, além de não ajudar ainda atrapalha.
Por isso peço a quem ler esse texto: tenha um pouco mais de empatia, mesmo que seu objetivo seja ajudar. Você pode estar fazendo alguém dar passos pra trás, mesmo com o esforço para andar pra frente. De verdade (e de preferência), não faça isso com ninguém, mesmo que você ache que a pessoa está em um estado mental bom. Não sabemos o que se passa na cabeça dos outros e, caso seja um padrão realmente prejudicial, o melhor a fazer é insistir para que a pessoa procure ajuda médica. Quer ajudar? Ajude a buscar ajuda.
Hoje é o penúltimo dia de Setembro, mas acho o tema pertinente ao Setembro Amarelo. Nós nunca sabemos até onde vai nossa influência e impacto na vida das pessoas. Não seja uma das razões. Vira e mexe no comentário mais inocente mora a reação mais perigosa. Vai elogiar? Elogie sem “mas”. A vida já é difícil o suficiente sem alguém apontando constantemente nossos erros.