Porque eu raspo a cabeça

Primeiramente, porque posso. Em segundo lugar, porque quero. Quero porque cansei do tratamento que recebia com o cabelo todo na cabeça, grande e farto, depois de anos de cabelos curtos. Cansei de ser tratada feito um pedaço de carne, e cansei também de ser tratada como menos do que um ser humano. Ter a cabeça raspada alimenta meu ódio e me faz relembrar todos os dias do estado podre e insensato da sociedade em que vivo. Me faz relembrar que nenhum avanço é real e muito menos garantido. São todos frutos do consumo, todos. A inclusão só existe quando vende, e assim que é possível acabar com ela, acabam. Em pleno 2023 e está pra sair um filme da Barbie. A Barbie, uma senhorinha de 63 anos que engoliu a autoestima de gerações e mais gerações de meninas. Raspo a cabeça porque me recuso a compactuar, e qualquer consequência que eu sofra por isso me lembra que liberdade de verdade só existe fora do considerado normal, fora do considerado feminino, enfim, à margem da sociedade de consumo.

Hoje no supermercado tomei uma porrada de um carrinho cheio de compras. A autora, uma sem noção, me mandou olhar por onde eu andava. Em qualquer outro tempo eu tomaria a porrada e automaticamente pediria desculpas. Hoje mandei ela pro inferno e xinguei de tudo quanto foi nome. Enquanto caminhava até o mercado, um grupo de crianças gritou desaforos que envolviam um “mulher careca”. Podres desde a infância, já absorvidos pelo senso comum e pela doente falta de respeito que acompanha a maior parte da população. Finjo que nem é comigo. Um atendente no posto de gasolina me chamou de Cássia Eller e riu, como se fosse uma piada ou uma espécie de xingamento. Ser comparada a uma das maiores e mais autênticas intérpretes da música nacional? Sim, obrigada.

Sinto que não vim pra me explicar, eu vim pra confundir, como diz a música. E nessa confusão muitas vezes me perco dos meus propósitos. É doloroso ser diferente. Não porque eu queria ser igual, Deusa me livre, mas porque eu queria que me deixassem em paz. Ser diferente aqui é como dar um passe livre para que façam e digam pra você o que quiserem. Vivo em um país doente, em um bairro doente, uma roça cafona em que as mulheres destroem sua vida e corpos parindo e tentando manter os machos de merda que arrumam. Uma existência triste, assim como as dos homens da região. Vira e mexe vejo carros parados pela minha rua, e se você passar do lado vai ver um macho bosta assistindo pornô e fugindo da família construída a base de (pretensa) normalidade que o espera em casa. Viva os cidadãos de bem! E eu que não bebo, não uso drogas e tenho consciência racial e de classe tenho que passar pelos absurdos que passo, vindos dessa gente insossa e surreal que se acha correta e normal. É normal tocar punheta escondido no carro enquanto crianças de 12-13 anos passam do lado? É normal olhar com desejo pra essas crianças, sr. Bolsominion? Creio que não. É por isso que parei faz tempo de defender qualquer solução que prometa resolver os problemas desse lugar medonho. Nem toda educação do mundo apagaria o que a moral religiosa e o pornô gravaram bem fundo na cabeça dessa gente. Se as crianças são medonhas, são apenas reflexos dos adultos que as cercam.

Outro dia fui tomar um sorvete e, enquanto uma das atendentes montava a casquinha, a outra dizia “eu sou homofóbica mesmo, tem algum problema? Sou obrigada a gostar de viado e sapatão? eu hein, sou bolsominio, sou homofóbica mesmo”. Hoje no supermercado um homem reclamou de pagar pela sacola, e depois que ele saiu a caixa bradou alguma coisa que terminava com “…e os viados. Falo pro meu pai que se ele fizer igual a esses velhos eu vou bater nele”. Homofobia e violência contra idosos na mesma frase, e não era uma brincadeira. Mas doente sou eu, por ter a cabeça raspada. Doente sou eu por andar confiante como sou e ignorar o considerado normal, mesmo me doendo de medo dessa gente por dentro. Doente sou eu por acreditar que o mundo se perdeu e que nada mais faz sentido. Como aguentar a realidade quando tudo chega a esse ponto?

Em resumo, se me perguntarem porque raspo a cabeça, a resposta é a seguinte: conforme vejo o cabelo caindo no chão, sinto um peso imenso ser tirado das minhas costas. Prefiro que me olhem como uma aberração. Em um mundo de gente suja, perturbada e que não respeita ninguém, prefiro ser freak do que ser fake. Eles que morram engasgados com o próprio veneno.

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