Então assim que é viver o fim do mundo? O momento em que as coisas acabam. É assim? Eu achava que o fim de tudo seria diferente. Que as coisas iam se desfazer todas ao mesmo tempo. Um dia aleatório de abril e bum o mundo acabou. Sem notícia e sem vestígio. Sumir e nunca mais existir. A humanidade inteira e todos os animais e todas as coisas. Mas eu pensava mais no futuro que vinha de todas as ações até ali. Sempre pensei mais nesse. A consequência de todos os atos. Tudo causa e efeito e causa e efeito e causa e efeito. Tudo ciclo. Destrói dali, a natureza revida daqui. Daqui a muitos e muitos anos, eu via, as consequências de tudo. Mas de repente era futuro. Um desses, distópicos, que eu gostava de teorizar.
Um bebê chora lá embaixo enquanto eu aqui penso no fim de todas as coisas. O que vai acontecer? A natureza revidando. Eu fico pensando, de novo e de novo e de novo. Feito um filme. Viver um filme. Vez ou outra penso que aquilo tudo que vimos na infância construiu esse futuro. Como se o nosso desejo de ser da rebelião, de viver nos esgotos mas ter um ideal, como se a nossa visão de toda a destruição tivesse contribuído pra construir isso. Todos os garotos querendo ficar ricos. Todos os nerds estranhos e renegados querendo revidar uma vida de negação e dominar tudo tudo tudo. E então eles construíram tudo aquilo que os filmes e séries e desenhos diziam que era o futuro. E se os filmes fossem sobre paz e amor e coisas bonitas? E se fossem sobre aceitação e harmonia? E se tivéssemos sido expostos a coisas muito muito positivas pra humanidade? Estaríamos aqui, mas de outra forma. Imagina só. A tecnologia a serviço das pessoas. A tecnologia que une, que cura, que desperta. Mas não. Distopia. Destruição. O fim de todas as coisas.
É cinza lá fora e aqui dentro do meu peito. Cinza. Da fumaça dos incontáveis cigarros que fumo todos os dias. Cinza. Do cinzeiro cheio até a boca. Me envenenando bem aos pouquinhos pelos últimos 13 anos. Não acontece de uma vez. Enquanto você é jovem seu pulmão funciona que é uma beleza. Ele compensa. Você nem aguenta fumar tanto. E então você aguenta, de repente. Vai tomando todos os espaços do dia. Começa nos vazios, mas em todos, em tudo que for possível. No início eu era dança a noite inteira. Agora sou dança a noite inteira com um pouquinho de pigarro. Ele chegou devagar. Bem devagar, a princípio. Uma notícia no fundo das notícias. Longe, longe onde a noite é dia quando aqui e quando lá o inverso. Longe onde as pessoas são tão tão diferentes. Longe outra cultura no fundo do jornal. A coisa escalona, mundo. Como não percebem a essa altura? Tudo é muito ontem no hoje do dia a dia. Tudo é muito passado. Olha só achei essa notícia de dois dias atrás. A gente diz como se fosse muito tempo. Veio devagar do outro lado do mundo. Só que não. Era veloz e sorrateiro como só a natureza sabe e é capaz de ser. Só vingança vingança vingança aos santos clamar. Imagino a natureza uma mulher enorme enorme que ouve umas coisas muito épicas muito gigantescas. Mas é a minha visão, logo, o que é épico e gigantesco nem sempre é o que se considera. Quem liga. Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada, diz a natureza.
Eu não me dei conta a princípio. Estava tão distraída entre todas as coisas e lavagens de mão pra me dar conta. Estava distraída rindo de quem acumulou quantidades obscenas de papel higiênico. Estava evitando sair de casa mas eu sou o futuro e essa já era a minha realidade a semana inteira. Eu trabalho de casa feito um bom robô a.k.a. nômade digital a.k.a. millenial. Mas eu sou pobre e pobre nasci, logo, eu estou na base da cadeia da juventude. Eu já nem sou mais jovem mas eu nasci a dez mil anos atrás quando a internet era mato. Obrigada, visionária mãe (a minha, não a natureza) pela graça da melhor internet de cada tempo. Valeu o sacrifício. Tenho as ferramentas pra sobreviver ao apocalipse no aconchego do meu lar, agora que o futuro hollywood veio bater na nossa porta. Mas então voltando a história. Eu não me dei conta a princípio. E então me bateu tudo de uma vez, hoje. Me bateu feito eu imagino que uma facada bate. Eu nunca tomei uma facada, mas imagino. Primeiro você não sente. Primeiro é ardência mas é leve. Daí a coisa pega fogo. Daí a dor toma conta. Vai ver nem é assim uma facada, mas assim imagino e assim me bateu. Me cortou frio e fundo. Me cortou feito o vento dessa época do ano, que cada vez que volta a estação me faz pensar: fudeu, é agora que o mundo acaba. Talvez a gente morra, cara. Não como uma coisa no futuro. Não como uma possibilidade longínqua. Não como todas as vezes em que pensei ou fantasiei ou ensaiei ou cometi. Isso não é uma simulação. Repito. Isso não é uma simulação. Não é como ir gradativamente construindo uma boa relação com a mortalidade. Não é como ter a oportunidade de se planejar. Ou morrer num acidente comum. Ou ser vítima da violência urbana.
Se você fuma e se você vive a muito tempo ou se você foi acometido por alguma coisa que te pegou ou veio com você ou você herdou e já te fode a vida de diversas maneiras, você pode morrer a qualquer momento. Se você fuma muito, o seu pulmão produz alguma coisa ou não produz alguma coisa que eu já nem lembro e então se a vingança da natureza te pegar você dança. Você dança, amor. Você dança da pior forma que não é colocar pra fora as dores e delícias de ser você. Não. Você dança daquele jeito em que acabou essa passagem por aqui. Isso fudeu a minha cabeça em muitos tantos graus a mais do que ela normalmente é fudida. Porque, não se engane: eu penso na morte todos os dias. Não tem um dia em que eu não tire um tempo pra contemplar todas as formas brutas e ligeiras ou cruéis e lentas e todas as situações que podem se desdobrar na minha morte (e, costumeiramente, na de todos que conheço e – especialmente – os que amo). Isso me curou de uma maneira. Isso me trouxe do limbo. Porque de tanto pensar eu entendi que, bom, é isso aí. Pode acontecer. Pode demorar. Ou não. Aí vem a natureza e fode com a porra toda. Porque é diferente de pensar e levar. É real e possível muito perto sem tempo pra abraço e sem despedida. Não pode encostar não pode beijar. É o vírus anti afeto. Maltratamos tanto que ela mandou um vírus anti-afeto. E então a questão não é se você vai pegar essa coisa a questão é quando. Quando. A questão é quando. E se quando esse quando chegar você vai conseguir chegar do outro lado. É uma corrida macabra. É uma coisa tenebrosa. É um jogo um tanto sádico da natureza. Porque ela ama mas ela tem limites. Amor sem limites é tortura. Ela ama mas se ama primeiro.
E então, como ia dizendo, a questão é quando. Quando? Quem vai passar da linha de chegada? Quem vai existir no ano que vem pra contar a história? Foi o suficiente pra dar um nó. Mas daí, logo em seguida, eu me dei conta: e se eu me libertar? E se eu entregar pro universo e entender que me preocupar não vai fazer com que eu tenha as respostas. Pensar isso não vai me ajudar – e nem a ninguém – a chegar do outro lado. Oi bom dia não tem absolutamente nada que você possa fazer. Nada nada nada. Além das medidas de higiene do distanciamento social do isolamento da paciência. Da paciência. Ar pra dentro. Ar pra fora. Bem devagar. Pra desacelerar o coração. Pra conectar com a terra. Aterrar. Abrir o coração e entender a importância de tudo o lugar de tudo o tempo de tudo. Nada nunca mais vai ser igual mas quando foi? Quando? Fábricas tem telas pra impedir o suicídio de funcionários. Peças fabricadas por essas pessoas possivelmente vivem felizes no seu e no meu e nos nossos computadores e celulares. Sabemos e de maneira geral ignoramos ou não nos damos ao trabalho de saber de verde e entender de verdade e combater. Pessoas morrem todos os dias escravizadas ao redor do mundo. Jovens e crianças morrem todos os dias vítimas da violência urbana e doméstica. Mulheres morrem. Mulheres negras, especialmente. A vida já era uma desgraça antes. A única diferença agora é, pra maioria das pessoas, a proximidade dessa coisa dolorida e difícil que é a morte. E dói, né? Dói não saber quando é o último dia. Dói não saber qual foi o último abraço. Mas essa já é a realidade. A vida já era uma desgraça antes.
E era linda. Uma desgraça linda. Em que a gente empurra mais um pouco e vence mais um pouco e chega um pouquinho mais longe, todos os dias. Um caos completo em que, de alguma maneira, o bem vence. A humanidade persevera e prospera e permanece. A natureza nos regula e vai continuar regulando até todo mundo entender que somos parte dela e devemos respeito. Até todo mundo entender, cada pessoa. Até que cada decisão seja tomada visando a manutenção da humanidade e do planeta. Ar pra dentro. Ar pra fora. Puxa o ar pelo nariz segura três dois um. Solta pela boca. Aaaaaa. Faço as pazes todos os dias com todas as ideias. Todo dia o primeiro e o último. Quando. A pergunta é quando.