Como criar rituais duradouros e mudar sua rotina

No texto anterior falei sobre como criar focos ao invés de resoluções de ano novo, e citei a criação de pequenos rituais, que nos ajudam a mudar a rotina e introduzir novos hábitos. A ideia é muito simples: quando dividimos um foco, que é um objetivo maior,  em tarefas e rotinas menores – o que chamamos aqui de rituais – fica muito mais fácil construir mudanças a longo prazo. Para criar os rituais, é importante ter uma lista de focos que realmente faça sentido para você, que falem com seu coração e realmente reflitam a vida que você gostaria de levar. Como sou louca-apaixonada por papel, escolhi um caderno para ser meu Caderno das Realizações, onde anotei meus focos e rituais. O objetivo é ir preenchendo o caderno com a evolução dos processos, para poder ter uma visão das mudanças no final do ano. É importante ter uma ferramenta deste tipo, pois a partir do momento em que anotamos, a coisa toma corpo no mundo real, e nos sentimos mais motivados para continuar seguindo. Fiz uma lista para ajudar a desenvolver rituais que realmente funcionem e consigam ser mantidos ao longo do ano:

1 – Uma coisa de cada vez

Adotar um novo hábito não é tarefa fácil, especialmente quando diz respeito a mudanças mais profundas. O segredo é escolher um foco de cada vez, e não se sobrecarregar de mudanças. Quando mudamos muita coisa de uma vez, a chance de desistir no meio do caminho é muito maior. Adote um ritual hoje, outro daqui a um mês e por aí vai. Não existem regras ou prazos: quando você se sentir confiante sobre um ritual, adicione outro e aumente gradativamente o grau de dificuldade.

2 – Não dê passos maiores do que as pernas

Você é completamente sedentário, mas resolveu criar um ritual que envolve uma hora de exercício por dia? A chance de se sentir morto no dia seguinte e não conseguir dar continuidade é muito grande. Mudanças grandiosas não acontecem da noite pro dia, e é importante dar espaço para nosso corpo e mente se adaptarem. Que tal incluir 10 ou 20 minutos de caminhada no dia? Quando sentir que ficou fácil, aumente mais dez minutos. Antes que você perceba, está caminhando quilômetros. Isso vale para qualquer tipo de foco: quer juntar dinheiro? Comece com um pouquinho por mês. Quer mudar de carreira? Reserve um tempinho toda semana para pesquisar e estudar suas possibilidades.

3 – Não se martirize

A ideia dos rituais é tirar o peso da mudança, e fazer as coisas de forma suave e significativa. Por isso começamos com tempos menores e tarefas mais fáceis. A vida é corrida, problemas acontecem e nem sempre conseguimos realizar a tarefa no horário ou da maneira que planejamos. Não se martirize por isso! É como diz a frase: feito é melhor que perfeito. A continuidade e a consistência são mais importantes neste ponto do que a qualidade. Nem sempre as coisas na prática se desenrolam como planejamos, mas se nos mantivermos firmes no objetivo, tudo dá certo no final.

4 – Divida os focos em listas curtas

O foco é uma coisa muito abrangente, e costumeiramente nos sentimos perdidos e sem saber por onde começar. Sente com calma e pense em quais são os passos para a concretização daquilo. Liste estes passos e pense em quais rituais você pode adotar para alcançar cada um deles. Por exemplo: ano passado um dos meus focos era me mudar. Para isso, precisei reavaliar minha relação com o dinheiro, analisar onde estava gastando e como podia melhorar e ser mais econômica. Um dos meus rituais – que se relacionava também com o foco de ser mais saudável – era preparar a comida que levava pro trabalho. Com isso, comecei a economizar uma grande quantidade de dinheiro, e passei a analisar meus gastos com mais cautela (comida e besteiras, essencialmente. A muitos anos sou mão de vaca sobre compras e gastos hahaha). Entre o ano passado e esse ano, passei da pessoa que chegava ao meio do mês sem um tostão, a pessoa que consegue guardar um dinheirinho todo mês. Nada disso seria possível se tivesse feito a mudança de estalo. Os rituais e a percepção do caminho foram essenciais para chegar onde estou agora.

5 – Mantenha a atenção no caminho e celebre as pequenas vitórias

O resultado dos focos e rituais mora muito mais no caminho do que na chegada. Perceber a mudança é maravilhoso e muito motivador. Ao invés de olhar ansioso para o final da linha, mantenha a calma e celebre as pequenas vitórias. Cada passo caminhado para frente é um passo a mais na direção do objetivo. Anote no caderno as pequenas realizações, os motivos para ser grato pela vida e as sensações que cada ritual te causa. Lembre-se sempre que é sobre a caminhada, não sobre a linha de chegada.

6 – Medite

A meditação nos ajuda a aumentar nossa paciência, nos torna mais resilientes, focados e tranquilos para seguir em frente. Não precisa ser um monge budista para aproveitar seus benefícios: você não precisa de nada além de seu corpo, um lugar tranquilo e alguns minutos para começar. Aqui na Casa das Trevas adotamos o ritual com o início do ano, e neste espírito de ir devagar e sempre, meditamos por cinco minutos no começo do dia. Não tem um espaço tranquilo ou mora com mais pessoas? Vale até meditar no banheiro antes de tomar banho. Sente em uma posição confortável, feche os olhos e mantenha o foco na respiração. Deixe os pensamentos virem e irem embora sem dar muita atenção a cada um deles. Perceba o ambiente, seu corpo, os sons externos, o barulho da sua respiração. Diferente do que se acredita, meditar não é sobre não pensar ou esvaziar completamente a cabeça (isso é, inclusive, biologicamente impossível), mas sobre aprender a deixar os pensamentos virem e irem embora, nos reconectando ao nosso eu interior e aumentando nossa atenção a cada tarefa e acontecimento. A paciência e a atenção plena são construções, e a meditação ajuda muito a continuar construindo. Acha que é demais pra você? Comece com a meditação de um instante. É como eu disse antes: é melhor andar devagar do que continuar parado.

E aí, animado para começar os rituais? Ficou com alguma dúvida? Comente abaixo ou me mande uma mensagem! 😀

Esqueça as resoluções de ano novo

O início do ano é um excelente período para falar sobre focos, rotinas e resoluções. Nesse primeiro mês nos sentimos renovados pelo sentimento de um novo início, e não a toa é neste período que as pessoas começam a – ao menos tentar – por em prática as “resoluções de ano novo”. Infelizmente, as pesquisas apontam que somente 9% das pessoas conseguem manter as resoluções e de fato mudar os hábitos. A sensação de não conseguir ou se sentir capaz de manter as mudanças gera frustrações que podem levar a hábitos e rotinas ainda piores. Quem aí já fez mil listinhas, e terminou o ano sem conseguir mudar nenhum dos itens? Quem nunca abandonou uma mudança no primeiro mês e voltou aos hábitos anteriores?

Ano passado resolvi fazer diferente. Esbarrei com um texto excelente do Zen Habits que trazia uma abordagem diferente às resoluções de final de ano e resolvi tentar. Ao invés de uma lista de coisinhas a serem alcançadas, o objetivo é desenvolver uma lista curta (até 6 itens) de focos para o ano que se inicia. Qual é a diferença entre um item na lista e um foco? Pra mim funcionou assim: se um item na lista seria “me alimentar melhor”, um foco que abrange isso e muito mais é “ser mais saudável”. Com uma ideia mais abrangente do que queremos alcançar, fica mais fácil destrinchar o foco em pequenos rituais, com o objetivo final de criar um hábito verdadeiro e duradouro, longe das “resoluções de ano novo” que morrem com o passar de Janeiro.

Para chegar aos focos, é preciso fazer uma análise rápida do ano que passou e uma mais profunda sobre o que queremos criar para o ano que se inicia. Não perca muito tempo se apegando ao passado, o mais importante do exercício é visualizar o que queremos alcançar a longo prazo, que tipo de vida queremos construir e que tipo de pessoa somos e queremos ser. Pode parecer difícil, mas fica mais fácil conforme construímos essa imagem mental: quem eu quero ser no final do ano? O que essa pessoa alcançou? Quais hábitos fazem parte da vida agora? A resposta vem fácil quando respiramos fundo e nos permitimos sonhar!

O importante é o caminho

Mudanças tomam tempo. Se você se alimenta mal a vida toda, não vai mudar da noite pro dia. Quando nos restringimos além da nossa capacidade no momento, a chance de jogar tudo pro alto é muito maior. Quando o foco realmente fala com o nosso coração e faz sentido para a vida que queremos ter, fica mais fácil destrinchar a ideia em objetivos mais fáceis e rituais simples, criando mudanças realmente duradouras. Sendo assim (e usando ainda o exemplo do “ser mais saudável”, uma das resoluções de ano novo mais comuns), você pode por exemplo adicionar um novo vegetal ou fruta a sua alimentação toda semana. É pequeno, mas tem um impacto muito grande na saúde, além de motivar outras mudanças. Coloque intenções positivas e felicidade na tarefa, e tire o peso da frustração: você adicionou este vegetal porque ele é bonito, é cheiroso, é gostoso, tem uma porção de benefícios para a saúde e por aí vai. Que tal adicionar 10 ou 20 minutos de exercício a sua rotina diária? Não se martirize, nem exagere: é melhor dar um passinho pequeno de cada vez do que continuar parado. Isso vale para qualquer foco!

Uma grande mudança começa com o primeiro passo

Quando somos muito apegados a nossa rotina e afazeres, qualquer mudança parece um desafio enorme, e é aí que mora a importância dos pequenos rituais e, mais do que isso, de investir em um foco de cada vez. Com o tempo, a rotina vai ficando mais natural, e aí podemos incluir novos rituais. É como diz o ditado: devagar e sempre.

O ano passado foi um dos mais incríveis da minha vida. Consegui mudar coisas que não imaginava ser capaz, e ao olhar a lista no final do ano, me senti orgulhosa de tudo que alcancei. O melhor de tudo? Poder repetir o mesmo no início deste ano, e me sentir mais confiante para alcançar mudanças ainda maiores, sem perder a certeza de que o importante é se manter firme, mesmo no que parece pequeno ou desimportante. Quando a procrastinação bater e der vontade de largar tudo, não esqueça: em essência, é só levantar e fazer. Você é mais forte que a preguiça e as adversidades!

Algumas perguntas para ajudar a definir os focos

Para ajudar a definir os focos, traduzo abaixo as perguntas do Leo Babauta, autor do Zen Habits, que me ajudaram muito a definir meus focos para o ano passado e para esse ano:

  • Como quero crescer? O que quero aprender? Quais habilidades e capacidades eu gostaria de desenvolver?
  • Quais áreas da minha vida precisam de uma sacudida? Saúde, relacionamentos, trabalho?
  • No que eu focaria, se eu só pudesse escolher de 4 a 6 coisas para o ano?
  • Se eu estivesse olhando para 2019 daqui a um ano, o que seria fantástico de ver? Quais mudanças me deixariam mais feliz por terem acontecido?

As perguntas, apesar de simples, revelam muito sobre quem somos e o que queremos construir para nós. Para vocês terem ideia, um dos meus focos do ano passado – o mais difícil – era “me mudar”. Aqui estou escrevendo este post no meu apê, a mudança mais forte e impactante do meu ano passado, uma coisa que parecia impossível em Janeiro. Um outro foco era “ser mais saudável”, e apesar de ainda não ter alcançado o patamar que gostaria, ao longo do ano passado passei a me alimentar muito melhor, caminhar muito e melhorar minha relação com a comida. O resultado foi muito mais fôlego, mais de 30kg a menos e preparo físico para encarar trajetos cada vez mais longos. Com um passinho de cada vez, chegamos longe! No próximo post vou falar um pouco mais sobre como faço para transformar focos em rituais, destrinchando cada um deles em metas possíveis, conforme aprendi com o Zen Habits.

E aí, quais são os seus focos para 2019? 🙂