Organizando o guarda roupas para uma vida mais feliz

Tudo começou no ano passado quando arrumei meu armário pela primeira vez em mais de ano. De início tirei um saco imenso de roupas para doação, mais outro com aproximadamente uns 15 pares de sapato. Tudo isso tinha sido comprado a muito tempo, muita coisa nem foi usada, e nenhuma das peças refletia minha personalidade, gostos e ideais atuais. Achei insano, quando arrumei a primeira vez, como nos apegamos a coisas que não cabem, não caem bem, enfim, peças que nunca veem a luz do sol. Pode ser uma roupa que servia e de repente ficou apertada. Pode ser que – como eu – você tenha emagrecido, mas acumule roupas do tempo em que tinha mais peso. As vezes o gosto mudou com o tempo porque crescemos, amadurecemos e nos conhecemos melhor. De qualquer forma, acumular no armário roupas que não são usadas é prática comum. Quem nunca lançou a velha frase “não tenho naaadaaa pra vestir” com um armário cheio de roupas?

A segunda arrumação foi próxima a mudança. Fui obrigada a avaliar tudo, afinal, estava indo para uma casa nova. Não queria trazer coisas que não fosse usar, uma vez que morar com alguém significa não ter mais o armário inteiro só pra mim e, para além disso, o desapego e a função da roupa tem sido questões para mim ao longo dos últimos anos. No final da segunda arrumação, mais um saco enorme de roupas foi embora, junto com mais alguns sapatos. Coisas que eu gostava mas não usava a anos, ou que comprei no impulso mas não tinham de fato a ver comigo. O mais impressionante pra mim foi que a maior parte da segunda leva de doações foi também composta por coisas compradas a muuuito tempo atrás, em sua maioria em brechós, bazares e mercados de pulgas. Já não é de hoje que me preocupo com a origem do que uso (quem produz, quais são as condições de trabalho, a qualidade dos tecidos e etc), e nessa de me preocupar, acabei dando preferência as roupas usadas: se a coisa já foi usada, me asseguro de que não estou contribuindo ativamente para um mercado que não concordo, nem financiando a exploração desumana de quem trabalha nas confecções da Índia, Indonésia e relacionados. Só que existe essa camada que ninguém diz: comprar muito em lojas/feiras de segunda mão ainda é comprar muito.

Com tudo, me mudei carregando dois sacos grandes de roupa (incluindo roupas de cama, toalhas e etc) e meio saco de sapatos. Ainda não era suficiente. Queria ter um guarda roupas funcional, que refletisse meus pensamentos e personalidade, que funcionasse de verdade e tornasse fácil a tarefa de sair de casa minimamente arrumada (se deixar, visto um saco e amarro na cintura HAHAHA). Depois da primeira e da segunda arrumações, a coisa tomou outra forma: agora olho uma peça sem dó, sem apegos emocionais, e consigo pensar racional e rapidamente se aquilo faz sentido e será de fato usado. Eu, a pessoa que tinha o armário abarrotado, sou agora possuidora de menos de 30 peças de roupa, e já me coçando pra mais uma arrumação em que muito disso vai entrar na roda e ser doado. Me sinto leve e feliz, porque olho agora e tudo faz sentido, todas as partes de cima combinam com todas as partes de baixo, os sapatos são confortáveis e funcionais e as peças refletem de fato a pessoa que eu sou: sempre pronta pra aventuras e passeios envolvendo longas caminhadas, faça chuva ou faça sol, sem perder o estilo.

Mas o que é “roupa funcional”?

Quando penso em roupa funcional, me vem uma ideia muito simples: é uma roupa que funciona acima de qualquer moda ou tendência, e que reflete a personalidade de quem usa. O que isso significa vai depender de cada um, mas em resumo, as peças funcionam entre elas, não cansam, são feitas para durar e casam com o estilo de vida de quem usa. Pra mim, isso significa botas de trekking, calças e saias confortáveis de cintura alta e crop tops. Para quem trabalha em empregos mais formais, pode ser calça ou saia social, camisa de botão e sapato fechado. Alguém realmente precisa de 20 calças e 40 blusas diferentes? Com certeza dá pra viver, ser estiloso e bonitão com muito menos do que isso!

E como eu monto um guarda roupa funcional?

Com paciência, consciência, foco e sangue frio! HAHA Gostei muito desse esquema de arrumar o armário três vezes, e vou compartilhar com vocês o porquê:

Primeira arrumação

Na primeira arrumação, foque em separar as peças que você nunca usa. Nessa fase ainda estamos apegados e tristonhos por nos desfazer delas, é normal, então é bom se desfazer do que realmente nunca usamos pra engrenar as outras duas fases. Se você não usa a roupa nunca, existe uma razão que talvez você não perceba. Pode ser que aquela peça lindíssima não caia bem, ou a roupa esteja apertada e esperando você emagrecer os últimos quilinhos, mas não faz sentido manter guardada. Pense que cada roupa a menos é um espaço a mais, que futuramente pode se transformar em uma peça que realmente faça sentido para você. Neste estágio, é importante não comprar roupas. Mais pra frente você entenderá o porquê. 🙂

Segunda arrumação

Dê um espaço de duas semanas a um mês entre uma arrumação e outra. É importante para acostumar nossa cabeça ao desapego e facilitar a segunda fase. Nesta etapa, faça uma avaliação fria sobre cada peça que sobrou: você usa muito de vez em quando? Ela combina com as outras roupas? Ela faz sentido para a pessoa que você é agora, ou foi uma compra feita a muito tempo? Você realmente se vê usando esta peça? Se ela só for usada muito de vez em quando, não for uma roupa que você realmente ama ou não fizer sentido com as outras peças, é hora de dar tchau. Para certas roupas pode ser doloroso (quase morri me desfazendo dos meus vestidos vintage hahaha), mas mantenha em mente o que eu disse antes: cada roupa a menos é um espaço a mais, para você dar vazão a pessoa que está construindo agora! Como o povo diz, quem vive de passado é museu. 😉

Terceira arrumação

Se você aguentou firme durante a segunda fase, tenho certeza que na terceira sua cabeça será outra! Uma coisa mágica acontece quando nos desfazemos do que não faz sentido: nossa mente vai também se desanuviando, e começamos a enxergar a arrumação com outros olhos. Ao invés do apego e do medo de se desfazer que temos no início, somos tomados por uma vontade muito grande de reduzir cada vez mais nosso armário, além de uma facilidade muito maior em enxergar o que faz ou não sentido. Na terceira arrumação, com o armário mais vazio, já somos capazes de olhar e perceber o que funciona, o que não funciona e o que pode funcionar. Gostei muito, nessa fase, de fazer o que chamei de Condicional: se a peça parecia fazer sentido, mas por alguma razão não era muito usada (ou nunca usada rs), a condição de permanência no armário era usar mais de duas vezes no mês posterior a arrumação. Não foi usada? Coloquei mais de uma vez, mas acabei não saindo com ela? Então tchau! Se você vê aquela peça que é linda e quer dar mais uma chance, coloque na condicional. Uma dica: se você não usou até agora, provavelmente ela não vai passar. hehe

Algumas perguntinhas que ajudam a avaliar as peças:

  • Esta peça combina com minha personalidade e ideais?
  • Sou apaixonadíssimo por esta peça de roupa, ou ela não me traz felicidade?
  • Qual foi a última vez que usei essa peça?
  • Se eu só pudesse ter minhas 20 peças favoritas, esta estaria na lista?
  • Esta peça funciona com as outras (cor, modelo, etc)?
  • Esta peça faz eu me sentir maravilhosa?

Menos roupas = mais alegria!

Organizar o armário pode ser muito difícil, especialmente se o nosso acúmulo é ligado a alguma questão emocional. Passei dificuldades financeiras quando era mais jovem, e vejo nisso uma das razões para a minha dificuldade em me desfazer de roupas e sapatos. Bate um aperto no peito, uma sensação estranha, como se eu nunca mais fosse ter condições de ter as coisas, ou um desastre financeiro fosse acontecer na minha vida amanhã e gerar arrependimento por ter me desfeito. Identificar a raiz do que nos estimula a consumir é essencial para mudar os hábitos, renovar as crenças e seguir em frente. Me sinto muito mais feliz ao abrir o armário agora e ver que ele casa perfeitamente com a pessoa que sou hoje do que me sentia a alguns meses atrás, antes desta grande arrumação. Ainda não cheguei no objetivo, mas me percebo a cada dia mais próxima. Além de todos os benefícios e praticidade, um armário mais vazio é mais fácil de arrumar e manter arrumado, o que ajuda muito. Dê uma chance a renovação: comece hoje mesmo a construir sem guarda roupa funcional. A felicidade é garantida!

Uma recomendação para terminar

A algum tempo comecei a ler sobre o método da fofíssima Marie Kondo, mas na época estava enroladíssima e não consegui me aprofundar. Comecei hoje a assistir a série original do Netflix Tidying up with Marie Kondo e estou amando: a cada episódio ela ajuda uma família a reorganizar a casa, desentulhar o espaço e organizar a bagunça. É pra chorar, pra rir, pra se identificar e aprender mais sobre este método tão falado de organização. Não deixem de assistir! 😀