Dois meses sem shampoo

Há tempos vinha buscando uma forma de lidar com meu cabelo que não envolvesse shampoo, condicionador e relacionados. Testei o bicarbonato + vinagre, “”shampoo”” de semente de abacate, juá e mais algumas coisas, até desistir e voltar a usar. O bicarbonato – solução mais difundida na internet – é na realidade perigoso, podendo causar lesões a pele que demoram meses e até anos para secar. O shampoo de abacate foi bom no início, mas o cabelo foi ficando mais e mais estranho. Juá é bom, mas meu couro cabeludo é sensível e logo começou a descamar. Li uma porção de coisas sobre usar somente água, mas de início não acreditei que pudesse funcionar pra mim. Mesmo sabendo que o cabelo se acostuma, acreditava que a oleosidade fosse dificultar a adaptação, e como não sou muito paciente, deixei de lado.

Até o final do ano passado, quando raspei a cabeça. Estava eu com um monte de cabelos miudinhos, totalmente sem química e nunca lavados com shampoo. Minha relação com aparência mudou muito ao longo do último ano, e um desapego muito grande foi tomando conta. Parar de usar shampoo não foi difícil aquela altura porque, para além de qualquer questão estética, não tinha mesmo muito cabelo para ser lavado. Porque não dar uma chance? Comecei a deixar a água correr enquanto tomava banho, massagear bastante o couro cabeludo e passar vinagre e óleo de coco de vez em nunca.

Estou aqui, dois meses depois, cabelo ainda úmido do banho, e digo pra vocês: vale a pena. Além da economia enorme e dos resíduos que não produzo mais, meu couro cabeludo nunca foi tão saudável. Costumava ter alergias, caspa eventual e coceiras esquisitas, e agora tenho somente uma cabeça cheia de cabelo forte, brilhante e saudável. A oleosidade realmente aumentou no início, mas umas duas semanas depois tudo estava sob controle.

Mas o cabelo não fica fedendo?

Esse era um dos meus medos no início, e uma das perguntas que mais ouço. Passei o primeiro mês inteiro perguntando pro meu noivo todos os dias se o cheiro era ruim e, segundo ele, é “cheiro de cabelo”. Não consigo sentir porque ele ainda está curtinho, mas até agora ninguém me falou que eu estava fedendo. hehe

Se cheirar bem (e existe muito de construção social nesse “cheirar bem”, né?) é importante pra você, dá pra usar óleos essenciais misturados no óleo de coco, e passar no cabelo depois de lavar (bem pouquinho pra não pesar). Como a essa altura não ligo pra isso, uso só o óleo de coco de vez em quando (e fico cheirando a cocada haha).

Mas os cosméticos não são importantes pra saúde do cabelo?

A resposta real? Não, não são. A ideia de saúde capilar relacionada a cosméticos é muito recente na história (os cosméticos como conhecemos hoje começaram a surgir somente nos anos 20), e até então a galera lavava o cabelo com sabão. Em certas tribos, somente água, água de arroz ou óleos naturais são utilizados. O cabelo de todo mundo é enorme e forte, logo, saúde não tem relação com cosméticos.

A ideia mais difundida nos últimos anos, da necessidade de nutrição, hidratação, umectação e o que mais inventarem, é somente uma invenção da indústria para vender mais produtos. Seu cabelo não vai ficar fraco, cair ou piorar se você parar de usar cosméticos. Na realidade, a chance do cabelo ficar mais forte com o tempo é muito maior: nosso corpo é esperto e sabe o que faz. Anos e mais anos de evolução me parecem mais eficientes e comprovados do que qualquer groselha da indústria cosmética.  Então não, você não precisa de nada disso. Querer e precisar são coisas diferentes – e não tem nada de errado em querer usar as coisas. Cada um sabe como cuida de si, né? 😉

Mas não vai acumular sujeira até você ficar careca?

Por mais absurda que pareça a pergunta, já vi ideias desse tipo por aí! haha

Já conheci mulheres que colocavam camadas e mais camadas de cosméticos nos cabelos, ao longo de vários dias sem lavar. Óleos, cremes, mais óleos, mais cremes. Se elas não ficavam carecas, eu definitivamente não vou ficar. Molho o cabelo e massageio o couro cabeludo quase toda vez que tomo banho. Agora que o calor está passando e o cabelo está crescendo, estou começando a molhar dia sim, dia não. Como não existe nenhum resíduo de produto no cabelo e a massagem é feliz e vigorosa, acumulo menos sujeira no cabelo agora do que quando usava creme de pentear, por exemplo.

Mas isso é nojento, Dandara.

Não, não é. E de todos os argumentos, esse é o que mais me dói, pela desinformação. Não é nojento e não é descuido e não, eu não estou “relaxando”. Mesmo que estivesse, ninguém tem nada a ver com isso, maaaas, vamos falar sobre a essência dessa linha de pensamento: a indústria e a mídia nos convenceram muito fundo da necessidade de uma porção de produtos e serviços que na realidade nós não precisamos e passaríamos muito bem sem. Isso inclui absolutamente todos os cosméticos. Ninguém precisa usar maquiagem. Ninguém precisa usar shampoo. Você não é feia ou porca ou relaxada ou qualquer desses adjetivos se resolver não fazer essas coisas. Mas pense comigo: uma pessoa que acredita nessas coisas continua consumindo, comprando, gastando, investindo em ficar mais bonita. E que beleza é essa que vem num frasco de shampoo ou num tubo de batom? Se ela não vier de um lugar de consciência plena do funcionamento da indústria e escolha consciente de uso, então não é beleza. É cosmética. É aparência e só, e aparência e beleza são coisas muito diferentes.

Mais do que qualquer outra coisa, parar de usar shampoo e falar sobre isso me fez perceber o quanto as pessoas ainda estão ligadas nesses ideais, nessas falsas certezas plantadas pela indústria ao longo do tempo, e o quanto ainda precisamos conversar e trabalhar para ir desfazendo esses mitos. É excelente poder falar sobre isso e praticar o que prego!

Enfim, recomendo muito a experiência, não somente de abandonar a coisa em si, mas pesquisar, entender, compreender como a pele e o cabelo realmente funcionam e do que eles precisam. É libertador! Que tal experimentar? Qualquer dúvida, é só dar um grito que eu ajudo! 😀

 

Vida sem shampoo – Parte I

Tinha resolvido que só falaria sobre isso após um mês sem shampoo, mas ainda falta uma semana e dois dias e eu não me aguento. hehe Deixei a ansiedade falar mais alto e aqui estou a escrever sobre essa experiência incrível e gratificante. São atualmente quase três semanas sem shampoo e meu cabelo continua respondendo bem. Sei que não é assim pra todo mundo, e por isso resolvi fazer esse post.

Muito se fala sobre técnicas alternativas de cuidados com os cabelos. A mais famosa, No Poo, consiste em não utilizar shampoos com sulfatos e outros químicos pesados proibidos. Existem diferentes variações da técnica, que vão desde fazer o co-wash – uma higienização com condicionador – até outras mais “radicais” (radical pra mim hoje em dia é colocar um monte de química esquisita no cabelo, mas falta palavra melhor hehe), como utilizar bicarbonato de sódio na lavagem e vinagre pra condicionar, ou utilizar apenas água no cabelo. A última pode parecer estranha mas, acredite, o cabelo se adapta. Eu escolhi não utilizar nenhuma dessas técnicas, e explico abaixo porquê.

Substituindo uma ditadura por outra

Do meu ponto de vista, o que se vê como No Poo no Brasil não faz sentido. Mesmo sem os químicos nocivos dos produtos tradicionais, os produtos liberados pra No Poo contém químicos de nome estranho, são produzidos industrialmente e causam sabe-se Deus quanto impacto na natureza e nos animais. Existem sim marcas conscientes, que produzem em pequena escala e são super engajadas, mas essas marcas custam uma fortuna e nem todo mundo tem acesso. Eu, por exemplo, não tenho. Indo um pouco além, sempre me questiono o seguinte: se uma grande corporação cria uma linha liberada pra essas técnicas, mas não tira do mercado os produtos tradicionais cheios de químicos nocivos, qual é o sentido? Pra mim, abolir esses produtos vai muito além da minha saúde e bem estar: tem relação com a sustentabilidade e a saúde do planeta. Tem a ver com o fato de que as indústrias não praticam a logística reversa e todos os anos uma infinidade de embalagens – de produtos liberados para a técnica ou não – vai pro meio ambiente.

Acho os grupos de No Poo e Low Poo do facebook maravilhosos. São um espaço de aceitação, amor e tretas. Muitas tretas. Quem pode fazer, quem não pode fazer, quem vale mais e quem não vale. Vira e mexe rola racismo, uns comentários escrotos, uma falta de tato e de noção que eu não compreendo. Não dou pitaco em nada, mas fico observando as discussões que vão de nada a coisa alguma. Não usar shampoo é um ato político sim, mas não somente quando falamos de cacheados e crespos. Mas se pegamos uma ideia bacana e ao invés de usar essa ideia pra promover o consumo consciente continuamos investindo no consumo desenfreado – e deixando as marcas usarem isso como marketing, lançando novos produtos todos os dias – a coisa toda perde o sentido. Vamos de uma ditadura (a dos lisos, das progressivas, dos produtos mil) a outra (que também visa o consumo, no final das contas, com mil cremes de pentear, nutrição, hidratação, reconstrução e o que mais nos enfiarem goela abaixo). Pensando nisso tudo, me coloquei a pesquisar e tentar encontrar outras soluções.

O que meus ancestrais faziam?

O nome No Poo é americano e patenteado. Rendeu (e rende) uma pequena fortuna pra sua criadora. Bem antes disso, a técnica já existia, sem nome, permeando a história. Basta pensarmos: sempre existiu shampoo? A resposta é simples, um sonoro “não!”. Ainda assim, as mulheres já cuidavam de seus cabelos, e ninguém andava com o cabelo sujo por aí. Em uma pesquisa rápida descobrimos que a indústria cosmética como conhecemos hoje é bastante recente, especialmente se comparada com o tempo que o ser humano transita na terra. Antes da existência do shampoo – e na realidade até hoje, em certas tribos e comunidades – outros produtos eram utilizados para higienizar e tratar os fios. Plantas, óleos, sementes, água. As possibilidades são quase infinitas. Cada lugar do mundo desenvolveu sua própria forma de lidar com a higiene e os cuidados pessoais. Algumas técnicas podem soar radicais ou esquisitas, mas disse e repito: radical pra mim hoje em dia é entupir meus poros com ingredientes que não sei pronunciar o nome.

Mais do que criar shampoos, cremes e relacionados, a Indústria fez um trabalho muito forte de desmantelamento e descrédito das técnicas ancestrais. Basta jogar “mel no cabelo” no google e somos levados ao site da Pantene, em que “Doutores” nos dizem que não é seguro utilizar substâncias naturais no cabelo, e que devemos investir em produtos desenvolvidos por eles em laboratórios. Esse tipo de técnica foi utilizada ao longo do tempo para mudar a percepção das pessoas. Não falo de grandes teorias conspiratórias, mas de pura propaganda. Existe uma tribo na China em que as mulheres cortam os cabelos apenas uma vez ao longo da vida. Os fios são fortes, grossos, vão quase até o pé. O que elas usam? Água e água de arroz (sim, aquela água branca da lavagem dos grãos, que é possível você conseguir em casa). Na África, existe uma tribo que trança os cabelos – enormes – de formas incríveis. O que eles usam? Água e outras coisas naturais e acessíveis do entorno. Esses exemplos podem ser vistos em diferentes continentes, diferentes culturas, ao longo do tempo e até os dias de hoje. Cabelos fortes, longos e lindos, sejam eles lisos, cacheados, crespos ou ondulados. Como eu disse antes, a Indústria cosmética é muito recente, mas foi muito eficaz em desacreditar esses costumes.

Mais do que militância, um caminho econômico

Resolvi então fazer o caminho inverso. Um retorno as minhas raízes e ao que as mulheres antes de mim faziam. Mais do que isso, um caminho de experimentação do que muitas pessoas fora da sociedade de consumo ainda fazem até os dias de hoje. Para desespero dos “Doutores” da Indústria, estou me dando muito bem. Nas últimas três semanas meu cabelo cresceu mais do que costumeiramente crescia, está mais forte e volumoso, minha pele está se adaptando as mudanças e meus gastos foram irrisórios.

Como comecei praticamente do zero, estipulei um orçamento de R$ 100,00. Com esse dinheiro, comprei material suficiente para passar os próximos 6 meses sem comprar pasta de dente, shampoo, condicionador e mais qualquer outra coisa que eu normalmente compraria. Mesmo pra quem não tem esse dinheiro pra investir e quer começar, existem possibilidades menos radicais ou produtos fracionados. Por exemplo, 100g de juá são suficientes pra escovar os dentes por uns 6 meses (mais, quiçá) e custam uma média de R$ 6,00. Isso significa gastar R$1,00 por mês. A pasta mais barata do supermercado custa em média R$ 2,00 e dura umas duas semanas. Em um ano, você deixa de jogar 24 tubos vazios no lixo e economiza R$ 36,00. Parece pouco? Escovando os dentes pelos próximos 20 anos, são 480 tubos a menos na natureza. Multiplique isso pela parcela da população que tem acesso a pasta de dente e o resultado é apavorante, assim como com o descarte das embalagens de cosméticos no geral.

Vou parando por aqui pois o texto já está gigantesco. Ainda falta muito pra falar, mas essa foi somente uma introdução. Nos próximos posts, falarei um pouco mais sobre as tribos fantásticas que citei e seus costumes, além de explicar passo a passo a rotina que desenvolvi pra cuidar dos meus cabelos. Espero que vocês gostem e se inspirem! Não esqueçam de seguir o blog e ficar de olho nas atualizações. 🙂

Batom de argila – Receita

Sou apaixonada por batons desde que me entendo por gente. Pegava os vermelhos da minha avó e me sentia uma diva. Deve ter a ver com minha paixão por filmes antigos e pela estética dos anos 40 e 50, não sei, só sei que com o passar do tempo minha coleção de batons só fez aumentar. Acho que devo ser uma das poucas pessoas que conheço que já conseguiu acabar com um tubo de batom, inclusive.

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Há algum tempo atrás, li em algum lugar que mulheres que usam batom comem mais de 1kg do produto ao longo da vida. Não sei se isso é verdade, mas faz muito sentido, uma vez que comer e beber coisas estando de batom significa ingerir pequenas quantidades com o passar do tempo. Fiquei imaginando se existiria algum impacto a longo prazo no consumo de batom. Ainda não encontrei fontes sérias falando sobre isso, mas prefiro não arriscar! haha Nessa vibe das substituições, comecei a procurar uma receita mais natural, que não causasse impacto no meu corpo e na natureza. Depois de algumas tentativas falhas envolvendo beterraba (mais sobre isso em outro post. Foi muito fail hahaha), encontrei a mistura perfeita: óleos e ceras cheios de felicidade misturados com argila! \o/

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A receita original eu vi no Humblebee & Me, um blog maravilhoso sobre cosméticos feitos em casa, mas fiz algumas substituições. O batom dela fica um vermelho bem vivo e maravilhoso, porque é feito com uma argila australiana super escura e pigmentada. Usando o que tinha em mãos, fiz minha versão. Com a argila vermelha daqui, o resultado foi um cor de boca maravilhoso, meio amarronzado mas com um toque malva. Achei lindo, estou apaixonada, quero casar com ele e viver junto pra sempre. hahahaha

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Eis a receita:

Ingredientes

  • 1 colher de chá rasa de manteiga de karité
  • 1 colher de chá rasa de cera de abelha (pode substituir por outra se for vegano, como a de candelila)
  • 1 colher de chá rasa de óleo de coco
  • 1 colher de chá rasa de mel (coloquei pelas propriedades e pelo cheiro, mas também pode ser retirado)
  • 3 gotinhas de óleo essencial de hortelã (coloquei esse porque gosto de coisas mentoladas na minha boca, mas pode substituir ou retirar da receita)
  • 2 colheres de chá de argila vermelha

Modo de fazer

  • Coloque a manteiga de karité, a cera de abelha e o óleo de coco em um potinho de vidro e derreta em banho maria. É importante que os óleos e cera se misturem com o mel, pra não ficar uma gororoba no final – aconteceu comigo na tentativa anterior, quando misturei o mel depois. hehe
  • Acrescente o óleo essencial e a argila e misture bem. Quando eu digo bem, é bem. Vá misturando com paciência e amor até a argila estar totalmente incorporada a mistura, senão seu batom ficará cheio de pedacinhos e você pode se arranhar – aconteceu comigo na tentativa anterior, não contem pra ninguém. hahahaha
  • Coloque a mistura em um tubo de hidratante labial (eu reutilizei um da Nivea que já tinha acabado, mas você encontra em lojas de embalagens e essências) ou numa latinha pequena. Se colocar na latinha, você pode aplicar com o dedo ou com pincel.

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Como o óleo de coco derrete fácil com o calor, o batom desliza tranquilo quando entra em contato com a pele. A cera e a manteiga, que são mais durinhas, impedem que o tubinho derreta e torne sua vida um caos. 😉

Além de ser uma opção mais barata e mais saudável aos industrializados, esse batom tem uma porção de propriedades maravilhosas, é hidratante e trata os lábios com o uso contínuo. O custo de cada tubinho fica muito baixo, e a matéria prima pode ser utilizada em uma porção de receitas diferentes.

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Espero que vocês gostem e testem, vale muito a pena! <3