Vai ficar tudo bem ♥

Com a correria insana que a vida foi virando nas últimas semanas, não consegui parar pra escrever aqui. Daí hoje tive um pequeno contratempo, e achei que era o momento perfeito pra passar essa mensagem: vai ficar tudo bem. Quase um mantra que fico repetindo mentalmente, e que sei que muita gente ao meu redor precisa repetir também. Vai ficar tudo bem. Entrei na minha conta bancária de manhã e descobri que tinha 20 reais pra passar até o início do outro mês. Vai ficar tudo bem. Me descabelei por alguns minutos, fiquei com uma angústia, a sensação de que estava tudo sendo em vão, e que de repente eu era de novo a pessoa aflita com mais mês que dinheiro..rs..Daí eu parei, respirei fundo e tentei organizar mentalmente tudo o que esse ano tem sido. Focando nas coisas boas percebi que a gente se aperta, mas as coisas acontecem. Eu não sou aquela pessoa, porque tenho construído tanto que ela não cabe.

Fui convidada pra participar com A Cadernista do Salão internacional do livro do Rio de Janeiro e isso foi muito lindo e muito marcante pra mim. Estava com vontade de vender o material todo e matar esse projeto, mesmo com todo o amor que tenho por ele. Foi ficando difícil e distante com tudo que aconteceu, e esse convite – feito um dia depois da ideia de me desfazer de tudo – veio como um sinal pra continuar. Já recebi esse sinal antes sobre os cadernos, e resolvi dar ouvidos dessa vez! Estarei lá vendendo cadernetinhas e darei uma oficina de zines e encadernação. Muito amor, e muita gratidão a Jô Ramos, que lembrou de mim e me convidou. 😀

Fiz uma parceria linda com a Raquel Cukierman e troquei material gráfico por uma bolsa no curso Performar Sapa-bi, que vai ser super incrível! Estava já há algum tempo querendo participar de um curso do tipo. Performance é uma coisa que me atrai muito, e tenho sentido um chamado pra expor o que escrevo nesse formato. Além de tudo, são questões que falam muito comigo, de sexualidade, dos caminhos, então só posso sentir uma gratidão enorme por ela ter entrado na minha vida!

Comecei quinta passada um curso no Helio Oiticica que tem absolutamente tudo a ver comigo. Fala de arte e espiritualidade, com foco na caminhada como prática estética. Me inscrevi e coloquei meu coração no formulário. Fui selecionada e nem acreditei, especialmente quando descobri que pessoas ficaram de fora. Uma tristeza não ter vaga pra todo mundo, mas me senti privilegiada e feliz. Espero que todo mundo tenha oportunidade de participar no futuro!

Eu e Carol (minha amiga e cunhada linda, pra quem não sabe), começamos um empreendimento de quitutes veganos. Primeiro ovos e bombons pra páscoa, e depois vamos nos aventurar pelos salgados, hambúrgueres e coisas do tipo. Trabalhar com comida é um sonho muito antigo e que nunca nem tentei tirar da gaveta. Estou explodindo de felicidade, especialmente porque a Carol é muito tranquila, motivada e cheia de ideias, então a gente combina e tudo flui! Quase choro quando falo disso, porque a Inclusiveg é realmente um sonho se tornando realidade!

Esse mês eu fui ao cinema, ao teatro, exposições, feira de arte impressa e uma porção de coisas bonitas. Conheci lugares novos, voltei a outros que não ia faz tempo, reencontrei pessoas queridas e circulei pela cidade. Do início do ano pra cá estou gradativamente voltando a me locomover a pé, como eu fazia antes da depressão consumir meu corpo. Eu emagreci uma porção de quilos e minhas roupas cabem em mim de novo, algumas até bem folgadas. Não fico feliz pela perda de peso em si – quem me conhece sabe que não ligo – mas é diferente quando começa a afetar suas tarefas diárias, coisas que você ama fazer. É diferente quando o ganho de peso é resultado de um processo ruim, sabem? E então fico feliz pelas mudanças e pelas conquistas e pelas caminhadas e por todas as coisas boas.

E só de escrever isso tudo, já sinto a vida melhor. Vai ficar tudo bem porque estou bem. Vai ficar tudo bem porque hoje consigo me desesperar mas logo em seguida colocar o que é bom no topo. Os contratempos vem e vão, as coisas boas vem e vão, mas se a gente permanece com a raiz fincada no chão faça sol ou faça chuva, prosperamos e damos frutos. Quando o foco é no bem e no que é bom, o resto vai só ficando pra trás.

Se você está passando por um momento angustiante ou desesperador, respira fundo e repete, fala em voz alta, grite até: vai ficar tudo bem. É só um momento, e os momentos passam. Existe tanta coisa bonita pra acontecer, tanta. Se a seis meses atrás alguém me falasse que essa seria a minha vida agora, eu não acreditaria. Os processos se desenrolam muito rapidamente se dermos chance. Então levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima e vamos a luta, porque o tempo é curto e o sonho é grande! <3

Deixa pra lá

Em alguns dias você vai acordar se sentindo a pessoa mais maravilhosa da face da terra. Em outros, um lixo completo. Haverão dias cheios de alegria e acontecimentos. Alguns deles vão ficar guardados com carinho na memória, mas quando você parar pra relembrar a vida, vai perceber que os pequenos momentos são os mais marcantes. Uma conversa no quarto no meio da semana. A forma como o sol ilumina um determinado ponto da cidade e te faz lembrar da infância. A árvore do lado de fora da janela. De vez em quando você vai se sentir no fundo do poço. Talvez nem esteja, mas é importante respeitar a sensação. Nem tudo são flores na vida. Tentar evitar a tristeza e o desconforto jogando pro fundo da mente só faz eles se tornarem mais fortes.

Você vai esquecer alguns anos inteiros. Outros vão parecer sempre frescos no tecido da memória. Certos anos são pinturas, certos anos são rabiscos. Por vezes os rabiscos valem mais do que as imagens mais realistas. Você vai perder pessoas, e vai conhecer outras tantas pelo caminho. Nenhuma delas nunca vai preencher o espaço das que se foram. Você vai conhecer a morte e a vida. O princípio e o fim de todas as coisas. O cheiro do hálito de um recém nascido e o cheiro dos corpos em decomposição num cemitério. Com sorte, vai ver mais nascimentos do que mortes. Eu espero que chegue o dia em que você vai compreender que os dois tem a sua devida importância. Sem o que é ruim, não alcançamos a dimensão grandiosa do que é bom.

Existem pessoas que vem pra ficar. Outras vem pra ir embora. Uma sala vazia. O vazio de quem parte e a gente fica ali no canto tentando entender o que deu errado. Amigos, amores. Então em algum momento compramos um sofá. Um quadro, um tapete, uma luminária, uma mesa de centro. Antes que a gente perceba o ambiente já está redecorado e pronto pra receber outra pessoa. Certas pessoas vão deixar a cadeira vazia e ninguém nunca mais vai sentar ali. A presença permanece, mesmo quando não física. O vento de uma determinada forma, uma expressão, um papel com a letra escrita. Recortes e lembranças na colcha de retalhos que é a vida. Mas sempre tem espaço, sempre. Sempre cabe mais um na casa e no coração. Não feche a porta, ainda. Você não sabe quem vem virando a esquina.

Certos momentos parecem tão errados que é difícil seguir em frente. Aí a gente um dia olha pra trás e vê que nada foi tão ruim assim. Algumas coisas são, mas não são a maioria. Cabe a cada um encaixar as peças e continuar vivendo. Hoje vim pra casa pensando em deixar de existir. Uma tristeza muito grande veio junto com o tempo nublado. Não sei bem porque. Não busquei explicação. Deixei ela vir e passar. Chorei e senti e então me peguei ouvindo um monte de músicas que me fazem feliz. Conversei com Diogo, conversei com João. Jantei na copa de casa com a família na mesa. E de repente eu estava feliz de novo. A melancolia inerente ao tempo chuvoso permanece, mas é branda, quase uma lembrança. Eu provavelmente não vou lembrar do dia de hoje daqui a um ano. Mas como é bom me sentir presente nele agora, cercada por todo o amor que tenho e mereço.

E toda vez que bater isso tudo, volto pra ouvir de novo essa canção, e pra reaprender quantas vezes for preciso que o segredo de tudo é deixar pra lá: