Ninguém devia ser elogiado por emagrecer

Entre o ano passado e esse alguma coisa aconteceu comigo. Na realidade, entre o ano retrasado e esse. Basicamente, eu mudei muito minha alimentação (prioritariamente pra melhor, mas ainda dou meus vacilos de ficar muitas horas sem comer. Eu esqueço. Mesmo.) e comecei a andar feito uma louca – coisa que eu amo e fazia antes, mas tinha deixado de lado no void-das-coisas-que-a-gente-perde-o-ânimo-porque-trabalhar-fora-é-esgotante. Daí eu fui andando e andando e andando e comendo melhor e comecei a emagrecer. Eu não queria emagrecer. Eu não fazia nenhuma questão. De repente eu tinha emagrecido o suficiente pra ficar com o menor peso que tenho em mais de uma década. Que eu não queria e não fazia questão, guardem essa informação.

Antes que eu pudesse perceber – e imediatamente ao sair do que é considerado gordo e feio e chegar ao que é considerado gordo e socialmente aceitável – os elogios começaram. Era um tal de “nossa, você emagreceu muito, parabéns!” efusivo, uns “você tá mais bonita, emagreceu” e as variações disso. Uma porção de parabéns. Uma porção de olhares felizes de conhecidas me perguntando o que eu tinha feito. Todo mundo espera uma dieta milagrosa ou uma resposta. Eu nunca tenho resposta. Só agradeço se for alguma das vózinhas do meu convívio ou pessoas mais velhas, porque sei que seria desgastante explicar porque é tão problemático elogiar alguém por ter emagrecido.

Vivemos em uma sociedade focada na aparência, todo mundo sabe disso. Não vou falar sobre os problemas todos da indústria da beleza e da dieta nesse texto (em um outro, talvez, porque amo falar sobre isso hahaha), mas pegar nessa questão do elogio. Essa coisa que diz pra gente e pras pessoas que emagrecer é excelente e engordar é a morte. Essa coisa que faz meninas pararem de comer, vomitarem o que comem, perderem cabelo, ficarem com as unhas destruídas (eu, inclusive, lá pros meus 15 anos). Essa coisa que gera esforços e medos e angústias e dietas mirabolantes e soluções mágicas pro que não necessariamente é um problema.

Com meus 135kg de antes, eu me sentia bem, até não me sentir mais. Não por nenhuma questão estética, mas basicamente porque tinha virado uma pessoa muito sedentária que não aguentava andar 5 minutos sem morrer. Eu não subia um lance de escada. Eu parava no meio de todas as ladeiras. Isso foi me incomodando porque eu era acostumada a ser ativa e feliz, independentemente do meu peso. Era isso o que eu queria mudar. Ter preparo, me sentir fisicamente bem pra fazer o que eu gostava, ver meu organismo funcionando melhor. O peso foi uma consequência, e o peso sempre deveria ser consequência. Existe gente com pesos mais altos super saudável e ativa. Existe gente magra que é sedentária e come mal. Relacionar saúde com peso é um erro terrível e que não condiz com a realidade. Além de qualquer questão desse tipo – e nem vou entrar nelas porque por mais que saiam pesquisas e por mais que a realidade confirme, eu precisaria de um textão bem maior pra tentar convencer alguém.

O ponto é outro:

Quando você elogia alguém por emagrecer, está basicamente dizendo pra pessoa “você é uma bosta, que bom que está tentando se adequar a sociedade e deixar de ser gorda!”. Não é legal. Porque elogiar o emagrecimento faz automaticamente o peso parecer ruim, errado, algo a se envergonhar e perder. Se você elogia e recompensa quando alguém emagrece, está dizendo a uma categoria inteira de pessoas que elas não são o suficiente. Que existir e ser feliz como se é não é o suficiente. Eu não me sinto feliz com os elogios. Minha primeira reação é pensar “poxa vida, então essa pessoa me achava gorda e horrível e socialmente inaceitável”, e logo em seguida não saber como responder. Não é bom. Não vem como um elogio se você entende o quanto é pesado transitar pela sociedade sendo gordo. Fico pensando que não passo mais por situações estranhas e constrangedoras nas lojas, mas uma porrada de mulheres continua passando, e então o elogio é também uma surra em todas elas. É uma porrada que diz:

A sociedade não vai se adaptar a você. A gente não vai vender roupa pra você. A gente não quer você nesse espaço. A culpa não é nossa se você é gorda e essas roupas não te servem, vai emagrecer.

E se fosse o contrário? E se ninguém elogiasse ou criticasse ninguém por conta do peso? E se as lojas vendessem pra todo mundo e todo mundo se sentisse lindo, amado, gostosão e muito foda? Porque é esse mundo que eu quero ver. Não um mundo em que alguém me elogia efusivamente porque eu emagreci. Eu sou gorda. Não tenho problema nenhum em ser gorda. Peso menos de 100 quilos, já pesei mais de 130 e em nenhuma dessas configurações o problema era eu. Oi pessoa gorda, o problema não é você. Se é pra elogiar, elogiem meus textos, minhas músicas, minhas ideais. Comentários sobre o meu corpo eu dispenso.

No final, ninguém tem NADA a ver com isso.

Por mais elogios sem “mas”

Tenho reparado um costume das pessoas, que na realidade não é contemporâneo, mas tem me parecido mais latente: a mania de fazer elogios com um “mas” no final. O “mas” por vezes vem implícito, mas ainda assim está lá. E é chato, sabem? Tem vezes que esse complemento ao elogio soa como uma porrada na boca do estômago.

Evito a muito tempo fazer isso. Quando elogio, o faço de coração e sem aproveitar o momento pra apontar algum defeito da pessoa, especialmente porque defeitos são – na maioria das vezes – questão de ponto de vista. Quando foi a última vez que você elogiou alguém sinceramente? Você já se percebeu usando um elogio pra mascarar uma crítica?

Um dos comentários mais comuns nesse sentido se direciona a nós gordas. Passei por isso apenas uma vez na minha vida: a pessoa vira e fala algo como “você tem um rosto lindo, mas…”. Esse “mas” é seguido de “precisa emagrecer”, “só precisava fechar a boca”, “ia ficar mais linda ainda se perdesse uns quilinhos”. Isso não é um elogio. Isso é pegar um padrão e massacrar alguém usando ele. Passei por isso – como em todas as situações de gordofobia – com uma mulher. Me reconheço como uma gorda dentro do padrão e sei que por isso não sofro preconceito: tenho a cintura fina, os seios pequenos e sou bem alta. Imagina quantas vezes na vida uma menina gorda fora desse padrão ouve isso?

Para além das questões de corpo, existem um tipo de “mas” que sempre me incomoda: o “mas” utilizado para reforçar um comportamento que a pessoa algum dia teve. Pouco importa se a pessoa mudou ou se esforça para mudar ou reconhecer o padrão que a levava a fazer aquilo. Pouco importa, na realidade, se o padrão de fato existiu ou foi fruto de outras questões. Quando esse porém vem, é sempre devastador. Pode ser a mãe que insiste em reforçar padrões que o filho teve ao longo de algum período da vida. Pode ser a amiga reforçando algo que batalhamos pra deixar de lado. Pode ser um(a) namorado(a), marido ou esposa que bate constantemente na mesma tecla. Costumeiramente, os poréns vem das pessoas mais próximas e são, por isso, ainda mais devastadores. O pior de tudo? Essas maldades podem até ter no fundo o desejo de nos ajudar, mas o efeito é justamente o oposto. Quando ouvimos fazer algo que acreditamos ter deixado de lado na vida, nos vemos de volta no loop que causava aquilo. É uma espécie de trigger (um gatilho), especialmente pra quem sofre com problemas como depressão e ansiedade. Em resumo, além de não ajudar ainda atrapalha.

Por isso peço a quem ler esse texto: tenha um pouco mais de empatia, mesmo que seu objetivo seja ajudar. Você pode estar fazendo alguém dar passos pra trás, mesmo com o esforço para andar pra frente. De verdade (e de preferência), não faça isso com ninguém, mesmo que você ache que a pessoa está em um estado mental bom. Não sabemos o que se passa na cabeça dos outros e, caso seja um padrão realmente prejudicial, o melhor a fazer é insistir para que a pessoa procure ajuda médica. Quer ajudar? Ajude a buscar ajuda.

Hoje é o penúltimo dia de Setembro, mas acho o tema pertinente ao Setembro Amarelo. Nós nunca sabemos até onde vai nossa influência e impacto na vida das pessoas. Não seja uma das razões. Vira e mexe no comentário mais inocente mora a reação mais perigosa. Vai elogiar? Elogie sem “mas”. A vida já é difícil o suficiente sem alguém apontando constantemente nossos erros.