Por uma empatia mais realista

Empatia, uma coisa tão falada e tão pouco entendida pela maioria das pessoas. Cooptada pelo capitalismo, a empatia perdeu completamente qualquer sentido ou noção. O que é empatia pra você? Segundo a noção contemporânea, empatia é sair de si e se colocar no lugar do outro. É ouvir com atenção e sem julgamento, sem comparação, sem buscar na cabeça uma situação comparável, já que isso é simpatia e a simpatia é algo ruim.

Já caí nessa falácia. Ouvi absurdos enquanto me colocava no lugar do outro. Fui fundo nessa de abrir mão da minha própria racionalidade e ouvir sem julgar gente incapaz de ouvir os outros ou de pensar além do próprio umbigo. Gente que posta seus sofrimentos e só quer saber do sofrimento alheio para se sentir melhor, naquela base do “poderia ser pior, olha o que fulana passa”. Eu juntei forças nem sei de onde e ignorei a alienação gritante de patricinhas, playboys, narcissistas e sociopatas, tentando ser uma pessoa empática e atenciosa. Fico feliz por ter percebido a verdade: empatia sem realidade só serve para perpetuar o egocentrismo e o individualismo da sociedade contemporânea.

Ouvir sem julgamento é, além de impossível, inútil. Ninguém ganha nada quando sofrimentos vazios e inventados são validados, pelo contrário, perdemos todos. A psicologia capitalista segue validando também esses princípios, assim como as morais religiosas que nos dizem que não estamos aqui para julgar ninguém. Prefiro aquela máxima que diz que quem perdoa é Deus. Não estou aqui para ouvir sem julgar o que nem deveria ser dito. Não conseguir comprar o que quer não é sofrimento. Não ter dinheiro para as coisas da moda não é sofrimento. Assim como não existe sofrimento em ser viciado em comprar, nem em ver um negócio falir por incompetência e falta de noção, nem tomar tarja preta para aplacar o que não existiria não fosse a compactuação com o sistema. Essas coisas são a ilusão do sofrimento, e pela perspectiva da psicologia capitalista a pessoa deve validar o que sente, não se sentir mal por sentir e buscar formas de melhorar que ignoram completamente a realidade do restante da população.

O sofrimento ilusório que acho mais engraçado é esse do vício em compras. Vício em compras demanda dinheiro, ou ao menos crédito. Ter dinheiro e/ou crédito passa longe da maior parte da população. A classe média chora seus vícios vazios enquanto a população morre de fome ou negligência, e eu nem falo sobre as camadas mais marginalizadas. As pessoas batem palmas para o SUS sem nunca terem utilizado o sistema, ou quando muito após terem tomado vacina em um posto de saúde ou hospital de bairro nobre. Faça-me o favor. Pessoas esperam 11 anos na fila por uma cirurgia ortopédica enquanto patricinhas choram o vício em compras e o armário abarrotado de inutilidades e ainda se tornam influenciadoras com isso, validando a alienação de outras como elas. Devemos sim comparar os sofrimentos. Sem a comparação cedemos a falta de lógica, de noção, de sentido.

O empresário que vai à falência porque investiu em carros de luxo, viagens e jóias ao invés de reinvestir no negócio também não merece nenhuma pena ou empatia. Pessoas se sustentam a vida inteira vendendo água, salgados, bolos e mais um sem fim de quitutes e objetos. O cidadão começa com dinheiro, investimento, plano de negócios, vai à falência graças a própria incompetência e ganância e no final culpa o governo, Deus e o mundo por ser um merda. E o que ganha com isso? Outros merdas que batem palma. Empregados que se compadecem da dor do patrão. Vivi pra ver um mundo em que empregados choram não a perda iminente de seus empregos, mas o sofrimento ilusório do dono. Que mundo é esse? O pior é saber que a alienação é tão funda que o sonho de todo oprimido é mesmo se tornar o opressor, como disse Paulo Freire. Não vou nem citar a parte da educação libertadora, porque vivemos há gerações sem educação nenhuma, movidos por aprovações automáticas e professores frustrados (no mínimo). Não é que não tenhamos uma educação libertadora, não temos educação e ponto, em resumo.

Tinha um amigo que foi lentamente se viciando em tarja preta. Uma pessoa 100% dentro do padrão socialmente aceitável, com o emprego hype e as companhias duvidosas porém pertencentes às “classes certas”. Outra amiga teve alta da psiquiatra depois que começou a fumar maconha, e apesar de parecer um vegetal falava para quem quisesse ouvir o quanto a maconha tinha mudado sua vida. Lógico, saiu de vegetal a base de tarja preta pra vegetal a base do genocídio do povo preto! Como não ficar feliz? Eu mesma engoli por muito tempo a empatia individualista e o egocentrismo da sociedade, e comprava maconha enquanto pensava que nenhuma consequência era problema meu. Eu sofria, afinal, e em teoria era ela a responsável por aplacar minha ansiedade. Hoje, depois de algum tempo de sobriedade, vejo que me causava mais mal do que bem, como faz com todo maconheiro que usa a falácia do medicinal pra justificar o próprio vício. Porque sim, qualquer coisa vicia se você for perturbado o suficiente. E a perturbação não acaba com remédios ou maconha ou qualquer outra droga: ela acaba quando quebramos a lógica imposta e nos questionamos sobre a realidade. A ansiedade? Nunca mais tive uma taquicardia desde que confrontei meus próprios sentimentos e pensamentos e me libertei do que nunca foi meu, mas sim construção social. A sociedade é doente e ansiosa, eu não, e nem ninguém que escolha não compactuar com ela.

Esses amigos se perderam no caminho, e não sei do desenrolar de nenhuma das histórias. Só sei que em algum ponto não aguentei mais ficar calada e ouvir as baboseiras e a ilusão do sofrimento. Quando abria minha boca para questionar, era massacrada. Era eu a pessoa sem empatia e sem noção, questionando o sofrimento do próximo, ignorando que cada pessoa sabe onde o calo aperta. Mas sabe mesmo? Porque pra mim não existe sentido em reclamar do sapato apertando o calo com alguém que anda descalço. Não faz sentido reclamar do sapato apertando o calo com alguém que nunca teve um sapato na vida. Acreditar que cada um sabe onde o calo aperta ´´e compactuar com o egocentrismo, o individualismo e a psicologia capitalista, e eu me recuso a seguir fazendo isso.

No final, espero viver para ver um mundo em que a empatia real aconteça e se torne valorizada. Em que os indivíduos pensem duas vezes antes de bradar o próprio sofrimento, e na qual o véu da ilusão tenha caído e sobre somente a verdade. Não me considero a detendora da verdade, longe de mim, mas acredito que nos aproximamos dela quando saímos de nós mesmos e encaramos a vastidão da realidade prática. Uma empatia não realista é só lubrificante pro sistema. E ficar calado ouvindo absurdos não é empatia: é fraqueza de espírito e falta de coragem.

Sobre conexões, vulnerabilidade, internet e algumas coisas mais

No início da tarde de hoje terminei de ler A arte de pedir, da Amanda Palmer. Sou fã do trabalho e da carreira dela a alguns anos, e estava querendo ler o livro desde que ele saiu. Daí o tempo foi passando e ou eu tinha dinheiro e esquecia completamente de comprar, ou eu lembrava e não tinha mais dinheiro. Diogo me deu o livro de presente no início da semana, e li compulsivamente em todo o meu tempo livre até acabar.

Eu era uma bola encolhida no sofá, enrolada num lençol e desidratada de chorar (de alegria). Uma porção de coisas bateram ao longo da semana, enquanto eu lia o livro. Minha postura sobre a internet e seus usos, redes sociais, confiança, entrega, vulnerabilidade, tudo. Me sinto uma pessoa diferente. Como se o livro tivesse pego exatamente em todos os pontinhos e questões que eu tenho. Como se fosse um abraço gigantesco me dizendo “calma, vai ficar tudo bem se você for honesta e quebrar esses últimos limites”. E então eu quebro, começando por esse texto, que é o meu “oi mundo, tudo bem?” de alguma forma. Uma coisa escrita de dentro, com toda a minha honestidade. Uma porção de pedacinhos de pensamentos e questões que vão me batendo. E que todo mundo sente. É sobre isso, acho. Sobre lembrar que todo mundo sente as mesmas inseguranças e fraquezas e tristezas e alegrias que a gente sente. Todo mundo. Todo mundo quer ser visto e ouvido, e se a gente der a chance, as coisas acontecem.

Sempre fui uma pessoa de ir. Eu sou de verdade a pessoa do “vambora”. Difícil achar um rolê que eu tenha recusado. Mesmo. Se me falam “aparece lá em casa um dia”, eu apareço. Já estive em situações tristes, felizes, engraçadas e apavorantes, com essa de ir na casa de gente que eu mal conhecia. Um churrasco de policiais em Campo Grande. Um apartamento com um lustre muito lindo e enorme e um piano e papel de parede descascado como eu só tinha visto nos filmes. Fiz uma porção de amigos e conexões, mas de uns tempos pra cá fui me fechando e deixando as pessoas de lado. Os tempos foram difíceis. As pessoas não se comunicam e conversam e trocam mais como antes (eu achava, ao menos). Coisas aconteceram e então eu entrei numa onda de trabalhar pra bancar as coisas legais, mas me sentir cansada pra caraleo no final do dia e esquecer delas. Aí eu bancava lanches HAHA. A sério, eu bancava compensações. Os prazeres momentâneos que parecem relaxamento, mas são só isso mesmo: compensação.

Daí eu saí dessa. Especialmente ano passado. Fui voltando a ser eu, na minha forma artística e lokona de sempre. Tô aqui na minha casa lindona, cheia de projetos, cheia de ideias. Aí eu li esse livro. Meu cérebro explodiu. Dá vontade de fazer tudo de uma vez e compartilhar tudo de uma vez e abraçar todo mundo até não aguentar mais. Me deu, em resumo, uma puta vontade de ser eu. Dessa forma ainda mais aberta e vulnerável e vambora do que eu jamais fui.

isso inclui, pra mim, superar um trauminha de uns anos atrás: os haters não eram tão comuns. Eram os idos de não lembro que ano (pensando agora, isso me aconteceu duas vezes. Três talvez rs), e um comentário numa foto fez um cara me odiar e começar a me perseguir virtualmente. Meu blog, meu facebook, absolutamente qualquer coisa minha. Eram uns comentários pesados. Ele chamou os amigos. Ele fez um fake. Eu bloqueava e bloqueava e mais coisa continuava aparecendo. De lá pra cá, passei a ser muito mais criteriosa sobre o que postava na internet. Sem a experiência e com o pavor, minha reação foi desativar as contas de tudo e parar de escrever. Um tempão depois voltei a postar, mas só pros amigos próximos. As publicações fechadinhas e cheias de restrições. Só que eu acredito no que eu digo. Acredito também no que faço (tem, inclusive, música e série a caminho, me aguardem muahahahaha), e mais do que isso, acredito na possibilidade real de me conectar com as pessoas através do que faço.

Eu já vi gente chorar emocionada com texto meu, com trabalho meu. Eu fiz amigos graças a escrita. Eu mexi com as pessoas. Do meu ponto de vista, se uma pessoinha só ao longo desse tempo tivesse sido tocada por algo que eu criei, já seria suficiente pra eu acreditar. Mas. Foram. Várias. Pessoas. Ao longo de anos. Em todo lugar que fui e me expus. Eu fui com medo, eu fui tremendo, eu engasguei, mas quando eu fiz, a mágica aconteceu. É como diz no livro, “o dom precisa circular” (ou algo do tipo que fui catar pra citar mas não encontrei. Mais sobre isso abaixo). Não pelo meu ego ou por qualquer coisa que derive disso, mas porque se eu tenho a algo a dizer e acredito nisso, e toco outra pessoa quando faço, uma conexão verdadeira foi feita. Uma conexão real. A gente fica muito mais humano, eu não sei, quando se conecta assim com alguém. Muito mais real. É a pessoa chorando com o texto e eu entendendo que ela entendeu. Ela me vê. Eu vejo a pessoa também. É se despir de todas as barreiras, de tudo que nos distancia, e trazer pra perto. Trazer pra dentro. Levar um pouco e deixar um pouco. E então nenhum trauma ou treta ou comentário negativo consegue destruir isso. Depois que a troca foi feita, nada mais faz diferença. Eu escolho a troca.

Sobre o parêntese da citação: hoje pela primeira vez na vida fiz marcações e anotações em um livro. Eu considerava o livro uma coisa sagrada. Eu seria incapaz. Se via uma orelha, queria morrer. Dramática e purista, sim. Com eles todos inteirinhos. Aí eu fiquei pensando: mano, eu perdi uma cacetada de livros no incêndio. Os que não perdi ficaram encardidos pra sempre. As coisas passam (e Matheus incentivou). Eu queria que a próxima pessoa a ler o livro (e pretendo emprestar pro máximo de amigos que puder) tivesse um pouco de mim também, do que me moveu, do que bateu pra mim. E então eu peguei a caneta e o marca-texto e fui colorindo tudo que me parecia mais importante (passagens aleatórias pra quando a galera for no banheiro aqui, onde o livro vai morar haha), e foi maravilhoso e libertador. E se ao invés de ser a coisa intocada na estante, todo livro levar um pouquinho de quem leu?