A 1ª selfie do ano

Estando fora das redes sociais, não tirei nenhuma foto minha do início do ano até o dia de hoje. Quase metade do mês sem milhares de selfies que não seriam postadas. Quase metade do mês sem me sentir horrível nas fotos repetidas vezes e reparar em detalhes da minha imagem que ninguém mais veria. Isso tudo está nos deixando doentes. Abalando nossa autoestima, nossa autoconfiança. Esse desespero com a imagem, desespero de estar presente em tudo, de participar. Uma angústia que só nos torna mais distantes e ansiosos.

Mais do que tudo isso, quase metade do mês sem nenhuma mini crise de ansiedade. Sem o coração disparando e sem falta de ar e sem pressa. Eu fiz mais, li mais, escrevi mais, experimentei mais. Me sinto mais bonita e mais ativa. Saio de casa sem maquiagem, olho no espelho e me acho linda. Me acho eu. Me sinto uma pessoa completa e presente nos momentos, sem a distração de um feed infinito colocando gradativa e sutilmente coisas na minha cabeça. Quando estava lá, achava que era imune. Hoje vejo que mesmo não estando tão profundamente viciada quanto a maioria das pessoas que conheço, em algum grau me afetava sim negativamente. Me sinto muito melhor agora.

Por outro lado, essa experiência – como tudo na vida – também tem seu lado ruim. As pessoas passam mais de 4 horas do dia perdidas em redes sociais, mas me acusam de ser “extrema”. Extrema por não participar de algo que não quero? Extrema por fazer o que quero da minha vida e não tentar obrigar ninguém a fazer o mesmo? Não faz sentido pra mim. Outro ponto super ruim é o fato de que pessoas próximas passaram a agir como se eu não existisse. E eu fiquei triste por perceber que muitos dos assuntos que essas pessoas puxavam comigo tinham a ver com as redes sociais. “Viu o que tal pessoa fez?”, “viu o que eu postei?”, “viu o que eu te marquei?”. Muitos assuntos começavam assim. Não sei se por isso ou por qual outra coisa, é como se eu tivesse deixado de existir. Me sinto as vezes ligeiramente isolada, mas por outro lado parece haver um mundo inteiro de possibilidades e pessoas na mesma sintonia pra conhecer. As pessoas realmente próximas permanecem próximas, sem decepções, e isso é o que importa.

Fico bastante impressionada com a diferença que isso tem feito na minha vida, e talvez por isso esteja dedicando um segundo texto pra falar sobre. Recomendo a todos a experiência, do fundo do coração. Não se deixe ser engolido pelo mar de ansiedade que a internet está se tornando. Não deixe eles lucrarem as custas da sua sanidade e do seu bem estar. Existe um mundo enorme e maravilhoso fora disso tudo.

Pra finalizar – especialmente pra quem insiste em querer me convencer de que o Facebook ajuda a criar conexões reais – deixo aqui algumas provocações:

  • Faça uma lista com três pessoas com as quais você tenha se conectado profundamente – mente, corpo e alma – somente por causa do facebook. Não vale gente que você admira de longe, não vale quem você curte e comenta os textos sem conversar profundamente sobre o assunto. Não vale a sensação da conexão. Só valem as conexões reais. Gente que você conhece a vida, a família pelo nome, os sonhos, ambições, vontades. Gente que você encontra e abraça e ama.
  • Quantas vezes você já saiu de casa mesmo sem muita vontade, porque se sentiu ansioso pensando no que ia perder, ou em como ia ser ruim ver as pessoas se divertindo no instagram e não estar lá?
  • Quantas vezes você postou foto em festas, eventos e lugares – mesmo que não estivesse realmente se divertindo – com legendas que davam a entender que aquilo estava sendo ótimo, do tipo “melhor noite da vida”?
  • Quantas pessoas você já stalkeou virtualmente? Isso te fez mais feliz ou mais ansioso?
  • Quando foi a última vez que você não se importou com a cara que ia sair na foto?

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Eu hoje, por exemplo, não me importei nem um pouco.

Uma semana sem redes sociais

No início da segunda-feira resolvi dar tchau ao Facebook e ao Instagram. Não era um adeus, porque não gosto de medidas extremas, mas a sensação era quase essa. Além da leveza sentida logo após postar meu texto de despedida, minha semana pareceu durar o dobro do tempo. Eu trabalhei, li, pesquisei, estudei, assisti vídeos (o TED do post anterior foi o ponto alto do meu dia ♥) e me senti até um pouco perdida. No dia seguinte mesmo já pude notar algumas diferenças. Achei que seria ruim, que teria os sintomas comuns da abstinência e que me daria uma vontade enorme de voltar. Não sinto nada disso. Na realidade, isso foi a melhor coisa que eu poderia ter feito pelo meu início de ano

Mais do que o tempo gasto em tarefas inúteis – postar fotos de atividades cotidianas e descer o feed indefinidamente, por exemplo – as redes sociais nos tornam mais burros e mais tristes. Não sou eu que digo, diversas pesquisas começam a comprovar os malefícios do vício em internet e relacionados (eu queria citar tudo que li, mas joguem no google. Pesquisar aguça nossos sensos e nos torna mais espertos), e mesmo que o impacto disso na sociedade só possa ser medido a longo prazo, já dá pra ter noção agora. Basta abrir os olhos e observar com calma. Tenho percebido nestes cinco dias (e em outras vezes em que dei um tempo das redes sociais) que somente percebemos isso tudo olhando de fora. Esse texto possivelmente ficará enorme, mas tenho algumas considerações e questionamentos que gostaria de compartilhar. Como tudo que é bom vem em listas (mais um derivado do vício em redes sociais e sites rasos como Buzzfeed, talvez rs), lá vai mais uma:

Porque as atitudes alheias incomodam tanto as pessoas?

Viciados em redes sociais – em resumo, a maior parte dos usuários delas – não são muito diferentes de viciados em drogas ou álcool. Basta você cogitar sair ou sair que eles tentam te puxar de volta. Isso na realidade diz respeito a basicamente qualquer mudança de vida que se pretenda fazer. Já vi mais de uma vez pessoas resolverem começar uma dieta diferente, por exemplo, e os “amigos” terem reações por vezes até violentas. Seja buscando emagrecimento, saúde ou por questões éticas (evitar o consumo de carne, vegetais que não sejam orgânicos, etc), a reação das pessoas ao redor é sempre explosiva. Ninguém tem a mesma reação quando um amigo ou conhecido se alimenta prioritariamente de fast food.

Esse mesmo princípio – de que mudanças incomodam os outros – vale tanto pras redes sociais, como para atitudes como parar de beber ou fumar. Me dei conta recentemente de que as pessoas não processam essas reações. Elas não tem argumentos, no geral, e a reação é instantânea, violenta e infundada (especialmente se pensarmos que elas não tem nada a ver com isso). Uma explicação possível é a de que a massa se comporta de uma determinada forma, e qualquer coisa que quebre esses ciclos precisa ser expurgada (existem diversas pesquisas nesse sentido, ta aí mais uma oportunidade de pesquisa rs). É muito difícil hoje em dia encontrar círculos que apoiem as decisões, e essas pessoas costumeiramente são encontradas fora do círculo social de quem decide (como em grupos de apoio, igrejas, fóruns de alimentação e estilo de vida e por aí vai). Muitos destes itens nos levam, infelizmente, ao segundo item da lista.

A dependência na internet leva ao extremismo

É muito comum ver determinados grupos criticando igrejas e relacionados por pregarem visões extremas e “mente fechada” sobre determinados assuntos. Apesar de concordar com isso em muitos casos, a maioria das pessoas não se dá conta de que elas mesmas são extremistas. A internet facilitou – e muito – a vida dessas pessoas. Por exemplo: se alguém tinha visões preconceituosas específicas antes dela, provavelmente ia passar a vida sem conversar sobre com alguém ou, na melhor (ou pior) das hipóteses, encontrar um grupo local, costumeiramente pequeno. Com a internet, esses grupos são enormes, pois não dependem de localidade. Foi assim que nos últimos anos coisas aparentemente extintas como o fascismo, nazismo e similares voltaram a vida. Ela facilita mesmo pra encontrar pessoas com visões similares que morem próximas e que de outra forma não se conheceriam (não é como se – espera-se – alguém fosse colocar um cartaz de reunião nazista nos muros do bairro).

Com tudo, juntando religião, conservadorismo e movimentos sociais, o potencial da internet foi usado pra transformar o mundo num lugar ainda mais caótico e cheio de preconceito. Todo mundo pensa da mesma forma, não importa qual for o assunto. Sendo assim, todo mundo está certo. Se todo mundo está certo, alguma coisa está errada. Um subproduto desse sistema é a lógica burra que permeia diversos meios. Um exemplo que vi recentemente foi uma faixa escrito “miscigenação também é genocídio”. Grupo nazista? Nem de longe: manifestação do movimento negro. A primeira vista a lógica parece correta e – pra mentes acostumadas com o flood de coisas da internet e desacostumada a raciocinar por mais de cinco minutos sobre alguma coisa – a mão de compartilhar é mais rápida do que a capacidade de processamento do cérebro. Nisso, assuntos realmente importantes a diversas causas vão passando batidos, enquanto a disseminação do ódio é feita por todos os lados.

Isso me faz pensar em uma história que me aconteceu recentemente:

Nas redes sociais, você precisa fazer parte de algum grupo

Na vida real, nem tanto. Antes das redes sociais, a sexualidade de cada um dizia respeito somente a cada um, quando muito as pessoas com as quais cada um se relacionava. Com o advento das redes sociais com seus grupos, fóruns e páginas, a coisa toda tomou um outro espectro: você precisa fazer parte de alguma coisa e se reafirmar como tal. Sou uma pessoa muito suscetível a essas questões. Se alguém me repetir três vezes alguma coisa já me sinto convencida, e com isso vou me afundando em questionamentos, até me perder nos pensamentos. Demoro mais do que o tempo considerado normal hoje em dia para processar informações e opiniões. Longe de mim ser maria vai com as outras ou não ter opinião: eu só não fui construída pra processar as coisas de maneira leviana.

Sempre me considerei bissexual, desde a adolescência. No meu tempo não existiam as infinitas denominações que existem hoje em dia. Ninguém se dizia “cis não-binário” ou qualquer coisa com tantas sílabas e significados (ainda me esforço pra entender o que significa tudo). De uns tempos pra cá, comecei a conviver mais com mulheres lésbicas, participar de grupos, fóruns, festas, rodas de conversa. Não sei se vocês já passaram por isso, mas eu comecei a me sentir sobrecarregada de informações e pressionada a ter uma posição. Eu nunca expus minha sexualidade pra ninguém, sempre fui muito na minha. Nunca senti a necessidade de me reafirmar como alguma coisa, ou de participar de alguma coisa, porque acho que grupos cuja única motivação seja algo que não é uma real motivação nem deveriam existir (música é uma motivação. Cinema é uma motivação. Se reunir com pessoas que não tem nada a ver com você pura e simplesmente porque compartilham cor, gênero ou sexualidade? Nunca achei uma motivação válida).

Com tudo – textos, pessoas, opiniões, questionamentos – lá estava eu me sentindo mal, e culpando diversas coisas da minha vida em questões relacionadas a isso. Eu fiquei completamente cega. Meu relacionamento ia bem, minha vida ia bem, mas eu queria fazer parte. Eu queria fazer parte dos grupos e das páginas e dos círculos. Soa estranho, mas pare pra pensar: quantas coisas você fez ou deixou de fazer nos últimos anos pensando nos reflexos nas suas redes sociais? Soa superficial, também, mas pare pra pensar de novo: quantas coisas superficiais você posta por dia na internet? Exatamente. Todos estamos suscetíveis. Sair de tudo e me afastar das pessoas me fez questionar novamente coisas das quais eu achava ter certeza a duas semanas atrás. Porque sem a presença constante das redes sociais e da sensação de julgamento e observação alheios, eu fui me desintoxicando e perdendo essa necessidade.

Me sinto agora como me senti o resto da vida, antes das incursões no meio lésbico no ano passado e em um curto período do retrasado (em que cheguei a mesma conclusão, mas fui novamente engolida pela superficialidade das interações na internet): fluida, livre e não presa a convenções. Não sou hétero e não sou lésbica e não sou bissexual, sou a Dandara, uma pessoa que ama e se apaixona por pessoas. Que se sente atraída pelas pessoas pelo que elas tem a oferecer como seres humanos, e não por órgãos sexuais. Acho que isso vale inclusive um texto a parte.

O tempo é infinito sem as redes sociais

Eu vejo uma quantidade enorme de pessoas falando sobre o quanto não tem tempo, e acho que elas não se dão conta de quanto tempo é gasto diariamente postando, checando notificações e descendo o feed infinitamente. É realmente um vício, e como qualquer outro, é difícil admitir. Desde que me desloguei de tudo, meus dias parecem durar muito mais. Tenho visto um filme por dia. No trabalho, faço bem mais, com muito mais facilidade. Meus níveis de concentração vão gradativamente voltando ao que eram antes. Teve um dia essa semana em que eu nem sabia o que fazer com tanto tempo livre. Li metade de um livro nesse dia.

Dificilmente alguém é tão ocupado quanto diz ser. Somos levados a nos sentir ocupados, tudo nas redes sociais é arquitetado pra que a gente permaneça por lá descendo os feed infinitamente. Eles precisam da nossa permanência, porque geramos dinheiro. Nada ali é feito para de fato conectar as pessoas, porque eles não poderiam se importar menos. A falsa sensação de conexão, e a sensação de que perderemos contato caso não estejamos lá nos faz continuar. É libertador se livrar disso, garanto. Temos tempo pra todas as coisas. O tempo, aliás, não passa mais rápido do que passava antigamente, é tudo questão de percepção. Não estamos mais ocupados, estamos somente viciados e presos a isso.

Aquele tempo no ônibus descendo o feed? Dá pra ler, dormir, ouvir música, fechar os olhos e não fazer nada. O tempo gasto tirando mil selfies pra postar uma no instagram? Dá pra de fato aprender a fotografar. São tantas as possibilidades que nem caberia aqui escrever.

Conclusão

Sair das redes sociais foi a melhor coisa que fiz no meu ano – mesmo que ele esteja ainda no quinto dia de sua existência rs. Me sinto mais feliz, mais disposta, mais conectada comigo mesma. Desconfio, inclusive, que grande parte do período que passei em depressão tenha a ver com o vício em internet. A ansiedade também diminuiu, e me sinto agora muito menos aflita, com uma visão muito mais clara sobre a vida e o que preciso fazer. Recomendo fortemente que todos façam a mesma experiência. Pra quem ainda não se convenceu de que o vício em internet é tão forte quanto o vício em qualquer outra droga, dê uma pesquisada. Use a internet para algo realmente útil! Pare pra pensar de coração aberto e se dê conta de que ela pode estar consumindo os melhores anos da sua vida.

No mais – e pelo que me lembro com carinho – o mundo era muito melhor antes do facebook e do instagram. Espero que um dia todo mundo se dê conta. Espero também que não seja tarde demais.