Vida sem shampoo – Parte I

Tinha resolvido que só falaria sobre isso após um mês sem shampoo, mas ainda falta uma semana e dois dias e eu não me aguento. hehe Deixei a ansiedade falar mais alto e aqui estou a escrever sobre essa experiência incrível e gratificante. São atualmente quase três semanas sem shampoo e meu cabelo continua respondendo bem. Sei que não é assim pra todo mundo, e por isso resolvi fazer esse post.

Muito se fala sobre técnicas alternativas de cuidados com os cabelos. A mais famosa, No Poo, consiste em não utilizar shampoos com sulfatos e outros químicos pesados proibidos. Existem diferentes variações da técnica, que vão desde fazer o co-wash – uma higienização com condicionador – até outras mais “radicais” (radical pra mim hoje em dia é colocar um monte de química esquisita no cabelo, mas falta palavra melhor hehe), como utilizar bicarbonato de sódio na lavagem e vinagre pra condicionar, ou utilizar apenas água no cabelo. A última pode parecer estranha mas, acredite, o cabelo se adapta. Eu escolhi não utilizar nenhuma dessas técnicas, e explico abaixo porquê.

Substituindo uma ditadura por outra

Do meu ponto de vista, o que se vê como No Poo no Brasil não faz sentido. Mesmo sem os químicos nocivos dos produtos tradicionais, os produtos liberados pra No Poo contém químicos de nome estranho, são produzidos industrialmente e causam sabe-se Deus quanto impacto na natureza e nos animais. Existem sim marcas conscientes, que produzem em pequena escala e são super engajadas, mas essas marcas custam uma fortuna e nem todo mundo tem acesso. Eu, por exemplo, não tenho. Indo um pouco além, sempre me questiono o seguinte: se uma grande corporação cria uma linha liberada pra essas técnicas, mas não tira do mercado os produtos tradicionais cheios de químicos nocivos, qual é o sentido? Pra mim, abolir esses produtos vai muito além da minha saúde e bem estar: tem relação com a sustentabilidade e a saúde do planeta. Tem a ver com o fato de que as indústrias não praticam a logística reversa e todos os anos uma infinidade de embalagens – de produtos liberados para a técnica ou não – vai pro meio ambiente.

Acho os grupos de No Poo e Low Poo do facebook maravilhosos. São um espaço de aceitação, amor e tretas. Muitas tretas. Quem pode fazer, quem não pode fazer, quem vale mais e quem não vale. Vira e mexe rola racismo, uns comentários escrotos, uma falta de tato e de noção que eu não compreendo. Não dou pitaco em nada, mas fico observando as discussões que vão de nada a coisa alguma. Não usar shampoo é um ato político sim, mas não somente quando falamos de cacheados e crespos. Mas se pegamos uma ideia bacana e ao invés de usar essa ideia pra promover o consumo consciente continuamos investindo no consumo desenfreado – e deixando as marcas usarem isso como marketing, lançando novos produtos todos os dias – a coisa toda perde o sentido. Vamos de uma ditadura (a dos lisos, das progressivas, dos produtos mil) a outra (que também visa o consumo, no final das contas, com mil cremes de pentear, nutrição, hidratação, reconstrução e o que mais nos enfiarem goela abaixo). Pensando nisso tudo, me coloquei a pesquisar e tentar encontrar outras soluções.

O que meus ancestrais faziam?

O nome No Poo é americano e patenteado. Rendeu (e rende) uma pequena fortuna pra sua criadora. Bem antes disso, a técnica já existia, sem nome, permeando a história. Basta pensarmos: sempre existiu shampoo? A resposta é simples, um sonoro “não!”. Ainda assim, as mulheres já cuidavam de seus cabelos, e ninguém andava com o cabelo sujo por aí. Em uma pesquisa rápida descobrimos que a indústria cosmética como conhecemos hoje é bastante recente, especialmente se comparada com o tempo que o ser humano transita na terra. Antes da existência do shampoo – e na realidade até hoje, em certas tribos e comunidades – outros produtos eram utilizados para higienizar e tratar os fios. Plantas, óleos, sementes, água. As possibilidades são quase infinitas. Cada lugar do mundo desenvolveu sua própria forma de lidar com a higiene e os cuidados pessoais. Algumas técnicas podem soar radicais ou esquisitas, mas disse e repito: radical pra mim hoje em dia é entupir meus poros com ingredientes que não sei pronunciar o nome.

Mais do que criar shampoos, cremes e relacionados, a Indústria fez um trabalho muito forte de desmantelamento e descrédito das técnicas ancestrais. Basta jogar “mel no cabelo” no google e somos levados ao site da Pantene, em que “Doutores” nos dizem que não é seguro utilizar substâncias naturais no cabelo, e que devemos investir em produtos desenvolvidos por eles em laboratórios. Esse tipo de técnica foi utilizada ao longo do tempo para mudar a percepção das pessoas. Não falo de grandes teorias conspiratórias, mas de pura propaganda. Existe uma tribo na China em que as mulheres cortam os cabelos apenas uma vez ao longo da vida. Os fios são fortes, grossos, vão quase até o pé. O que elas usam? Água e água de arroz (sim, aquela água branca da lavagem dos grãos, que é possível você conseguir em casa). Na África, existe uma tribo que trança os cabelos – enormes – de formas incríveis. O que eles usam? Água e outras coisas naturais e acessíveis do entorno. Esses exemplos podem ser vistos em diferentes continentes, diferentes culturas, ao longo do tempo e até os dias de hoje. Cabelos fortes, longos e lindos, sejam eles lisos, cacheados, crespos ou ondulados. Como eu disse antes, a Indústria cosmética é muito recente, mas foi muito eficaz em desacreditar esses costumes.

Mais do que militância, um caminho econômico

Resolvi então fazer o caminho inverso. Um retorno as minhas raízes e ao que as mulheres antes de mim faziam. Mais do que isso, um caminho de experimentação do que muitas pessoas fora da sociedade de consumo ainda fazem até os dias de hoje. Para desespero dos “Doutores” da Indústria, estou me dando muito bem. Nas últimas três semanas meu cabelo cresceu mais do que costumeiramente crescia, está mais forte e volumoso, minha pele está se adaptando as mudanças e meus gastos foram irrisórios.

Como comecei praticamente do zero, estipulei um orçamento de R$ 100,00. Com esse dinheiro, comprei material suficiente para passar os próximos 6 meses sem comprar pasta de dente, shampoo, condicionador e mais qualquer outra coisa que eu normalmente compraria. Mesmo pra quem não tem esse dinheiro pra investir e quer começar, existem possibilidades menos radicais ou produtos fracionados. Por exemplo, 100g de juá são suficientes pra escovar os dentes por uns 6 meses (mais, quiçá) e custam uma média de R$ 6,00. Isso significa gastar R$1,00 por mês. A pasta mais barata do supermercado custa em média R$ 2,00 e dura umas duas semanas. Em um ano, você deixa de jogar 24 tubos vazios no lixo e economiza R$ 36,00. Parece pouco? Escovando os dentes pelos próximos 20 anos, são 480 tubos a menos na natureza. Multiplique isso pela parcela da população que tem acesso a pasta de dente e o resultado é apavorante, assim como com o descarte das embalagens de cosméticos no geral.

Vou parando por aqui pois o texto já está gigantesco. Ainda falta muito pra falar, mas essa foi somente uma introdução. Nos próximos posts, falarei um pouco mais sobre as tribos fantásticas que citei e seus costumes, além de explicar passo a passo a rotina que desenvolvi pra cuidar dos meus cabelos. Espero que vocês gostem e se inspirem! Não esqueçam de seguir o blog e ficar de olho nas atualizações. 🙂

Batom de argila – Receita

Sou apaixonada por batons desde que me entendo por gente. Pegava os vermelhos da minha avó e me sentia uma diva. Deve ter a ver com minha paixão por filmes antigos e pela estética dos anos 40 e 50, não sei, só sei que com o passar do tempo minha coleção de batons só fez aumentar. Acho que devo ser uma das poucas pessoas que conheço que já conseguiu acabar com um tubo de batom, inclusive.

13474280_10154368218262164_260625789_n

Há algum tempo atrás, li em algum lugar que mulheres que usam batom comem mais de 1kg do produto ao longo da vida. Não sei se isso é verdade, mas faz muito sentido, uma vez que comer e beber coisas estando de batom significa ingerir pequenas quantidades com o passar do tempo. Fiquei imaginando se existiria algum impacto a longo prazo no consumo de batom. Ainda não encontrei fontes sérias falando sobre isso, mas prefiro não arriscar! haha Nessa vibe das substituições, comecei a procurar uma receita mais natural, que não causasse impacto no meu corpo e na natureza. Depois de algumas tentativas falhas envolvendo beterraba (mais sobre isso em outro post. Foi muito fail hahaha), encontrei a mistura perfeita: óleos e ceras cheios de felicidade misturados com argila! \o/

13459737_10154368218092164_1548428891_n

A receita original eu vi no Humblebee & Me, um blog maravilhoso sobre cosméticos feitos em casa, mas fiz algumas substituições. O batom dela fica um vermelho bem vivo e maravilhoso, porque é feito com uma argila australiana super escura e pigmentada. Usando o que tinha em mãos, fiz minha versão. Com a argila vermelha daqui, o resultado foi um cor de boca maravilhoso, meio amarronzado mas com um toque malva. Achei lindo, estou apaixonada, quero casar com ele e viver junto pra sempre. hahahaha

13441695_10154368217507164_831339682_o

Eis a receita:

Ingredientes

  • 1 colher de chá rasa de manteiga de karité
  • 1 colher de chá rasa de cera de abelha (pode substituir por outra se for vegano, como a de candelila)
  • 1 colher de chá rasa de óleo de coco
  • 1 colher de chá rasa de mel (coloquei pelas propriedades e pelo cheiro, mas também pode ser retirado)
  • 3 gotinhas de óleo essencial de hortelã (coloquei esse porque gosto de coisas mentoladas na minha boca, mas pode substituir ou retirar da receita)
  • 2 colheres de chá de argila vermelha

Modo de fazer

  • Coloque a manteiga de karité, a cera de abelha e o óleo de coco em um potinho de vidro e derreta em banho maria. É importante que os óleos e cera se misturem com o mel, pra não ficar uma gororoba no final – aconteceu comigo na tentativa anterior, quando misturei o mel depois. hehe
  • Acrescente o óleo essencial e a argila e misture bem. Quando eu digo bem, é bem. Vá misturando com paciência e amor até a argila estar totalmente incorporada a mistura, senão seu batom ficará cheio de pedacinhos e você pode se arranhar – aconteceu comigo na tentativa anterior, não contem pra ninguém. hahahaha
  • Coloque a mistura em um tubo de hidratante labial (eu reutilizei um da Nivea que já tinha acabado, mas você encontra em lojas de embalagens e essências) ou numa latinha pequena. Se colocar na latinha, você pode aplicar com o dedo ou com pincel.

13461122_10154368221637164_2008372210_o

Como o óleo de coco derrete fácil com o calor, o batom desliza tranquilo quando entra em contato com a pele. A cera e a manteiga, que são mais durinhas, impedem que o tubinho derreta e torne sua vida um caos. 😉

Além de ser uma opção mais barata e mais saudável aos industrializados, esse batom tem uma porção de propriedades maravilhosas, é hidratante e trata os lábios com o uso contínuo. O custo de cada tubinho fica muito baixo, e a matéria prima pode ser utilizada em uma porção de receitas diferentes.

13446053_10154368220442164_674951450_o

Espero que vocês gostem e testem, vale muito a pena! <3

Nem tudo dá certo (mas tudo bem)

Saí de casa cedo e quando cheguei minha única vontade era lavar o cabelo. Hoje completo uma semana de no-poo. Cortei shampoos, condicionadores, cremes e todas as coisas que usava, e “lavei” o cabelo 3 vezes da quarta passada pra cá. Com tudo, estava pronta pra minha quarta vez. Preparei o bicarbonato misturando com um outro preparado que fiz (envolve juá, é maravilhoso e eu conto depois..rs), passei nos cabelos secos, deixei agir uns dois minutos massageando e enxaguei. Resolvi experimentar algo mais potente que o vinagre sozinho (sem necessidade, eu sei, era apenas pra fins de pesquisa hahaha). Procurando na internet, encontrei uma tal hidratação de argila e resolvi testar.

A receita consistia em argila, vinagre e óleo de coco. Como era originalmente pra cabelo crespo, reduzi a quantidade de óleo e acabei substituindo por óleo de semente de uva, um dos meus favoritos pra pele. Li sobre os benefícios dele pros cabelos e pensei que nada poderia dar errado. Pra ir além, dei um up na mistura com uma colher de mel. Lendo o relato maravilhoso da moça, fiquei pensando “socorro, vai ficar maravilhoso”. Mas não. Misturei as proporções corretas, apliquei nos cabelos úmidos, coloquei a touca e segui com meus afazeres. Na hora de tirar, meu cabelo estava mais duro que ouro. Enxaguei como de costume, finalizei com água de arroz e apliquei leite de coco, meu novo leave in favorito.

Não tenho paciência nem tempo, por isso resolvi secar com o secador. Não tive problemas até agora com adaptação, e desde a primeira lavagem meu cabelo estava normal. A oleosidade diminuiu nas últimas semanas, depois de uma reação na semana anterior a algum produto que me deixou com caspa, coceira e vermelhidão no couro cabeludo. Dessa vez, meu cabelo parecia palha de milho enquanto molhado. Tive a vã esperança de que secar melhoraria alguma coisa. Não melhorou absolutamente nada.

Não sei se foi o óleo, a argila, o mel, o vinagre. Todos estes ingredientes funcionam bem em separado. Não sei se deixei tempo de menos, usei algum ingrediente de menos ou demais. Só sei que a sensação é a de que passei muito gel no cabelo, esperei secar e penteei. Hidratação zero. Pontas bonitas zero. Volume 10, quando 10 é “pareço uma cacatua”. Contando esta história de tristeza e pesar, lhes digo: nem tudo dá certo no mundo dos experimentos. Nem tudo funciona pra todo mundo, e não existe regra que valha. Cada cabelo é um cabelo, e com isso tem suas necessidades e vontades específicas. Pra alguns, isso é um ponto negativo (entendo quem busca a praticidade da certeza rs), mas pra mim é justamente a beleza de experimentar processos em si mesmo: assim como na vida, nem tudo dá certo, mas de cada erro tiramos um aprendizado. A cada experiência errada nos conhecemos mais, nos entendemos mais, ficamos mais conscientes do que queremos ou não. Conhecer o próprio corpo é ser livre. Cabelo, pele, dente, digestão, mente. Que o mundo invista na experimentação com o próprio corpo, e que todo mundo seja capaz de retomar as rédeas e se conhecer. Nem tudo dá certo, mas tudo bem: a gente continua tentando! <3