Quando menos quero, é quando mais preciso

Todo mundo experimenta dias de preguiça e uma vontade enorme de deixar a prática de lado. Para mim, esses dias acontecem quando me sinto muito estressada, quando a mente nubla e sinto que nada vai me ajudar e, especialmente, quanto tudo que eu queria era desaparecer do mundo sem deixar rastros. Luto com a depressão e a melancolia desde criança, e já perdi algumas vezes para ela: houve um tempo em que passava a maior parte do meu tempo deitada na cama, sem energia mesmo para as coisas mais básicas. Como nasci pobre, juntava minha pouca energia para trabalhar e deixava todo o restante ruir. Já passei semanas sem tomar banho. Já passei semanas sem escovar os dentes. Já fiquei com o cabelo tão sujo que as feridas sangravam, coçavam e doíam. Às vezes nem acredito que saí desse estado, e creio menos ainda que saí dele sozinha.

Nesses dias, em que tudo é um tanto cinza e dá vontade de desistir, tenho experimentado reforçar a prática ao invés de evitá-la, e quando tudo termina percebo o óbvio que a falta de humildade não nos deixa crer: quando menos temos vontade, é quando mais precisamos. Não vale somente para a yoga ou meditação, vale para tudo, do banho ao exercício físico, a comida saudável, tudo. É muito difícil acreditar nisso do auge do sofrimento, mas existe uma coisa muito poderosa, muito forte, muito maior do que levar em consideração a vontade ou a falta dela: disciplina.

Disciplina, diferente do que nos leva a crer a cultura capitalista ocidental, não tem a ver com força de vontade. A vontade não tem nada a ver com isso. É aquele clichê de não fazer porque quer, mas sim porque precisa. Precisamos de higiene, alimentação, carinho e cuidado com nosso corpo. Precisamos mesmo quando não gostamos dele e/ou quando não queremos. Precisamos mesmo quando todo o restante parece ruir. Disciplina é sobre fazer o que se tem que fazer sem deixar a vontade – ou a falta dela – tomar conta.

É muito difícil entender e alcançar a disciplina vivendo na sociedade que vivemos, mas faz algum tempo descobri uma forma muito poderosa de fazer a disciplina acontecer: encaro todas as atividades como encaro o trabalho. Somos educadas desde pequenas para colocar o trabalho acima de tudo. Estudamos para conseguir ou melhorar o trabalho, e sem o trabalho não conseguimos morar, comer, beber, existir. Não é sobre perder o prazer das atividades, mas sobre encontrar uma forma de realizá-las mesmo nos piores dias. Mesmo quem sofre com depressão – especialmente se não for rico rs – segue trabalhando. Somente em estados muito graves e avançados esse ímpeto se perde. De maneira geral, a capacidade de trabalhar é a última a se perder, justamente pelo lugar e importância que aprendemos a dar a ele desde a infância. Uma das primeiras coisas que me lembro são adultos perguntando o que eu queria ser quando crescesse, e esse “ser” nada tinha a ver com personalidade ou paixões, mas sim com profissões. Quis ser uma porção de coisas, e no final não me tornei nenhuma delas, mas desde pequena vivia com a angústia e o questionamento sobre qual seria meu caminho profissional.

Quando enxergo o banho, a yoga, a meditação e mesmo os prazeres da vida como enxergo o trabalho: atividades imprescindíveis para a continuidade da minha existência, consigo tirar de tudo o peso da vontade. Da mesma forma, tirando o peso da vontade consigo abrir mão de extravagâncias e lutar contra meus vícios (alô tabaco, estou falando com você). Tirar o peso da vontade é encontrar o caminho para a disciplina, e tudo fica melhor ainda se matamos também a pretensão de ir do zero ao cem. Jesus transformou água em vinho, mas esse tipo de milagre não tem espaço no cotidiano do trabalhador da cidade! haha Se vamos do zero ao cem perdemos a chance de apreciar o caminho e entender nossos próprios processos. Com uma mudança de cada vez, as coisas tem a chance de – com o tempo e a disciplina – se tornarem definitivas.

Com essa mentalidade menos focada na vontade, consegui diminuir o consumo de cigarros de 40/dia – sim, dois maços inteiros! – para 5-6/dia. É o ideal? Não, o ideal é parar completamente, mas que valor teria acreditar que minha vontade de parar seria suficiente? Um viciado é um viciado, e prefiro desenvolver aos poucos a disciplina até me sentir capaz de parar completamente.

No final, disciplina é a capacidade de passar por cima da vontade ou da falta dela. É a capacidade de respirar fundo e entrar no automático quando falta o ímpeto. Prefiro construir uma vida de disciplina do que continuar acreditando na falácia capitalista da força de vontade! Na força de vontade me sentia fraca. Na disciplina me sinto capaz de tudo!

Namastreta

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Acho engraçado como hoje em dia existe toda uma cultura do ser zen e ficar de boa. Acredito que sejam de fato práticas maravilhosas, quando feitas da maneira correta. O que ninguém explica é qual é exatamente o limite entre ser “de boas” e estar na realidade engolindo sapos e se autodestruindo. Te soa exagerado falar em autodestruição? Pra mim, qualquer coisa que não funciona para nos elevar, funciona para nos sabotar. Vamos por partes.

Ser zen, meditar, falar de maneira tranquila e todas as coisas relacionadas sempre soam como coisa de gente elevada. Gente elevada não grita, não briga, não desce do salto. Gente elevada não coloca a mão na cintura com o dedo pro alto. Gente elevada medita, come orgânicos, anda e bicicleta e perdoa como quem compra banana na feira (isso faz sentido? hahahaha). Todas essas coisas estão bem distantes da realidade do cidadão comum. É difícil ser zen no ônibus sem ar condicionado. Comprando no Supermercado Mundial. Andando embaixo dessa lua. Com vários gatos, cachorros, tartarugas e humanos em casa. Daí o ser humano proletário começa a ler muito, tenta praticar, tenta se “””elevar””” copiando os caminhos. Já caí nisso a alguns anos atrás, mas agora volto vacinada pra dizer: é possível. Mesmo com todos os problemas e perrengues do dia a dia, com todas as provações.

O segredo, em essência, é não confundir ser zen com ser banana. Não confundir tranquilidade com passividade. Se te dói parecer tranquilo, você não está sendo tranquilo. O objetivo não é parecer, aliás, é ser. Pra você, por você, e não pras outras pessoas.

Com todas as coisas que penso, e juntando os conhecimentos que fui acumulando ao longo dos anos, percebi que minha vibe é muito mais a Namastreta. Calma, sim, mas passiva nunca. De boas, mas com limite.

No mais, acho muito chato gente que é zen demais. Sempre desconfio que tem alguma coisa errada com quem não se exalta – especialmente de felicidade. Acumular raiva, peso, tristeza é muito ruim (pra saúde, inclusive), e é importante aprender a deixar ir. Mas não ceda a pressão pra parecer tranquilo. Vira e mexe tudo que a vida precisa é de uma boa sacudida! 🙂