As luzes da cidade

Tudo parece mais bonito de longe. Tanto a distância quanto o tempo tem uma capacidade incrível de transformar qualquer coisa. Morei na cidade por alguns anos antes de perceber meu erro, e desde então moro em um bairro afastado que é quase uma cidade de interior. Quando cheguei aqui, estava feliz. Feliz por circular sem medo, por ter acesso a supermercados e por poder andar quilômetros sem correr perigo. A casa tem alguns problemas, mas eram tantos planos acumulados por tantos anos, que nada poderia nos impedir.

Mas impediu. Impediu e fez parecer que a resposta era largar tudo e voltar pra cidade. Eu esqueci do medo e da degradação. Esqueci o cheiro de bosta humana e a falta de manutenção dos prédios. Esqueci que era impossível sair a noite e que – como me disse hoje um corretor de imóveis – de noite a Cinelândia vira walking dead. Me fugiu da memória a taquicardia e o pavor. Me fugiu da memória o valor extorsivo das taxas condominiais, valor esse que raramente é convertido em qualquer melhoria nos edifícios: os prédios todos caem aos pedaços, com seus elevadores horrendos e portarias mal montadas, com suas infiltrações e falta de pintura. Já tive encomenda roubada pelos porteiros de um prédio em que morei na Lapa. Nesse mesmo prédio hoje em dia apartamentos são alugados por R$2.500, R$3.000. Ouvi hoje também que o aluguel de um apartamento em um prédio acabado em uma rua que cheira a merda chega a custar R$4.000 “por causa da vista”. Da vista? Você mora em um muquifo, mas tem foto bonita para postar na internet. Em tempos de vida de mentira, vale qualquer coisa.

O Rio morreu há muito tempo atrás. Queria ter percebido isso antes. Ele não existe para os cariocas. A cidade da qual sinto saudade não é aquela em que morei, mas sim a cidade que existia na minha adolescência e no início da minha vida adulta. Um Rio de Janeiro que não existe mais, mas que segue se vendendo como se existisse. Tudo é extorsivo, sujo e feio. As luzes da cidade atraem as piores moscas. Eu me recuso a gastar fortunas por uma vista. Me recuso a gastar pra todo dia ser confrontada com a degradação moral que tomou conta da cidade, uma cidade em que uma classe média odiosa compra e aluga imóveis que até outro dia eram moradia dos trabalhadores, que empurrados pela crise passaram a morar nas ruas ou nas favelas. Sou mais o meu quase interior. Sou mais as crianças correndo na rua e as luzes amarelas da rua, mesmo com todos os problemas. A resposta nunca é voltar atrás. A resposta é andar pra frente.

E qual é a frente para onde devo andar? Não sei. Só sei que ir até lá foi uma coisa terrível, mas mágica. Terrível porque estou até agora sem energia e sentindo uma tristeza funda, aguda, sem precedentes. Mágica porque eu finalmente me dei conta de que essa não é a resposta. Essa nunca foi a resposta. Eu não tenho estômago pra ignorar o sofrimento alheio e seguir meu dia. Não tenho estômago pra viver com medo. Não tenho estômado pra ceder ao capitalismo e torrar meu dinheiro suado em um imóvel horroroso só pra existir em um lugar que nada me oferece de volta.

Há alguns anos atrás escrevi uma canção que diz “o Rio é sonho ou pesadelo / depende de quem navega”. Hoje escreveria diferente. O Rio é pesadelo, independe de quem navega. A cidade se alimenta da pureza e do amor dos nossos corações até que não sobre nada. Há quem se perca no álcool, há quem se perca nas drogas, há quem desista e vá embora sem olhar pra trás. Sigo amando o Rio do meu coração, mas não tenho nenhum interesse pelo Rio da realidade. Eu naveguei no sonho enquanto deu, e vi a cidade ser vendida a preço de banana. Vi os lugares que eu amava serem engolidos pelas redes, pelos ricos, pelo hype. Vi as coisas serem sugadas até a raiz e depois abandonadas como se nunca tivessem existido. Talvez venha daí minha tristeza. Mas vai ver toda geração acha que o Rio do seu tempo era melhor. A diferença entre as gerações anteriores e a minha é que eu realmente tenho certeza: qualquer coisa que veio antes era melhor do que o que existe agora.

E no final, quem vive de passado é museu. Qual será a próxima parada?

Hoje corri pela primeira vez

A muitos e muitos anos eu tinha vontade de correr. Toda vez em que cheguei perto de tentar, coloquei algum empecilho e desisti, mantendo somente a caminhada. Eu sentia por dentro uma vergonha gigantesca, fruto da minha timidez (que apesar de superada, vez ou outra se mostra presente) e inseguranças em relação ao corpo. Tinha por dentro a ideia de que todo mundo ficaria olhando pra minha cara, de que as pessoas ririam porque sou desengonçada, enfim, o pacote inteiro das afirmações que contamos para nós mesmos quando nos autossabotamos. A autossabotagem foi, aliás, um dos principais fatores que me afastou de sequer tentar. E então eu era essa pessoa, que vira e mexe pesquisava zilhões de coisas sobre corrida, mas desistia sempre que chegava o momento de fazer de fato.

Um dos meus focos do ano é ser mais saudável. Esse foco foi herdado do ano passado, e percebo que já é fixo na lista, por um motivo muito simples: há sempre mais a ser feito. Ter saúde vai muito além de comer bem e fazer exercícios, tem a ver também com saúde mental, com autoestima e por aí vai. Estas coisas são sementes, que precisam ser regadas constantemente para que a planta cresça e vire árvore. Sei por dentro que enquanto mantiver este foco, as raízes de cada hábito serão cada vez mais fortes e profundas. Com isso em mente, escolhi uma atividade que parece super divertida, mas que infelizmente só volta das férias em fevereiro (quando começar conto como foi). O que fazer com o mês de janeiro? Como começar a me desafiar ainda este mês? A resposta veio das conversas com o noivo: vamos começar a correr. Eu queria fazer, ele também, temos roupas e calçados adequados e essa motivação toda do ano que se inicia. É importante investir em algum dos focos ainda em janeiro, para firmar os alicerces do ano, então a ideia parecia excelente.

A sensação no primeiro dia de corrida

Precisávamos sair para buscar o violão do Matheus no conserto (a aproximadamente 1.8km daqui), então unimos o útil ao agradável: corremos o caminho de ida, caminhamos o de volta (um percurso que já fazemos normalmente a pé). Como base pra não fazer besteira e se lesionar (um pavor haha), usamos o guia do NY Times. Uma das recomendações era o método do atleta olímpico Jeff Galloway, o run-walk-run (do inglês, correr-andar-correr). O nome é autoexplicativo, e é exatamente isso mesmo: na média para iniciantes, corremos 10-30 segundos para cada 1-2 minutos caminhando. Como nenhum de nós usa relógio e deixamos o celular em casa (e no mais, contar tempo é muito chato :P), medimos tudo de maneira diferente, nos desafiando até pontos próximos (ex: um ponto de ônibus, uma árvore, etc).

Se achei que ia morrer em alguns momentos? Definitivamente, mas foi tudo extremamente positivo. Eu aguento muito mais do que imaginava. Consigo me desafiar e cumprir os desafios. Me sinto viva, feliz e motivada. Nem reparei se alguém afinal olhou pra minha cara ou riu de mim. Vencer meus limites era importante demais e tomou todo o meu foco durante o percurso. Achei que morreria de vergonha e nunca mais ia querer correr na vida. Achei, na verdade, que nem fosse conseguir começar. Dá um frio na barriga, uma moleza, a sensação de que não somos capazes. Se você aguentar por alguns segundos, só alguns segundos a mais, a sensação é substituída pela certeza de que você consegue. Mesmo que por alguns segundos. Os primeiros viram mais na segunda vez, e um pouco mais na terceira. Antes que a gente se dê conta, serão minutos, quem sabe horas? Tenho ao final deste dia uma certeza: com a motivação correta – de autocuidado, de amor ao corpo que tem, de se sentir mais forte, saudável e confiante – qualquer um é capaz de começar qualquer coisa na vida. Depois que se começa, com a motivação certa, tudo acontece, e é mágico.

Quando foi a última vez que você desafiou algum dos seus limites? <3

Feira da Pracinha no MAR ♥

No último sábado, dia 25, nossa Feira da Pracinha foi convidada a participar de um evento incrível: uma feira de trocas no Museu de Arte do Rio. A feira aconteceu paralelamente ao Congresso dos Irreais, representando as feiras de economia colaborativa da cidade, e a “moeda de troca” foram os Irreais, moeda criada pelo artista José Miguel Casanova. Para saber mais sobre esse projeto incrível que é o Banco dos Irreais e abrir sua conta, clique aqui. Um breve resumo pra ambientar o que vou contar a seguir (hehe):

“Um Banco de Tempo é uma ferramenta de desenvolvimento de trocas sociais que permite uma nova forma de relacionamento entre os membros de uma comunidade. Ele é uma das práticas da economia solidária, que é uma forma de organização da produção-consumo, ambiente de cooperação comercial e boa vida das pessoas, ao contrário da concorrência e acumulação de capital que caracterizam o sistema capitalista. É uma economia de trocas que não procuram a acumulação de quantidades, mas são baseadas no uso e circulação de bens e serviços para o bem comum”.

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Com essas coisas maravilhosas em mente, saímos de Jacarepaguá de mala e cuia, com caixote debaixo de braço, uma porção de livros e roupas, e a vontade enorme de compartilhar experiências. Além da Feira da Pracinha, eu e minha mãe também participamos do grupo Viajantes do Território, que estava na feira (ficamos grudadinhos barraca com barraca <3) e fez um trabalho maravilhoso ao longo do dia. Chegamos por volta de 12h, e a feira durou de 13h as 16h30, seguida por uma confraternização que envolveu comida mexicana, tequila, mezcal e muito amor. É incrível a energia que circula após uma experiência como essa!

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A parte mais fantástica, pra mim, foi explicar aos passantes o que era a feira, o Banco dos Irreais e qual era o intuito da experiência. Muitos visitantes desavisados paravam na barraca pra tentar entender, e era engraçado ver o espanto e os olhinhos brilhando quando perguntavam “mas é pra troca? não tem que pagar nada?”. De fato, a maioria das pessoas não está acostumada a trocar algo que não use mais por algo que quer ou precisa. Não estamos acostumados a transações que não envolvem dinheiro, pois crescemos aprendendo que precisamos dele para ter o que queremos ou precisamos. Acho que essa é a beleza dos Irreais: mostrar que existem diferentes formas de consumo, e que o seu tempo, seu afeto e seus conhecimentos valem tanto – ou mais – do que dinheiro. Quando trocamos alguma coisa, não trocamos apenas a coisa em si, mas também uma quantidade de energia que alcança a outra pessoa. Uma quantidade de energia boa que é capaz de reconfortar, encher o peito de amor, arrancar sorrisos e tornar o dia mais bonito.

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Dito isso, compartilho o momento mais singelo que vivi no dia 25: Uma senhora chegou a barraca perguntando o que estava acontecendo ali. Expliquei, ela olhou as coisas e ficou apaixonada por um dos cachecóis. Coincidentemente, da pilha que levamos, aquele era o único que eu tinha tricotado. Como não tinha nada pra trocar, a senhora perguntou se eu não poderia vender. Expliquei que o intuito da feira era a troca, e que por isso não poderíamos vender os itens, e ela repetiu com pesar “gostei tanto desse cachecol, é tão lindo”, se despediu e continuou o passeio. Fiquei muito chateada por alguém ter gostado tanto de algo que eu fiz e não poder levar, então resolvi ir atrás dela e oferecer uma troca diferente: um cachecol por um abraço. Ela ficou tão feliz que deu um grito, me abraçou apertado e logo colocou a peça no pescoço. Acho que eu nunca me senti tão abraçada! haha Meia hora depois, passou novamente pela barraca e me deu mais um abraço. No final do dia, quando já estávamos desmontando, veio uma última vez pra me mostrar que ainda estava com ele no pescoço. Momentos como este não tem preço, mas tem um valor absurdo e marcam a gente. Vou levar comigo pro resto da vida a sensação de fazer uma desconhecida tão feliz com um ato tão simples. Dinheiro nenhum no mundo pagaria por isso.

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Além desta, outras trocas inusitadas aconteceram ao longo do dia: trocamos roupas por comida (quem já comeu nas barraquinhas próximas ao MAR sabe que foi uma das melhores trocas. hahaha), irreais por uma muda de batata doce, sabão e amaciante caseiros, sal de ervas e mais uma porção de coisas incríveis. Aproveitando o momento, Diogo também levou uma pilha de fotografias pra doar, o que gerou uma reação fantástica nas pessoas: ninguém está acostumado a ganhar nada de um desconhecido. Mais do que a doação das fotos, foi uma troca de tempo. Ninguém parava pra escolher fotografias sem conversar com a gente e contar alguma coisa. É impressionante o poder que esse tipo de acontecimento tem de “destravar” as pessoas, de fazer com que a gente fique mais vulnerável, mais aberto ao novo.

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Se eu escrevesse mil posts sobre o excelente dia que tive no sábado, ainda seria pouco pra descrever tudo que senti. Foi uma experiência revigorante, uma memória que vou guardar com muito carinho. Gostaria de agradecer imensamente a todos os envolvidos! A Bruna Camargos pelo convite, pela simpatia e pelo sorriso contagiante; Ao José Miguel Casanova, por viabilizar todas essas trocas e experiências fantásticas; A Núbia, João (a.k.a. minha mãe e irmão hehe) e Diogo pela alegria que é compartilhar projetos e ideias com vocês; Aos outros participantes da feira, pois é sempre muito lindo conhecer gente com pensamentos próximos aos nossos; Aos Viajantes do Território pela troca, pelos papos e pelas rabanadas, vocês são incríveis de lindos! Dizer “Muito obrigada!” é pouco pra toda essa gente linda, deixo aqui minha gratidão desmedida. <3

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Se você leu até aqui e ainda não tem conta no Banco dos Irreais, corre lá e compartilha seus saberes, tempo e experiências! Já cadastrei algumas coisas e vou adorar poder trocar com vocês. 🙂