No início da tarde de hoje terminei de ler A arte de pedir, da Amanda Palmer. Sou fã do trabalho e da carreira dela a alguns anos, e estava querendo ler o livro desde que ele saiu. Daí o tempo foi passando e ou eu tinha dinheiro e esquecia completamente de comprar, ou eu lembrava e não tinha mais dinheiro. Diogo me deu o livro de presente no início da semana, e li compulsivamente em todo o meu tempo livre até acabar.
Eu era uma bola encolhida no sofá, enrolada num lençol e desidratada de chorar (de alegria). Uma porção de coisas bateram ao longo da semana, enquanto eu lia o livro. Minha postura sobre a internet e seus usos, redes sociais, confiança, entrega, vulnerabilidade, tudo. Me sinto uma pessoa diferente. Como se o livro tivesse pego exatamente em todos os pontinhos e questões que eu tenho. Como se fosse um abraço gigantesco me dizendo “calma, vai ficar tudo bem se você for honesta e quebrar esses últimos limites”. E então eu quebro, começando por esse texto, que é o meu “oi mundo, tudo bem?” de alguma forma. Uma coisa escrita de dentro, com toda a minha honestidade. Uma porção de pedacinhos de pensamentos e questões que vão me batendo. E que todo mundo sente. É sobre isso, acho. Sobre lembrar que todo mundo sente as mesmas inseguranças e fraquezas e tristezas e alegrias que a gente sente. Todo mundo. Todo mundo quer ser visto e ouvido, e se a gente der a chance, as coisas acontecem.
Sempre fui uma pessoa de ir. Eu sou de verdade a pessoa do “vambora”. Difícil achar um rolê que eu tenha recusado. Mesmo. Se me falam “aparece lá em casa um dia”, eu apareço. Já estive em situações tristes, felizes, engraçadas e apavorantes, com essa de ir na casa de gente que eu mal conhecia. Um churrasco de policiais em Campo Grande. Um apartamento com um lustre muito lindo e enorme e um piano e papel de parede descascado como eu só tinha visto nos filmes. Fiz uma porção de amigos e conexões, mas de uns tempos pra cá fui me fechando e deixando as pessoas de lado. Os tempos foram difíceis. As pessoas não se comunicam e conversam e trocam mais como antes (eu achava, ao menos). Coisas aconteceram e então eu entrei numa onda de trabalhar pra bancar as coisas legais, mas me sentir cansada pra caraleo no final do dia e esquecer delas. Aí eu bancava lanches HAHA. A sério, eu bancava compensações. Os prazeres momentâneos que parecem relaxamento, mas são só isso mesmo: compensação.
Daí eu saí dessa. Especialmente ano passado. Fui voltando a ser eu, na minha forma artística e lokona de sempre. Tô aqui na minha casa lindona, cheia de projetos, cheia de ideias. Aí eu li esse livro. Meu cérebro explodiu. Dá vontade de fazer tudo de uma vez e compartilhar tudo de uma vez e abraçar todo mundo até não aguentar mais. Me deu, em resumo, uma puta vontade de ser eu. Dessa forma ainda mais aberta e vulnerável e vambora do que eu jamais fui.
isso inclui, pra mim, superar um trauminha de uns anos atrás: os haters não eram tão comuns. Eram os idos de não lembro que ano (pensando agora, isso me aconteceu duas vezes. Três talvez rs), e um comentário numa foto fez um cara me odiar e começar a me perseguir virtualmente. Meu blog, meu facebook, absolutamente qualquer coisa minha. Eram uns comentários pesados. Ele chamou os amigos. Ele fez um fake. Eu bloqueava e bloqueava e mais coisa continuava aparecendo. De lá pra cá, passei a ser muito mais criteriosa sobre o que postava na internet. Sem a experiência e com o pavor, minha reação foi desativar as contas de tudo e parar de escrever. Um tempão depois voltei a postar, mas só pros amigos próximos. As publicações fechadinhas e cheias de restrições. Só que eu acredito no que eu digo. Acredito também no que faço (tem, inclusive, música e série a caminho, me aguardem muahahahaha), e mais do que isso, acredito na possibilidade real de me conectar com as pessoas através do que faço.
Eu já vi gente chorar emocionada com texto meu, com trabalho meu. Eu fiz amigos graças a escrita. Eu mexi com as pessoas. Do meu ponto de vista, se uma pessoinha só ao longo desse tempo tivesse sido tocada por algo que eu criei, já seria suficiente pra eu acreditar. Mas. Foram. Várias. Pessoas. Ao longo de anos. Em todo lugar que fui e me expus. Eu fui com medo, eu fui tremendo, eu engasguei, mas quando eu fiz, a mágica aconteceu. É como diz no livro, “o dom precisa circular” (ou algo do tipo que fui catar pra citar mas não encontrei. Mais sobre isso abaixo). Não pelo meu ego ou por qualquer coisa que derive disso, mas porque se eu tenho a algo a dizer e acredito nisso, e toco outra pessoa quando faço, uma conexão verdadeira foi feita. Uma conexão real. A gente fica muito mais humano, eu não sei, quando se conecta assim com alguém. Muito mais real. É a pessoa chorando com o texto e eu entendendo que ela entendeu. Ela me vê. Eu vejo a pessoa também. É se despir de todas as barreiras, de tudo que nos distancia, e trazer pra perto. Trazer pra dentro. Levar um pouco e deixar um pouco. E então nenhum trauma ou treta ou comentário negativo consegue destruir isso. Depois que a troca foi feita, nada mais faz diferença. Eu escolho a troca.
Sobre o parêntese da citação: hoje pela primeira vez na vida fiz marcações e anotações em um livro. Eu considerava o livro uma coisa sagrada. Eu seria incapaz. Se via uma orelha, queria morrer. Dramática e purista, sim. Com eles todos inteirinhos. Aí eu fiquei pensando: mano, eu perdi uma cacetada de livros no incêndio. Os que não perdi ficaram encardidos pra sempre. As coisas passam (e Matheus incentivou). Eu queria que a próxima pessoa a ler o livro (e pretendo emprestar pro máximo de amigos que puder) tivesse um pouco de mim também, do que me moveu, do que bateu pra mim. E então eu peguei a caneta e o marca-texto e fui colorindo tudo que me parecia mais importante (passagens aleatórias pra quando a galera for no banheiro aqui, onde o livro vai morar haha), e foi maravilhoso e libertador. E se ao invés de ser a coisa intocada na estante, todo livro levar um pouquinho de quem leu?