Um mês

Tenho ao mesmo tempo uma saúde de ferro e de isopor. De um lado, resfriados raramente me pegam e qualquer ferida cicatriza na velocidade da luz. Do outro lado, convivo com hidradenite, lipedema, psoríase, dismetria e algumas sequelas de uma fratura no fêmur não tratada na infância (tendinite no quadril e artrose são algumas das minhas companheiras rs). Minha sensação é que se eu parar, paro de vez. Como cresci sem validação para minhas dores e questões, aprendi muito cedo a engolir o choro e seguir em frente. Isso é uma benção e uma maldição: sem isso, eu não seria capaz de fazer tudo que já fiz até aqui, mas com isso tenho também dificuldade para entender o limite. Sempre me impressiono com quem valida as próprias dores e deixa de fazer as coisas por conta delas. Não me foi dada essa opção. Eu sorrio, aceno e sigo em frente. É péssimo e maravilhoso, tudo ao mesmo tempo. Me fez mais resiliente, mas me fez mais sem noção.

Com tudo, escolhi ignorar a realidade do meu corpo e fazer o que queria nos últimos anos. Uma escolha burra, sei bem. Andei de patins como quem tem as pernas iguais, fiz academia sem contar nada pra personal, corri como se pudesse. Terminei mais fudida do que comecei, com meses de intervalo entre as atividades e muitas vezes sem nem conseguir encostar o pé no chão. Uma animal. E então veio aquilo que me fez parar com tudo: morar em uma casa com um piso todo torto. Quem diria que seria isso, e não uma das minhas muitas lesões, que me faria parar e ser obrigada a reavaliar as coisas.

A yoga foi minha grande companheira nos últimos anos. Já tinha feito antes, mas de 2018 pra cá passei a levar a sério e ter uma prática diária. Até o piso torto. Se você já é torta e tem um piso torto, fazer yoga não vai dar certo. Descobri da pior maneira, me lesionando em uma aula simples. O resultado foi praticamente um ano inteiro sem fazer quase nada. Andar foi minha única atividade, e ainda assim saí de 10, 12, 14km por dia pra 3, 4, 5km no máximo. Um ano de quase sedentarismo depois de anos de atividade intensa. Minha saúde sofreu, meu quadril sofreu, meu joelho sofreu. A angústia foi tanta que resolvi correr, e na corrida consegui uma das lesões citadas anteriormente. Ir longe demais me tirou o pouco que eu tinha, e nem andar eu estava conseguindo. Some a isso a morte do único calçado que não me causava dor e pronto, uma espécie nova de sedentarismo tomou conta.

Mudei de casa, e aqui tenho o chão plano. Lisinho, retinho, como deve ser. E então tudo mudou: há um mês minha yoga matinal voltou a fazer parte da rotina. Com ela vieram as longas caminhadas e dias seguidos sem sentir dor. Só quem sente dor constante sabe a benção que é passar dias seguidos sem sentir nada. Sinto que a cada dia tudo vai entrando mais nos eixos. Sem dor eu consigo raciocinar com clareza, consigo sentir, consigo prestar atenção, consigo respirar. Consigo até respirar através da dor, quando ela vem, sem sentir que deveria fazer alguma coisa que não me cuidar e esperar ela passar.

Nem tudo são flores: yoga não é só exercício, sei bem. Bate em toda a minha sensibilidade. Move tudo, tira tudo do lugar. E esse primeiro mês foi também de muito choro, tristeza, confusão, pesadelos. Respiro através e tento chegar do outro lado. Depois de sentir dor por muito tempo, é difícil entender quem somos sem ela. É como se ela passasse a fazer parte do tecido que compõe o ser. Como se a gente não existisse de verdade sem a dor. Mas eu existo. Eu existo. Existo e tento aprender como me amar e me aceitar com tudo que sou. Tento aceitar o que a genética me deu, o que a vida me deu, o que fiz com isso tudo. Tento respirar e acreditar que se eu puxar o ar fundo o suficiente ele vai me ajudar a deixar tudo ir, vai me ajudar a jogar fora tudo que não sou, tudo que não preciso, toda expectativa. Enquanto esse dia não chega, sigo tentando.

Como estudar yoga sem gastar (muito) dinheiro

Vivemos em um mundo que transformou toda e qualquer coisa em produto. Nesse sonho molhado do capitalismo, certas profissões e caminhos se tornam cada vez mais difíceis. Cargos e profissões que não dependiam de diploma até outro dia veem os requisitos aumentarem e aumentarem, mesmo quando a formação é virtualmente inútil para o trabalho exercido (conhecimento é sempre uma coisa maravilhosa, mas conhecimento acadêmico não é necessário para a maior parte das profissões).

Com o advento do EAD, era de se esperar que a educação ficasse mais barata, que mais portas fossem abertas e novas oportunidades surgissem. Não foi o que aconteceu. Dependendo do que você quer estudar, o modelo online é tão ou mais caro do que o presencial, mesmo quando não envolve aulas ao vivo ou quando o conteúdo foi gravado há muitos anos atrás. É o caso da yoga. Uma formação há 3 anos atrás custava entre R$ 2.000 e R$ 4000. Hoje uma escola online cobra entre R$ 5.000 e R$ 8.000, sem aulas ao vivo, sem espaço físico e sem muita preocupação com o estado em que o aluno sai do outro lado.

Esse nível de investimento não é possível para a maioria de nós mortais, e mesmo querendo muito ou sonhando alto, muitos morrerão na praia sem conseguir alcançar o tão sonhado certificado. Para quem mora nos grandes centros é ainda pior: o aluguel não para de subir e a margem para investimento em estudos sem retorno financeiro imediato é cada vez menor. Se por um lado é possível completar uma graduação pagando R$ 50 por mês, se formar e exercer profissões como instrutor de yoga ou de meditação se torna cada vez mais caro, difícil e inalcançável para quem não nasceu em berço de ouro.

Para tentar reduzir esse gap, resolvi contar meu caminho e as práticas e pesquisas que me levaram a conseguir uma certificação acreditada pela Yoga Alliance International por menos de R$ 50. Sim, menos do que uma mensalidade em um EAD ruim em um curso sem propósito! É hora de virar o jogo, minha gente, e assim conseguiremos construir um futuro de yoga menos excludente. Um futuro em que as pessoas não relacionam “professor(a) de yoga” a uma pessoa branca, magra, sem noção e das classes altas. Vamos lá:

1 – Estude a filosofia com materiais gratuitos

Uma das belezas da internet é a abundância de e-books, livros, vídeos e textos sobre praticamente qualquer assunto. Com yoga não é diferente. Os livros que são a base da filosofia são milenares, então é possível encontrar versões em PDF gratuito sem ferir ninguém: não existe direito autoral válido para obras de tanto tempo atrás, e o texto puro é encontrado em versões disponibilizadas gratuitamente. No youtube é possível encontrar canais de professores sérios e dedicados, além de vídeos legendados de grandes gurus.

Leve seus estudos a sério: escolha um tópico de cada vez, pesquise com calma e cuidado, faça anotações e aproveite as jornadas gratuitas de diferentes canais para tirar dúvidas e fazer perguntas. Mesmo os instrutores dos cursos caros não costumam ver problema em responder dúvidas de não-alunos. Por trás da fachada capitalista, ninguém se envolve com yoga sem amor à prática e entendimento sobre a importância do serviço altruísta!

2 – Vasculhe sebos e bibliotecas de bairro

O hype contemporâneo não é o primeiro hype de yoga na história do ocidente. Nos anos 60 e nos anos 80 yoga também estava em alta, e com isso um sem fim de publicações foram lançadas. Vasculhando sebos, feiras de livros e bibliotecas de bairro é possível encontrar livros excelentes e importantes por um valor muito menor do que os absurdos praticados na internet. Meu Bhagavad Gita, por exemplo, custou R$ 10.

Se for procurar online, cheque sites como a Estante virtual e o Enjoei. Comprei meu Os Yoga Sutras de Patanjali por menos de R$ 40, já contando o frete. Também é possível encontrar PDFs, mas com o tempo você vai perceber que é bom ter o material para fazer anotações e consultar. Se seu bairro conta com impressão barata, essa também é uma opção (onde eu moro isso não existe haha).

3 – Pratique com a ajuda do youtube

Os Asanas são a menor parte da prática, diferente do que nos levam a crer. Dos 195/196 Sutras, somente 3 citam os Asanas. Meditação e Pranayama (exercícios de respiração) são muito importantes e devem ser realizados todos os dias, assim como sua prática de Asana, para que se alcance o verdadeiro entendimento e propósito da yoga. No youtube é possível encontrar guias bastante completos e maravilhosos de todas essas práticas, incluindo meditações guiadas. Use a internet a seu favor e não espere ter dinheiro para frequentar um estúdio!

Comecei a praticar yoga ao vivo, trocando meus serviços de web designer por alguns meses de aula. Depois disso, passei a praticar com o youtube. São anos de prática a essa altura, com muita atenção e cuidado com a minha integridade física! Nos primeiros dois anos eu não tinha nem um tapete, praticava diretamente no chão. Se você está disposta, tudo é possível! Não é sobre ter o tapete perfeito ou frequentar um estúdio bonito: é sobre fazer o melhor possível com a condição que você tem agora!

Você não precisa de muito espaço, você só precisa de disciplina, amor no coração e muita vontade de aprender e melhorar enquanto ser humano. Acredite, tudo é possível com disposição! ♥

4 – Ouça seu corpo

Yoga não é virar de cabeça para baixo. Não é se sustentar em uma mão só. Se um Asana é desconfortável ou exige mais do que seu corpo é capaz naquele momento, essa não é a hora para incluí-lo na sua prática. Se você não consegue respirar através da postura, isso pode te fazer mais mal do que bem, gerar lesões e comprometer sua caminhada. Ouça seu corpo, respeite seus limites, aprenda a olhar com mais carinho para si mesma e a caminhar com os pés firmes no chão.

Essa é uma das essências da yoga, inclusive: o autoconhecimento, a introspecção, a capacidade de se manter firme e estável mesmo quando tudo ao redor é caos.

Isso é muito importante especialmente para quem aprende e estuda sozinha! Certas posturas podem gerar lesões graves, então vale aquela boa e velha máxima: menos é mais.

Existem mestres que nunca fizeram uma parada de mão. Existem mestras que usam cadeira de rodas. Tudo é yoga, porque ela é uma coisa muito mais profunda! É como eu disse no tópico anterior: Asanas são uma pequena parte de uma filosofia muito vasta!

5 – E a formação?

Passei anos estudando por conta própria até encontrar uma formação que coube no meu orçamento. Me recusei a juntar dinheiro e dar milhares de reais suados para patricinhas da classe média ou caras sem noção que se acham o guru dos gurus. Me recusei também a dar fortunas para cursos online, uma vez que tudo é gravado de uma vez e – por mais trabalho envolvido – não faz sentido cobrar uma fortuna por isso. Não compre gato por lebre e não caia nos golpes dos falsos gurus.

Desde a pandemia, a Yoga Alliance (uma das maiores instituições de acreditação em yoga do mundo) permite cursos online, e com isso aconteceu um boom na oferta. Mesmo com o vasto número de opções, tudo ficou cada vez mais caro. Eis que descobri o curso de 200h da Bodsphere, uma empresa formada pelo casal de mestres mais incrível: Samarthya & Preetika.

Um curso completo por menos de R$ 50: Udemy + Bodsphere

Com o intuito de espalhar a verdadeira filosofia da yoga a preços realmente acessíveis, eles cadastraram um curso de 200h no Udemy, um curso acreditado pela Yoga Alliance, o que significa que após a conclusão você pode se cadastrar como instrutor na instituição (lembrando: a YA é mundialmente reconhecida ♥). Eles também oferecem cursos de Yoga Nidra, Yin Yoga e Pranayama, que contam como horas complementares na Yoga Alliance e enriquecem ainda mais a formação.

Enche meu coração de alegria saber que existe gente no mundo que realmente quer espalhar a yoga, que realmente acredita no seu potencial transformador e que entende que nem todo mundo tem condições de arcar com os altos custos de uma formação!

O curso é muito completo, aborda tópicos bastante complexos, tem uma porção de ebooks e recursos, reuniões abertas aos alunos no zoom e uma lista de leitura recomendada sensacional. Vale muito a pena! O preço regular é R$ 149,90 cada metade, mas ficando de olho no Udemy você consegue descontos e promoções e cada metade chega a R$ 22,90!

Infelizmente, por hora o curso só existe em inglês (com legendas em inglês), mas depois de completar minha formação (estou na metade :D), pretendo me disponibilizar para traduzir as legendas para o português. Espero que eles aceitem, assim ainda mais pessoas no Brasil terão essa oportunidade! <3

Curso de Redução de Stress Baseada em Mindfulness – 100% gratuito e com certificação

Vou começar citando o que diz o site:

Este curso online de MBSR (Mindfulness-Based Stress Reduction) é 100% gratuito, criado por um instrutor MBSR certificado, e é baseado no programa fundado por Jon Kabat-Zinn na Faculdade de Medicina da Universidade de Massachussetts.

Essa galera estuda os efeitos da meditação e do mindfulness no corpo desde os anos 80! O curso é incrível, cheio de recursos, práticas guiadas e explicações aprofundadas sobre cada um dos tópicos. Eles também tem reuniões no Zoom, para tornar o estudo menos solitário e permitir que os estudantes façam perguntas e comentem sobre a prática e os efeitos sentidos na vida.

Como existe gente abençoada e disposta no mundo, ele está disponível em inglês, português (BR), espanhol, russo e chinês! Comecei recentemente e estou apaixonada pelos materiais. Depois de lecionar ao vivo por muitos anos, Dave Potter percebeu que muitos estudantes ficavam de fora, seja por razões financeiras ou logísticas, e resolveu tornar o ensino do mindfulness sua missão de vida. Incrível, n´é? Conhecimento nenhum tem valor se não passamos adiante!

Além desses dois cursos, que servem de base para você avançar na sua prática e quem sabe se tornar também professora, é possível encontrar no Udemy outros cursos acreditados sobre temas relacionados, também na faixa dos R$22-27. Com disciplina, boa vontade e coração aberto, é possível chutar o balde do capitalismo e tirar da yoga a carga de classe média e hype que o ocidente jogou em cima dela!

Se tiverem qualquer dúvida ou quiserem conversar, comentem abaixo ou enviem um email para dandara.bayer@gmail.com. Vou amar conversar contigo! ♥

Quando menos quero, é quando mais preciso

Todo mundo experimenta dias de preguiça e uma vontade enorme de deixar a prática de lado. Para mim, esses dias acontecem quando me sinto muito estressada, quando a mente nubla e sinto que nada vai me ajudar e, especialmente, quanto tudo que eu queria era desaparecer do mundo sem deixar rastros. Luto com a depressão e a melancolia desde criança, e já perdi algumas vezes para ela: houve um tempo em que passava a maior parte do meu tempo deitada na cama, sem energia mesmo para as coisas mais básicas. Como nasci pobre, juntava minha pouca energia para trabalhar e deixava todo o restante ruir. Já passei semanas sem tomar banho. Já passei semanas sem escovar os dentes. Já fiquei com o cabelo tão sujo que as feridas sangravam, coçavam e doíam. Às vezes nem acredito que saí desse estado, e creio menos ainda que saí dele sozinha.

Nesses dias, em que tudo é um tanto cinza e dá vontade de desistir, tenho experimentado reforçar a prática ao invés de evitá-la, e quando tudo termina percebo o óbvio que a falta de humildade não nos deixa crer: quando menos temos vontade, é quando mais precisamos. Não vale somente para a yoga ou meditação, vale para tudo, do banho ao exercício físico, a comida saudável, tudo. É muito difícil acreditar nisso do auge do sofrimento, mas existe uma coisa muito poderosa, muito forte, muito maior do que levar em consideração a vontade ou a falta dela: disciplina.

Disciplina, diferente do que nos leva a crer a cultura capitalista ocidental, não tem a ver com força de vontade. A vontade não tem nada a ver com isso. É aquele clichê de não fazer porque quer, mas sim porque precisa. Precisamos de higiene, alimentação, carinho e cuidado com nosso corpo. Precisamos mesmo quando não gostamos dele e/ou quando não queremos. Precisamos mesmo quando todo o restante parece ruir. Disciplina é sobre fazer o que se tem que fazer sem deixar a vontade – ou a falta dela – tomar conta.

É muito difícil entender e alcançar a disciplina vivendo na sociedade que vivemos, mas faz algum tempo descobri uma forma muito poderosa de fazer a disciplina acontecer: encaro todas as atividades como encaro o trabalho. Somos educadas desde pequenas para colocar o trabalho acima de tudo. Estudamos para conseguir ou melhorar o trabalho, e sem o trabalho não conseguimos morar, comer, beber, existir. Não é sobre perder o prazer das atividades, mas sobre encontrar uma forma de realizá-las mesmo nos piores dias. Mesmo quem sofre com depressão – especialmente se não for rico rs – segue trabalhando. Somente em estados muito graves e avançados esse ímpeto se perde. De maneira geral, a capacidade de trabalhar é a última a se perder, justamente pelo lugar e importância que aprendemos a dar a ele desde a infância. Uma das primeiras coisas que me lembro são adultos perguntando o que eu queria ser quando crescesse, e esse “ser” nada tinha a ver com personalidade ou paixões, mas sim com profissões. Quis ser uma porção de coisas, e no final não me tornei nenhuma delas, mas desde pequena vivia com a angústia e o questionamento sobre qual seria meu caminho profissional.

Quando enxergo o banho, a yoga, a meditação e mesmo os prazeres da vida como enxergo o trabalho: atividades imprescindíveis para a continuidade da minha existência, consigo tirar de tudo o peso da vontade. Da mesma forma, tirando o peso da vontade consigo abrir mão de extravagâncias e lutar contra meus vícios (alô tabaco, estou falando com você). Tirar o peso da vontade é encontrar o caminho para a disciplina, e tudo fica melhor ainda se matamos também a pretensão de ir do zero ao cem. Jesus transformou água em vinho, mas esse tipo de milagre não tem espaço no cotidiano do trabalhador da cidade! haha Se vamos do zero ao cem perdemos a chance de apreciar o caminho e entender nossos próprios processos. Com uma mudança de cada vez, as coisas tem a chance de – com o tempo e a disciplina – se tornarem definitivas.

Com essa mentalidade menos focada na vontade, consegui diminuir o consumo de cigarros de 40/dia – sim, dois maços inteiros! – para 5-6/dia. É o ideal? Não, o ideal é parar completamente, mas que valor teria acreditar que minha vontade de parar seria suficiente? Um viciado é um viciado, e prefiro desenvolver aos poucos a disciplina até me sentir capaz de parar completamente.

No final, disciplina é a capacidade de passar por cima da vontade ou da falta dela. É a capacidade de respirar fundo e entrar no automático quando falta o ímpeto. Prefiro construir uma vida de disciplina do que continuar acreditando na falácia capitalista da força de vontade! Na força de vontade me sentia fraca. Na disciplina me sinto capaz de tudo!

Autogentileza

Tenho problemas ortopédicos que me fizeram por muito tempo me sentir menos. Minha deficiência é sutil quando vista de fora, mas a dor que ela causa já me tirou o sono e me deu de presente muitas noites mal dormidas. Para completar, fui obesa por muito tempo, o que me fazia sentir ainda menos e motivava os exageros que cometi na tentativa de mostrar que era tão capaz quanto os outros. Do auge dos 140kg, sentar no chão de pernas cruzadas era uma atividade excruciante. Encostar os joelhos no chão? Garantia de que ficariam por dias ainda mais inchados e doloridos. A perna menor, que suportava a maior parte desse peso, sente até hoje as consequências de anos de negligência.

Não me culpo por isso. Cresci ouvindo que minhas dores não existiam. Sentia que talvez fosse dramática e que devia aguentar tudo, todo o tempo, e mostrar que de fato não era nada, mesmo sentindo a dor me consumir. Desse tempo até aqui perdi muito peso, fruto da prática de yoga, caminhada, trilhas e alimentação adequada. Não foi um esforço ou um sacrifício, tudo aconteceu naturalmente. O que nunca foi natural foi o desejo de provar para o mundo que eu era tão ou mais capaz. Desde a adolescência sei, por exemplo, que não posso correr. Ainda assim, lá estava eu correndo, e com isso consegui mais uma fratura, mais uma dor, mais tempo parada. Isso é o que ganhamos quando não respeitamos nosso corpo: uma quebra na rotina de exercícios (em todas as rotinas, na realidade) que nos faz ficar ainda piores. Sem a corrida nada disso teria acontecido, mas sem ela eu também nunca teria descoberto a razão de tanto sofrimento: uma fratura do fêmur que me aconteceu na infância e não teve o tratamento adequado. Ver o estado do osso do meu quadril na tomografia foi uma mistura de emoções. Não dava mais pra fugir do fato de que tenho uma deficiência, porque agora eu tinha a certeza que nunca tive. Ao mesmo tempo, morreu ali qualquer pretensa coragem de me desafiar. Quando se tem uma deficiência certas coisas não são desafios, são somente inconsequência. Uma coisa é fazer sem saber, outra coisa é fazer sabendo.

Cada vez que me lesiono porque não tive amor, compaixão e gentileza comigo mesma, passo meses sem conseguir me mover direito, e todo o meu esforço – de tempos, muitas vezes – vai por água abaixo. De que adianta se desafiar se você vai terminar sem conseguir andar? Exatamente, não adianta de nada. Isso não é desafio, é ódio por si. Quão longe eu estaria agora se não tivesse cismado em fazer coisas que eu sabia não poder, só para provar pro mundo que sou capaz? Eu não sou normal, nunca vou ser perfeita, não existe cirurgia ou tratamento que resolva meu problema, a não ser que inventem um transplante de perna que se torne popular durante meu tempo de vida. Recentemente me dei conta: eu sentiria tanta vontade de ser normal se vivesse em uma sociedade que respeita deficientes? Eu teria esse desejo se fosse aceita? Acredito muito que não.

Por muito tempo eu sentia uma vergonha imensa de me exercitar. Não tinha roupas adequadas, tinha vergonha de suar muito, tinha medo de me machucar, tinha emoções tão fortes que me impediam de respirar. Quando comecei na yoga, há muitos anos atrás, temia certos asanas não por qualquer questão física, mas porque mostrariam o estado deplorável da única calça que eu tinha, remendada à exaustão no meio das pernas. Sentia tanta ansiedade que não conseguia respirar, muito menos encontrar equilíbrio ou ritmo. Só consegui relaxar e realmente aproveitar a prática quando comecei a fazer tudo em casa. Para além da minha falta de roupas, me dava vergonha do corpo. Vergonha de como as gorduras do meu lipedema se penduravam em certas posturas. Vergonha da minha barriga, dos meus joelhos tortos, de tudo. Eu me odiava tão profundamente que não conseguia enxergar a realidade: todo o ódio que sentimos não vem de nós, vem da forma como a sociedade nos olha. Tem gente que vai internalizar isso e passar a vida se odiando. Eu, por sorte, consegui sair dessa. Ainda não encontrei o amor profundo por mim mesma, mas já não me desprezo completamente como antes. A dor me mostrou que sem autogentileza e autocuidado eu terminaria morrendo jovem, muito jovem, muito antes do que imaginava ou gostaria, e apesar do suicídio ter passado muitas vezes pela minha cabeça, sei que meu desejo era que a minha realidade desaparecesse, e não que eu morresse.

Com tudo, hoje quis escrever um pouco mais sobre essa camada da minha história, com o intuito de provocar alguns questionamentos e passar alguns pensamentos adiante: você pratica a gentileza consigo mesma? Você se exercita por amor ou por ódio? Você quer ser melhor dentro da forma na qual nasceu, ou seu desejo é alcançar o impossível? Você se odiaria se não tivesse sido ensinada a se odiar? Você consegue sequer enxergar que foi ensinada, ou ainda acredita que a tua falta de autoestima e de amor realmente saiu do seu coração?

A vida é muito curta e muito longa, tudo ao mesmo tempo. Quando se sente dor, uma noite é uma vida inteira. Mas se existe qualquer chance de acabar com a dor, precisamos agarrar essa chance com unhas e dentes, com carinho e compaixão, com força e tranquilidade. O exagero de hoje é a dor de amanhã, mas a paciência de hoje é o sucesso da semana que vem. Dane-se que eles conseguem fazer crossfit, subir parede ou levantar o próprio peso. Foda-se os bombados, os viciados em academia, os corredores. Importa nosso próprio corpo, nossa própria jornada, e ela não pode ser comparada a de mais ninguém. Hoje me maravilho por terminar um alongamento simples, porque a dois meses atrás eu mal conseguia andar até o banheiro. Me sinto orgulhosa de mim por conseguir encher meus pulmões de ar e por ter reduzido meu consumo de cigarros em 85%. Eu poderia me odiar e me sentir mal por não ser nesse momento capaz de fazer 14km de trilha – coisa que já fui – ou por ainda fumar cigarros, mas o que eu ganharia com isso? Apenas uma ansiedade e um ódio por mim que me fariam ir ainda mais devagar.

No final, se amar é mais importante do que qualquer desafio. Se respeitar é libertador, rebelde, revolucionário. E se o amor por si por difícil, comece pela gentileza. Se trate como trataria uma criança, com cuidado e com afeto. Você colocaria uma criança para se exaurir fazendo exercício físico? Se sim, procure ajuda psiquiátrica, porque você é louca. Que tal pegar esse ódio que aprendeu a sentir por si e transformar em ódio do sistema? Talvez assim chegue o dia em que ninguém precise passar pelo que passamos.

Não fuja pras montanhas

A figura do monge me entristece. Não vejo a grandeza da abdicação. Quando olho o monge, eu vejo alguém que por alguma razão escolheu se abster do convívio social, em muitos casos as custas do bem estar de outra (ou outras) pessoas. Pra cada homem muito velho e sábio e reconhecido e lembrado, tem uma mulher que se fudeu pelas atitudes dele. Uma mãe que pagava as contas e catava os cacos. Uma tia que dava mesada. Uma esposa que ficou pra trás com filhos e nenhuma renda. E se você entra nos que não fuderam ninguém, são só pessoas que não viveram, pura e simplesmente. Porque parece muito bonito e poético e romântico largar tudo e ir pras montanhas, mas a realidade é essa: abrir mão do autoconhecimento real – que só conseguimos no convívio e no diálogo com outros seres humanos – para uma suposta vida espiritualizada é basicamente não viver.

Mas isso não é meio radical?

Mais radical do que largar tudo e ir pras montanhas? Creio que não. Espero a essa altura que você entenda “as montanhas” como qualquer uma dessas buscas por espiritualidade que terminam no isolamento. Bônus se a motivação forem práticas orientais ancestrais. Mais bônus ainda se tiver a ver com a Índia. Você não vai se conhecer mais porque usa bata e raspou a cabeça. Você não vai se conhecer mais entoando um mantra por horas e horas e horas. Também não vai se conhecer mais deixando as pessoas pra trás.

Mas você se conhece em cada briga. Em cada vez que quis falar e não disse. Em cada percepção sobre o seu corpo e a sua cabeça. Você se conhece quando se joga sem medo. Quando erra e aceita que errou. Quando pede desculpa do fundo do coração. Quando se compromete a melhorar. Os mantras e batas e práticas podem até ajudar, mas ir de cabeça é se abster, e se abster é se alienar. A tão falada atenção plena tem que vir de dentro pra fora, e não o contrário. Quando você tem atenção em você, nos seus processos, no seu crescimento, de uma maneira gentil e não egoísta, o mundo ao seu redor começa a mudar. Não é balela, não tem fundo religioso, não precisa de isolamento. Se o autoconhecimento te leva ao isolamento e não ao compartilhamento, ele realmente contribui pro teu crescimento como pessoa? Ele realmente contribui pro mundo?

Qualquer pessoa que passar uma semana em um retiro – e eu tô falando dos brandos, sem nem mencionar coisas como silêncio absoluto rs – vai voltar renovada das ideias, leve, feliz. O problema é que as pessoas confundem as coisas: não foi o retiro em si, ou a filosofia do retiro que te fez bem. O que te fez bem foi sair da vida de bosta da cidade grande. Aí a pessoa volta e uma semana depois tá escaralhada de estresse de novo. Lógico. Ser tranquilo, pacífico, centrado e sábio quando tiramos todas essas camadas é muito fácil. Agora imagina ir enfiando, mesmo que seja a força a princípio, todas essas práticas no dia a dia da vida real? Imagina respirar profundamente todo dia de manhã. Imagina ser grato. Prestar atenção nas flores. Imagina se perdoar e se amar de verdade. Imagina não precisar do retiro.

Enfim, é isso. Não fuja pras montanhas. Nem pra lugar nenhum. Não fuja de você e de tudo que você pode ser. Não fuja do mundo real. Contribua para a construção de um mundo real que comporte a espiritualidade, que comporte o autoconhecimento, que comporte a autocura. Que comporte até o isolamento, que de vez em quando se faz necessário pra gente lidar com os furacões da mente. Da próxima vez que der vontade de fugir ou se entregar a mais alguma filosofia milenar e milenarmente transformada em mais uma balela falocêntrica e patriarcal, vá de encontro ao que te faz querer fugir. Vai correndo. Vai pra colidir. Pega os cacos e reconstrói. Visite a montanha. Ame a montanha. Não fuja pra ela.