No início desse ano eu tinha um milhão de planos e sonhos e coisas que queria fazer. É meu primeiro ano fora de casa. Meu primeiro ano inteiro com Matheus. Aí eu fumei maconha pra caralho e bebi um monte de bebida e estava o dia todo sem comer e caí convulsionando no chão do banheiro. Estava perto do carnaval e eu sou um ser de carnaval e eu queria tudo aquilo, pela primeira vez acompanhada por alguém que gosta da zueira e do caos tanto quanto eu. E eu convulsionei. E eu caí. Eu abri os olhos e eles dois olhavam pra mim como se eu tivesse morrido e voltado. Eu grunhi. Eu me debati de leve, caída no chão do banheiro. Eu machuquei o joelho tão feio que não conseguia levantar do chão. Sentar no vaso sanitário foi uma tarefa hercúlea e eu mal conseguia respirar de dor.
Não fui ao médico. Eu nunca vou ao médico. Quase nunca, agora que estou tentando ser um adulto responsável com a saúde. Percebo a cada dia que existem adultos responsáveis sobre tudo em suas vidas, menos a saúde. A carreira e a casa e as coisas todas vem na frente. Até a gente ter desses colapsos. Até o corpo não aguentar o baque. Sou responsável com a vida, irresponsável comigo. E então eu fiquei esperando o meu joelho melhorar. Sem andar por uns dias. Querendo ver a rua e as pessoas e as coisas todas e arrumar a casa e criar e correr. Eu mencionei que tinha começado a correr? Morreu. Morreu antes que eu conseguisse percorrer nossos 2k sem morrer. Ele ia melhorando e eu ia forçando mais um pouco. É só até o mercado. É só um dia de carnaval. É só mais outro. Eu mancava e eu sorria. Eu mancava e eu pensava que mesmo perdendo muito, eu continuava tentando não perder. Me agarrando as pontinhas soltas da minha boemia recém recuperada.
Estou aqui e é junho. Junho. É o meio do ano. Não fiz quase nada do que gostaria de ter feito ou fiz em velocidade reduzida ou continuo tentando fazer. Nada saiu como o planejado. E é precisamente por isso que tendo a não planejar muito o que vou fazer. Toda vez que planejo profundamente eu me fodo profundamente e tudo perde o sentido. Prefiro ir sentindo a vida. Ir sentindo e vendo até onde aguento. Gosto do plano e gosto do esquema, mas gosto também desse sabor de se ver perdido e continuar vivendo. De não fazer tanto quanto gostaria e de repente fazer tudo de uma vez. Eu não nasci pra calma do plano, eu nasci pro estalo da realização. Eu percebo e me percebo e sobrepenso e parece velocidade mas por dentro sou uma tartaruguinha. Eu sou uma velhinha da tijuca (ou de copacabana). Eu sou vento mas o vento cresce e cresce e catástrofes inteiras são feitas de vento.
E então eu paro e olho pro ano novamente. Seis meses. Eu saí no carnaval, afinal. A casa foi tomando forma e jeito e eu aceitei que nunca vou ser organizada e certa como gostaria. Eu nem gostaria, o mundo sim. Eu casei. Eu, que nunca achei que casaria, casei com a pessoa mais maravilhosa de todas as pessoas. Saí e bebi e vi e escrevi e construí, construo, construímos. Com afinco e flutuando. Perdidos e achados. Perdidos e reluzentes. Vagantes e errantes e de um brilho desmedido. Planejar é se colocar pra frustração. Viver assim, no ritmo que se tem, sendo o que se é, é muito mais difícil. O caminho é mais longo, talvez muito mais, mas a sorte anda do lado de quem tem coragem, e eu tenho. Muita. De sobra.
Eu paro e olho pro ano e eu desço desse pedestal de drama e dor. Eu saio do void. Eu mesma me coloco ali porque esqueço da minha capacidade infinita de me reinventar e refazer e recomeçar. Eu mesma me coloco ali quando esqueço de mim. Não quero me esquecer. Eu quero a vida e eu quero o caos e eu quero pegar tudo que foi até aqui e crescer mais do que já cresci, mais do que (me) acho capaz. Eu paro e olho e vou, agora. Merda acontece. Vida que segue.